Archive for the ‘viventes’ Category

Cecília I

julho 9, 2012

 

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Se o tempo não termina, por que o sorriso haveria de?

janeiro 2, 2011

Ontem, vi o tempo, esse menino, correr na chuva, descalço:

uma ampulheta de plástico quebrada sem querer;
um macaquinho brincante.

Como se o mundo dissesse que a alegria continua sendo a prova dos nove.

Pesar menos e obrar mais

dezembro 10, 2009


Para mim e para Otto*

“Preciso fundar em mim a disciplina da fidelidade. Preciso aprender a ser fiel a mim mesmo, às verdades que me são reveladas e que eu busco, num certo sentido, esquecer e malcurar, pois nenhuma tarefa é tão pesada como a de pastorear o ser das coisas que a nós se revela. Preciso aprender a trabalhar com método calmo e transparente amor. A revelação, a iluminação, nada mais representam do que o bloco de pedra a partir do qual se há de arrancar a escultura. Preciso aprender a tornar-me o escultor cotidiano, aquele que acorda e dorme a sua obra, no desfiar dos dias que se sucedem, com paciência e silenciosa paixão. Preciso pesar menos e obrar mais. Preciso ser menos eruptivo e mais fluente. Preciso fluir, manar, desdobrar-me, descobrir-me, preciso permitir que as águas venham da rocha profunda. Pois só na medida em que as águas surgem é que elas renovam. Do fluir decorre a fluência. Não há fluência sem o fluir, da mesma forma como não há fonte sem a água que borbulha. A fonte é a água que borbulha, e mais nada. Não há, portanto, fonte onde não há o fluir da água, onde não existe o seu brotar da pedra, frio e fresco. Estou certo de que só o criar alimenta e restaura a capacidade de criação. Não resta dúvida de que, às vezes, as coisas parecem que nos são dadas por acréscimo, por superabundância, por graça. Mas estas coisas que nos são dadas de graçça exigem de nós, depois, a paciente perseverança, o aturado e duradouro calor, capaz de transformar-nos nos guardiões da graça do ser que a nós se revelou. O preço da graça que recebemos é nos mantermos fiéis a ela, é nos tornarmos os porta-vozes dela, nos fazermos a voz dela, a linguagem dela. A graça quer aceder ao mundo através da nossa boca que fala. Fala boca, para que te possas, depois, calar com dignidade. Fala, para mereceres o silêncio, que vem depois, como a noite vem depois do dia. Fala.”

Rio de Janeiro, 12/06/62

*bilhete datilografado, assinado por
Hélio Pellegrino, para Otto Lara Resende.

Pacheco

dezembro 3, 2009

Pacheco era técnico de radiologia e vivia de tédio.

Achava o mundo chato, e vivia de chacota,
porque achava que a chatice do mundo
era problema do mundo e não dele.

Na volta do almoço, uma senhora encurvada
deu-lhe um santinho onde se lia:
“tu foste feito à imagem e semelhança do Pai.”

Pacheco riu e pensou:
“nem a pau!
Na chapa, Deus sempre sai mal”

Dos espinhos inúteis, dos carneiros que não avaliam, da única rosa em milhões, do homem desajeitado no país das lágrimas, e do príncipe

novembro 16, 2009

— Para que servem os espinhos?

O principezinho jamais renunciava a uma pergunta, depois que a tivesse feito. Mas eu estava irritado com o parafuso e respondi qualquer coisa:

Espinho não serve para nada. São pura maldade das flores.

–Oh!

Mas após aquele silêncio, ele me disse com uma espécie de rancor:

— Não acredito! As flores são fracas. Ingênuas. Defendem-se como podem. Elas se julgam terríveis com os seus espinhos…

Não respondi. Naquele  instante eu pensava: “Se esse parafuso ainda resiste, vou fazê-lo saltar a martelo”. O principezinho perturbou-me de novo as reflexões:

— E tu pensas então que as flores…

— Ora! Eu não penso nada. Eu respondi qualquer coisa. Eu só me ocupo com as coisas sérias!

