Archive for the ‘Música’ Category

Primo Pompilho, filho de índio

agosto 6, 2017

arlequim bandolim

Ouvindo este harpejar de antigamente, certamente, contente, deste choro há de gostar…

– Os teus olhos tão cruéis.
– Nos seus olhos era tanto brilho!
– Anda o operário a mourejar.
– É a boca do lobo, a morder a nuca do povo!
– Eu quero ter a vida inteira pra fazer besteira e você perdoar.
– O que eu sei hoje da vida até Deus duvida!
– Por todos os meus descaminhos, somos tão sozinhos que o melhor mesmo é se dar.
– Eu quero que você se dane!
– E mesmo que eu te engane é assim que eu sei te amar.

[…]

– Cadê meu conhaque?
– Ih, rapaz, eu pedi um uísque e até agora não veio!
– E meu chopp, cadê meu chopp?
– Atenção, atenção…

No meio da madrugada, a paz barulhenta da noite foi atravessada pela flecha do índio que se fez notar. De mesa em mesa, o bar se moveu em rebuliço. Um ébrio de susto tombou, um valente no balcão se apeou, duas mulheres de salto gritaram para o inusitado da cidade moderna.

Já ele não teve tempo de reagir. Dois tiros na testa e a chacina acabou com a festa.

Quem havia de avisar a mulher do falecido?
A própria alma do morto voltou à vida pra comunicar o seu destino.

O telefone tocou e a mãe não quis atender, o filho recebeu a notícia: “mãe, a coisa é séria! O pai avisou que hoje não volta, porque hoje ele morreu!”

A mãe não quis dar corda e o menino guardou as flechas todas no pomo de Adão sangrando! O pai ressuscitou, mas quem haveria de contar a história do pai boêmio que morreu de flechada e reviveu era a sua garganta, de filho, magoada.

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A mulher sem boca II

julho 14, 2012

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

[Vinicius de Moares – Ausência]

Cecília I

julho 9, 2012

 

Amor tipo zero Celsius

junho 13, 2012

Consta nos astros, nos signos, nos búzios
Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos autos, nas bulas, nos dogmas
Eu fiz uma tese, eu li num tratado, está computado nos dados oficiais
Serás o meu amor, serás a minha paz
Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário nos contrariar
Mas se o destino insistir em nos separar
Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas
Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos
Profetas, sinopses, espelhos, conselhos
Se dane o evangelho e todos os orixás
Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz
Consta na pauta, no Karma, na carne, passou na novela
Está no seguro, picharam no muro, mandei fazer um cartaz
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos mapas, nos lábios, nos lápis
Consta nos Ovnis, no Pravda, na Vodca

[Dueto, Chico Buarque]

The Water

novembro 8, 2011
“The water
The water came to realize
It’s dangerous size
The mountain
The mountain more then recognize
It’s deep and rocky sides
More than realized”

Pato-Coelho

novembro 7, 2011

O samba da mentira

outubro 28, 2011

o xampu é a mentira dos nossos cabelos
o sabonete é a mentira da nossa pele
creme dental é a mentira dos nossos dentes
e o batom é a mentira dos nossos beijos

o cotonete é a mentira dos nossos ouvidos
e o remédio é a mentira da nossa doença

a fumaça é a mentira do nosso cigarro
e o cigarro a mentira do nosso pulmão
a nicotina é a mentira da nossa cabeça
e a cabeça nicotina barra alcatrão

o automóvel é a mentira dessas avenidas
e as avenidas a mentira da locomoção

a liberdade é a mentira do comercial
e o comercial a mentira da televisão
e a televisão mentira da ignorância
e a ignorância é a mentira da informação

[O samba da mentira, Naiman]

Legadinhos XI

setembro 28, 2011

Porque os amores musicais são um tanto quanto AM, um tanto quanto FM… nem sempre sintonizam em outra estação…

“Para ouvir e ensaiar diariamente quando formos muito, muito velhos em Cuba ou Pico Rivera, já teremos uma nobre ocupação: ficar na porta do metrô ou nos degraus de algum lugar onde sejamos inconvenientes, solfejando Rama Lama Ding Dong em acapella, um de nós necessariamente cego(…) junto a um cão velho/gordo/decrépito…”

