Archive for the ‘Teatro’ Category

O samba da mentira

outubro 28, 2011

o xampu é a mentira dos nossos cabelos
o sabonete é a mentira da nossa pele
creme dental é a mentira dos nossos dentes
e o batom é a mentira dos nossos beijos

o cotonete é a mentira dos nossos ouvidos
e o remédio é a mentira da nossa doença

a fumaça é a mentira do nosso cigarro
e o cigarro a mentira do nosso pulmão
a nicotina é a mentira da nossa cabeça
e a cabeça nicotina barra alcatrão

o automóvel é a mentira dessas avenidas
e as avenidas a mentira da locomoção

a liberdade é a mentira do comercial
e o comercial a mentira da televisão
e a televisão mentira da ignorância
e a ignorância é a mentira da informação

[O samba da mentira, Naiman]

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Setor de desmonte II

abril 26, 2011

Não se trata, pois, de um jogo de pegar varetas
“Um homem é um homem”
Comecem riscando o mais arriscado…

Fatalismos

setembro 28, 2010

Existem poucas maneiras de as tenras partes de um corpo humano sobreviverem ao esmagamento causado por um piano cadente.

Mas há algumas…

Uma delas é a de se desenharem asas ao piano em plena queda.
Pianos alados.

Umas das formas mais comuns de se fazer um piano voar é a de devolver a ele – por sobre a sua carranca de pesado objeto – a sua verdadeira condição de fenômeno, processo.

São finos os dedos que expõem os pianos às suas entranhas. Um dedo leve mas treinado é capaz de acionar o mecanismo de tendões, alavancas e musicalidade. Com alguns toques minimamente coordenados, o paquiderme, o baú, pior ou melhor envernizado, passa à situação de instrumento.

Todo instrumento tem um sujeito que o sujeita. Um piano em queda não é uma força aberrante e desgovernada. Tem seus propósitos, não mera gravidade – seja a desatenção ou a malícia de quem o lançou. Nesses termos, o piano não cai, o piano pousa.

Xô, piano!

Personagem?

agosto 21, 2010

… uma máscara ou imitação compósita
de pessoas que encontramos…

Luís Carlos Patraquim

O preconceito da ave
não é o tamanho das suas asas
nem o ramo em que poisou

Mas a beleza do seu canto
a largueza do seu voo…
e o tiro que a matou.

José Craveirinha

 

A fome que faz caminhar

outubro 19, 2009

o sistema ambulacral nas estrelas do mar
o sistema ambulacral
é o que de mais poético
e menos científico
restou nas estrelas do mar.

o que as firmava no firmamento
— fixas, acorrentadas e tristes —
era uma frágil convicção de guia,
uma vaga vocação de farol
a orientar alheio passo.

um dia, a estrela resolveu migrar
cadente
e foi, então, viver no mar.

e o que alimentava a estrela,
em princípio,
foi o que a fez andar

ambulacral —
faminta e ambulante —
a traçar o próprio passo.

O haver

agosto 11, 2009

simples, simples, simples…

As coisas deveriam morrer

julho 31, 2009

As coisas
As coisas deveriam morrer, por Martin Eikmeier (música) e Helena Albergaria (letra), do álbum Canções de Cena II, da Cia do Latão…

deveriam morrer

Solidez unitária; solidão multiversa

julho 26, 2009

… cia do latão.

Os equívocos colecionados formam um arco de qual forma?

Incongruências

julho 9, 2009

Conversa virtual num mundo irreal ou,
como diria Décio Pignatari, ARREAL

ELE: Oi
ELA: oi
ELE: Bom dia!!! [com três exclamações para demonstrar efusividade]

10 segundos de silêncio

ELE [novamente]: Bom dia?
ELA: Bom dia, tudo bom?
ELE: Tudo. Você chegou faz tempo?

15 segundos de silêncio

ELA: Oi…  faz uma meia hora, já
ELE: Mais cedo de novo?
ELA: Sim, peguei uma carona para casa.
ELE: Ah!

20 segundos de silêncio

ELE: Bom, estou vendo os meus e-mails. Vou voltar para casa. vou ficar lendo! A gente se encontra às 20h ou às 21h?
ELA: Você é quem sabe.
ELE: Bom, então tá! [ele reluta e prossegue] Você tomou café da manha direito?
ELA: Sim, por quê?
ELE: Ah, por nada!

10 segundos de silêncio

ELE: O que você já comeu hj?
ELA: Tomei leite, comi bolacha e tomei iogurte
ELE: Hum, bom então deve estar com fome. Vou caprichar no jantar então. Acho que já vou praí, então!
ELA: Tá bom, você é quem sabe. Qualquer mudança de planos, me avise, tá?
ELE: Ué? Porque eu mudaria.
ELA: Nada, deixa pra lá.
ELE [mudando de tática]: “Quando a gente gosta, é claro que a gente cuida”
ELA: =/
ELE: “Por que você não cola em mim?”
ELA: Você está ouvindo musica?
ELE: Tsc, tsc… estou cantando pra você.
ELA: Hum…
ELE: Hum;;; [usando ponto-e-vírgulas para quem sabe expressar uma tênue ironia]

8 minutos depois

ELE: Olha só isso o que eu vou te mandar!
ELA: Ainda está aí?
ELE: Sim, mas é por um bom motivo.
ELA: Putz, vai ficar tarde, assim!
ELE: Calma! Olha só isso, vai valer a pena…

“Companheiros”

“quero
escrever-me de homens
quero
calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho

e quando ficar sem mim
não terei escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados

deixo
a paciência dos rios
a idade dos livros

mas não lego
mapa nem bússola
por que andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me
às vezes
viver

hei-de inventar
um verso que vos faça justiça
por ora
basta-me o arco-íris
em que vos sonho
basta-te saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço
companheiros”