Ele olhou-me estupefato:

— Coisas sérias!

Via-me, martelo em punho, dedos sujos de graxa, curvado sobre um feio objeto.

— Tu falas como as pessoas grandes!

Senti um pouco de vergonha. Mas ele acrescentou, implacável:

— Tu confundes todas as coisas… Misturas tudo!

Estava realmente muito irritado. Sacudia ao vento cabelos de ouro:

— Eu conheço um planeta onde há um sujeito vermelho, quase roxo. Nunca cheirou uma flor. Nunca olhou uma estrela. Nunca amou ninguém. Nunca fez outra coisa senão somas. E o dia todo repete como tu: “Eu sou um homem sério! Eu sou um homem sério!” e isso o faz inchar-se de orgulho. Mas ele não é um homem; é um cogumelo!

— Um o quê?

— Um cogumelo!

O principezinho estava agora pálido de cólera.

— Há milhões e milhões de anos que as flores fabricam espinhos. Há milhões e milhões de anos que os carneiros as comem apesar de tudo. E não será sério procurar compreender porque perdem tanto tempo fabricando espinhos inúteis? Não terá importância a guerra dos carneiros e das flores? Não será mais importante que as contas do tal sujeito? E se eu, por minha vez, conheço uma flor única no mundo, que só existe no meu planeta, e que um belo dia um carneirinho pode liquidar num só golpe, sem avaliar o que faz, — isto não tem importância?!

Corou um pouco e continuou em seguida:

— Se alguém ama um flor da qual só existe um exemplar em milhões e milhões de estrelas, isso basta para que seja feliz quando a contempla. Ele pensa: “Minha flor está lá, nalgum lugar…” Mas se o carneiro come a flor, é para ele, bruscamente, como se todas as estrelas se apagassem! E isso tem importância!

Não pôde dizer mais nada. Pôs-se bruscamente a soluçar. A noite caíra. Larguei as ferramentas. Ria-me do martelo, do parafuso, da sede e da morte. Havia numa estrela, num planeta, o meu, a Terra, um principezinho a consolar! Tomei-o nos braços. Embalei-o. E lhe dizia: “A flor que tu amas não está em perigo… Vou desenhar uma pequena mordaça para o carneiro… Uma armadura para a flor…Eu…” Eu não sabia o que dizer. Sentia-me desajeitado. Não sabia como atingi-lo, onde encontrá-lo… É tão misterioso o país das lágrimas!

(Do primo Rafael, da tia Bel e do pequeno Antoine de Saint-Exupéry)

Trovinha infantil para Carlos Costa

setembro 22, 2009

O professor sempre  corrigia o pleonasmo
Apontava o erro, cheio de sarcasmo.

A aluna dizia “na medida do possível… ”
E ele troçava: “e na medida do impossível?”

Foi assim, com essa mania de chiste,
Que ele me ensinou a ver o que além existe.

Djalminha

setembro 11, 2009

sino

Esta manhã, pensei em meu primo
Como se ele fosse um artesanato

Daqueles feitos com palitos de sorvete e tinta
Pindurado num fio, qual mensageiro dos ventos.
A vibrar sob o som inaudível das promessas.

***

Há ossos pequeninos por sob a carne d’ouvido,
Diapasões femininos que o mundo — a perceber —
nos dão

Em meu primo, a surdez fez esse mundo, para um lado, penso,
qual inclinada torre. 

E o que farão esses ossos sem vibrar?
Dão ao badalo dos sinos qual atenção?

Se para um lado do mundo pende 
a atenção desse homem sério,
Órfãos de quem são os habitantes
desse outro ignorado hemisfério?

São esses ossos sinais de qual silêncio?
Dizem o que, ao não ouvirem o que dizem?

O móvel no imóvel

agosto 16, 2009