Archive for the ‘Política’ Category

Doktrin

março 26, 2013

Bate teu tambor sem medo,
Depois beija a vivandeira!
Eis a Ciência; e a dos livros,
Súmula mais verdadeira.

Tira o povo do torpor,
Toca o hino com veemência,
Marcha e bate teu tambor,
Eis aí toda a Ciência.

É de Hegel a doutrina;
Suprassumo verdadeiro!
Entendi pois sou ladino,
E também bom tamboreiro.

[Heinrich Heine – 1844]

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Stromboli

dezembro 31, 2012

A locomotiva perguntou ao carvão
[por que tanta fumaça, meu amigo!?]
Ele pensou em responder
[quem arde pode esperar?]
mas assobiou seu silêncio negando,
fumegando a própria condição.

Em defesa do barco (bêbado)

novembro 16, 2012

Imagem

Quando, de volta, viajares para Ítaca
roga que tua rota seja longa,
repleta de peripécias, repleta de conhecimentos.
Aos Lestrigões, aos Ciclopes,
ao colério Posêidon, não temas:
tais prodígios jamais encontrará em teu roteiro,
se mantiveres altivo o pensamento e seleta
a emoção que tocar teu alento e teu corpo.
Nem Lestrigões nem Cíclopes,
nem o áspero Posêidon encontrarás,
se não os tiveres imbuído em teu espírito,
se teu espírito não os suscitar diante de ti.

Roga que tua rota seja longa,
que, múltiplas se sucedam as manhãs de verão.
Com que euforia, com que júbilo extremo
entrarás, pela primeira vez num porto ignoto!
Faze escala nos empórios fenícios para arrematar mercadorias belas;
madrepérolas e corais, âmbares e ébanos
e voluptuosas essências aromáticas, várias,
tantas essências, tantos arômatos, quantos puderes achar.

Detém-te nas cidades do Egito -nas muitas cidades-
para aprenderes coisas e mais coisas com os sapientes zelosos.
Todo tempo em teu íntimo Ítaca estará presente.
Tua sina te assina esse destino,
mas não busques apressar tua viagem.
É bom que ela tenha uma crônica longa, duradoura,
e que aportes velho, finalmente, à ilha,
rico do muito que ganhares no decurso do caminho,
sem esperares de Ítaca riquezas.
Ítaca te deu essa beleza de viagem.
Sem ela não a terias empreendido.
Nada mais precisa dar-te.
Se te parece pobre, Ítaca não te iludiu.
Agora tão sábio, tão plenamente vivido,
bem compreenderás o sentido das Ítacas.

[ÍTACA – Konstantinos Kaváfis;
tradução – Haroldo de Campos]

O engodo da propriedade

junho 14, 2012

Faz pensar que é
próprio

aquilo que, em verdade, é
apropriado

Meu século

novembro 16, 2011

“Meu século, minha fera, quem poderá
olhar-te dentro dos olhos
e soldar com o seu sangue
as vértebras de dois séculos?”

Osip Emilyevich Mandelstam – O século – 1923

O samba da mentira

outubro 28, 2011

o xampu é a mentira dos nossos cabelos
o sabonete é a mentira da nossa pele
creme dental é a mentira dos nossos dentes
e o batom é a mentira dos nossos beijos

o cotonete é a mentira dos nossos ouvidos
e o remédio é a mentira da nossa doença

a fumaça é a mentira do nosso cigarro
e o cigarro a mentira do nosso pulmão
a nicotina é a mentira da nossa cabeça
e a cabeça nicotina barra alcatrão

o automóvel é a mentira dessas avenidas
e as avenidas a mentira da locomoção

a liberdade é a mentira do comercial
e o comercial a mentira da televisão
e a televisão mentira da ignorância
e a ignorância é a mentira da informação

[O samba da mentira, Naiman]

There are many reasons for blushing III

maio 10, 2011

 

Na alcova ou em praça pública.

Primeiro de Maio

março 29, 2011

Hoje a cidade está parada
E ele apressa a caminhada
Pra acordar a namorada logo ali
E vai sorrindo, vai aflito
Pra mostrar, cheio de si
Que hoje ele é senhor das suas mãos
E das ferramentas

Quando a sirene não apita
Ela acorda mais bonita
Sua pele é sua chita, seu fustão
E, bem ou mal, é o seu veludo
É o tafetá que Deus lhe deu
E é bendito o fruto do suor
Do trabalho que é só seu

Hoje eles hão de consagrar
O dia inteiro pra se amar tanto
Ele, o artesão
Faz dentro dela a sua oficina
E ela, a tecelã
Vai fiar nas malhas do seu ventre
O homem de amanhã

(Primeiro de maio – Chico Buarque)

mãos sujas de grãos

maio 2, 2010

Se a noite não tem fundo
O mar perde o valor
Opaco é o fim do mundo
Pra qualquer navegador
Que perde o oriente
E entra em espirais
E topa pela frente
Um contingente
Que ele já deixou pra trás
Os soluços dobram tão iguais
Seus rivais, seus irmãos
Seu navio carregado de ideais
Que foram escorrendo feito grãos
As estrelas que não voltam nunca mais
E um oceano pra lavar as mãos

(Meia-noite – Edu Lobo)

“A poesia do futuro”

agosto 28, 2009

“A revolução social do século XIX
não pode tirar sua poesia do passado,
e sim do futuro.
Antes a frase ia além do conteúdo;
agora é o conteúdo que vai além da frase.”

Karl Marx (18 Brumário)

a poesia do futuro