Set List

Rama Lama Ding Dong
Barbara Ann
Never Fall in Love Again
Sh Boom
Brown Eyed Girl
Come And Go With Me
Don’t Be Cruel
Morse Code Of Love
Sixty-Minute Man
La Bamba/Twist And Shout
Breakfast At Tiffany’s
She Moves in Mysterious Ways
Eye of The Tiger
The Drifters Medley
Duke of Earl
At The Hop
Love Potion #9
Book of Love
Alley Cat Tag
The Wanderer
What’s Your Name
Little Darlin’
Rundaround Sue
If You Could Only See
In The Still Of The Night
The Lion Sleeps Tonight
Something In The Way She Moves
Goodnight Sweetheart

“Notas sobre A banda”

setembro 12, 2011

O jeito, no momento, é ver a banda passar, cantando coisas de amor. Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando.

A ordem, meus manos e desconhecidos meus, é abrir a janela, abrir não, escancará-la, é subir ao terraço como fez o velho que era fraco mas subiu assim mesmo, é correr à rua no rastro da meninada, e ver e ouvir a banda que passa. Viva a música, viva o sopro de amor que a música e banda vem trazendo, Chico Buarque de Hollanda à frente, e que restaura em nós hipotecados palácios em ruínas, jardins pisoteados, cisternas secas, compensando-nos da confiança perdida nos homens e suas promessas, da perda dos sonhos que o desamor puiu e fixou, e que são agora como o paletó roído de traça, a pele escarificada de onde fugiu a beleza, o pó no ar, na falta de ar.

A felicidade geral com que foi recebida essa banda tão simples, tão brasileira e tão antiga na sua tradição lírica, que um rapaz de pouco mais de vinte anos botou na rua, alvoroçando novos e velhos, dá bem a idéia de como andávamos precisando de amor. Pois a banda não vem entoando marchas militares, dobrados de guerra. Não convida a matar o inimigo, ela não tem inimigos, nem a festejar com uma pirâmide de camélias e discursos as conquistas da violência. Esta banda é de amor, prefere rasgar corações, na receita do sábio maestro Anacleto Medeiros, fazendo penetrar neles o fogo que arde sem se ver, o contentamento descontente, a dor que desatina sem doer, abrindo a ferida que dói e não se sente, como explicou um velho e imortal especialista português nessas matérias cordiais.

Meu partido está tomado. Não da ARENA nem do MDB, sou desse partido congregacional e superior às classificações de emergência, que encontra na banda o remédio, a angra, o roteiro, a solução. Ele não obedece a cálculos da conveniência momentânea, não admite cassações nem acomodações para evitá-las, e principalmente não é um partido, mas o desejo, a vontade de compreender pelo amor, e de amar pela compreensão.

Se uma banda sozinha faz a cidade toda se enfeitar e provoca até o aparecimento da lua cheia no céu confuso e soturno, crivado de signos ameaçadores, é porque há uma beleza generosa e solidária na banda, há uma indicação clara para todos os que têm responsabilidade de mandar e os que são mandados, os que estão contando dinheiro e os que não o têm para contar e muito menos para gastar, os espertos e os zangados, os vingadores e os ressentidos, os ambiciosos e todos, mas todos os etcéteras que eu poderia alinhar aqui se dispusesse da página inteira. Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer um que saiba cultivá-las, distribuí-las, começando por querer que elas floresçam. E não se limitam ao jardinzinho particular de afetos que cobre a área de nossa vida particular: abrange terreno infinito, nas relações humanas, no país como entidade social carente de amor, no universo-mundo onde a voz do Papa soa como uma trompa longínqua, chamando o velho fraco, a mocinha feia, o homem sério, o faroleiro… todos que viram a banda passar, e por uns minutos se sentiram melhores. E se o que era doce acabou, depois que a banda passou, que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa deixe de musicalizar a alma da gente.

Carlos Drummond de Andrade – Correio da Manhã, 14/10/66


Rua Xique-Xique (*1977-2041+)

junho 8, 2011

And uptown downtown a thousand miles between us