ELA: O que é isso?
ELE: Mia couto.
ELA: Hum…

5 segundo de silêncio

ELA: bonito [assim mesmo, em minúsculo]
ELE: Eu estava pensando em chamar o meu primeiro livro de A ESTRADA MARINHA.
ELA: ehehe
ELE: Gosta?
ELA: Se for coerente com o conteudo…
ELE: 😦 🙂

10 segundos de silêncio

ELE: O que acha desse poema?
ELA: Me manda por e-mail. Você não ia pra casa?
ELE: Ia, mas estou aqui conversando contigo e querendo fazer prospecção poética para encantar e mudar o mundo.
ELA: entendi…
ELE: Sentiu?
ELA: O que?
ELE: Você entendeu; mas sentiu?
ELA: Preciso ler com calma.
ELE: Eu estava falando da minha motivação de fazer prospecção poética, essa atitude que me faz ficar aqui picoteando a carcaça de gelo do mundo!
ELA: Isso eu senti, sim.
ELE: 🙂 Sei…. [com ar cético, ao colocar quatro pontos nas reticências como que por protesto pela desfaçatez e pelo ar modorrento dela].

15 segundos de silêncio

ELE [apelando para uma saída non sense]: “El castellano, sin duda, resulta una lengua muchísimo más útil, non?”
ELA: De onde você tirou isso?
ELE [continuando, já com ar de vitória, por não mais lutar]: Abre muchas más puertas. La hablan muchas más gentes en el mundo… En un mundo globalizador el gallego representa una bandera en favor del separatismo y la diferenciación.
ELA: ?
ELE: “Que passa?” Passas ao rum?
ELA [corrigindo, no auge de seu morfinismo sentimental]: “¿qué pasa?”, é assim que se escreve.
ELE: Uau! Como você faz essa interrogação de ponta cabeça, hein? Aliás, serve tailandesa?
ELA: Não estou entendendo.
ELE [ionescamente revoltado]: METANO! BUTANO!
ELA: ?
ELE: Prospecção poética do mundo!
ELA: H2C2
ELE: ZAZ! Você entende de algo: química! Dois meteno e um benzeno!? Padre da foda, não!
ELA: ?eheh? [traduzido livremente por ‘sorriso amarelo’]

5 minutos depois

ELA: VOcê vai sair daí, afinal?

30 segundos de silêncio [por pura sacanagem dele]

ELA: Antonio.
ELE: Eu vou depois do pôr-do-sol.
ELA: Mas já anoiteceu.
ELE: Pois é!!
ELA: Bom, você faz o que quiser então. Mas você escolhe onde comer porque eu nao estou com vontade de pensar em comida.
ELE: Pensa, então, em nuvens cor de rosa.
ELA: Isso não existe.
ELE: Como não? Acabam de ser pensadas.
ELA: 🙂
ELE: Nuvens de gafanhotos cor-de-rosa no egito… pragas!
         Nuvens de Flamingos cor-de-rosa em Lobito… poesia!
ELA: rs!
ELE: “Nuvens Cor de Rosa”, Nuvens Cor de Rosa”, isso pode não ter muito sentido, para muita gente, mas para qualquer Lobitanga, será sempre a lembrança de milhares de Flamingos em vôo na zona dos mangais e das salinas do Lobito.
ELA: Mia Couto?
ELE: Tsc, tsc… não!

10 segundos de silêncio

ELE: Você, por acasao, já pensou em fazer algum tipo de dança?
ELA: não
ELE: Flamenca, por exemplo? A gente podia fazer, né?
ELA: podia?
ELE: É. Imagina você de castanholas… hummmmmmmmmmmmm!
ELA: Ridículo, eu diria
ELE: Não!É legal… bonito, sensual… você não gosta de dançar?
ELA: Bom, falamaos de dança pessoalmente…é melhor você ir para não se atrasar.
ELE: tá
ELA: 🙂
ELE: Tô indo.
ELA: Tá bom!
ELE: Beijo!
ELA: Beijo.
ELE: Beijos (….)

49 anos de silêncio

“Novas diretrizes em tempos de paz”

julho 7, 2009

De Epifanias do Inimigo Invisível, álbum do ilustrador angolano Daniel Lima, inpirado no filme O deserto dos tártaros, de Valerio Zurlini, adaptação do romance homônimo de Dino Buzzati

“Em seu poema à espera dos bárbaros, o grego Konstantinos Kaváfis (1863-1933) descreve um cidade-estado cujos cidadãos adiam o cumprimento de suas obrigações diárias na expectativa de uma invasão eminente (sic). A movimentação inusitada, no entanto, não se destina a preparar qualquer tipo de resistência , antes festas e honrarias aos novos senhores. No final do dia quando chega a notícia que nenhum conquistador cruzara a fronteira, inquietos, homens comuns, juízes, legisladores e até mesmo o imperador abandonam a ágora onde se reuniam a suspirar: pelo menos os bárbaros eram uma solução.

Ainda que distante tantos séculos de nós, a situação evocada por Kaváfis parece familiar. Sempre à espera de paz ou guerra deixamos para depois uma reação ao que nos desagrada por falta de uma resposta definitiva. Mas a paralisia também é uma resposta. Talvez a pior; com certeza letal: o mais reconfortante é rezar, às escondidas ou não, para que alguém tire inexoravelmente de nossas mãos o direito e a responsabilidade de decidir.”

(Bosco Brasil, do programa de sua peça Novas diretrizes em tempos de paz, montada pela diretora Ariela Goldman)