A sós

setembro 6, 2015

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“Hoje, falho de ti, sou dois a sós…”

(de Fernando Pessoa a Mario de Sá-Carneiro)

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colyrio de la mañana

agosto 31, 2015

Hemerocallis

Abriram-se as comportas dos afogados
“Romperam-se os diques”, diria o Gallo.

No olhar de soslaio e marejado
partiu-se o esquerdo tendão
do meu olho esquerdo.

Voltei a ser escravo
do meu olho estrábico.

As mãos negativas

agosto 30, 2015

Le Plongeon - Maurice Tabard, 1948

Les mains négatives (1979)
Marguerite Duras

On appelle mains négatives les peintures de mains trouvées dans les grottes magdaléniennes de l’Europe Sud-Atlantique. Le contour des ces mains – posées grandes ouvertes sur la pierre – était enduit de couleur. Le plus souvent de bleu, de noir. Parfois de rouge. Aucune explication n’a été trouvée à cette pratique.

Devant l’océan
sous la falaise
sur la paroi de granit

ces mains
ouvertes

Bleues
Et noires

Du bleu de l’eau
Du noir de la nuit

L’homme est venu seul dans la grotte
face à l’océan
Toutes les mains ont la même taille
il était seul

L’homme seul dans la grotte a regardé
dans le bruit
dans le bruit de la mer
l’immensité des choses

Et il a crié
Toi qui es nommée toi qui es douée d’identité je t’aime

Ces mains
du bleu de l’eau
du noir du ciel

Plates
Posées écartelées sur le granit gris
Pour que quelqu’un les ait vues

Je suis celui qui appelle
Je suis celui qui apellait qui criait il y a trente mille ans

Je t’aime

Je crie que je veux t’aimer, je t’aime

J’aimerai quiconque entrendra que je crie
Sur la terre vide resteront ces mains sur la paroi de
granit face au fracas de l’océan
Insoutenable
Personne n’entendra plus
Ne verra
Trente mille ans
Ces mains-là, noires
La réfraction de la lumière sur la mer fait frémir
la paroi de la pierre
Je suis quelqu’un je suis celui qui appelait qui
criait dans cette lumière blanche
Le désir
le mot n’est pas encore inventé
Il a regardé l’immensité des choses dans le fracas
des vagues, l’immensité de sa force
et puis il a crié
Au-dessus de lui les fôrets d’Europe, sans fin
Il se tient au centre de la pierre
des couloirs
des voies de pierre
de toutes parts
Toi qui es nommée toi qui es douée d’identité je
t’aime d’un amour indéfini
Il fallait descendre la falaise
vaincre la peur
Le vent souffle du continent il repousse
l’océan
Les vagues luttent contre le vent
Elles avancent
ralenties par sa force
et patiemment parviennent
à la paroi
Tout s’écrase
Je t’aime plus loin que toi
J’amearai quiconque entendra que je crie que je t’aimeTrente mille ans

J’appelle
J’appelle celui qui me répondra
Je veux t’aimer je t’aime
Depuis trente mille ans je crie devant la mer le spectre blanc

Je suis celui qui criait qu’il t’aimait, toi.

* fotomontagem Maurice Tabard – le plongeon -1948

Canção da mais alta torre

agosto 27, 2015

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redenção

junho 19, 2015

Diante das perdas irremissíveis,

o que me espantou não foram as perdas, mas o irremissível.

Diante do irremissível, quis me redimir

dia chuvoso em 73

e, enfim, entendi a diferença entre

o remissível

e o redentor.

“It was always the becoming he dreamed of, never the being”

maio 14, 2015

OS HOMENS OCOS

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,

Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam – se o fazem – não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

– Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular

III

Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.

IV

Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio

Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.

V

Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada

Entre a ideia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
A vida é muito longa

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o

Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.

(T.S. Eliot)

Doktrin

março 26, 2013

Bate teu tambor sem medo,
Depois beija a vivandeira!
Eis a Ciência; e a dos livros,
Súmula mais verdadeira.

Tira o povo do torpor,
Toca o hino com veemência,
Marcha e bate teu tambor,
Eis aí toda a Ciência.

É de Hegel a doutrina;
Suprassumo verdadeiro!
Entendi pois sou ladino,
E também bom tamboreiro.

[Heinrich Heine – 1844]

Stromboli

dezembro 31, 2012

A locomotiva perguntou ao carvão
[por que tanta fumaça, meu amigo!?]
Ele pensou em responder
[quem arde pode esperar?]
mas assobiou seu silêncio negando,
fumegando a própria condição.

“When a dancer becomes a dance”

dezembro 30, 2012

A bailarina se torna menos mortal
quando deixa em casa os calcanhares.

Sem eixo, vira tablado
pode estar em toda parte.

Edgar pensou em dançarinas.
Aleksandr pensou na dança.



Tributo de estrelas

dezembro 17, 2012

Alexander Rodchenko, 1932

1

Me quer? Não me quer? As mãos torcidas
os dedos
despedaçados um a um extraio
assim tira a sorte enquanto
no ar de maio
caem as pétalas das margaridas
Que a tesoura e a navalha revelem as cãs e
que a prata dos anos tinja seu perdão
penso
e espero que eu jamais alcance
a impudente idade do bom senso

2

Passa da uma
você deve estar na cama
Você talvez
sinta o mesmo no seu quarto
Não tenho pressa
Para que acordar-te
com o
relâmpago
de mais um telegrama

3

O mar se vai
o mar de sono se esvai
Como se diz: o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites
Inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano

4

Passa da uma você deve estar na cama
À noite a Via Láctea é um rio de prata
Não tenho pressa para que acordar-te
com o relâmpago de mais um telegrama
como se diz o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano
Vê como tudo agora emudeceu
Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu
em horas como esta eu me ergo e converso
com os séculos a história o universo

[sem a quinta parte de fragmentos – V. Maiakóvski]