Archive for the ‘Literatura’ Category

Para uma menina com uma flor

setembro 17, 2015

El Lizzisky

Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, que aliás você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.

E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras. E porque você quando sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre num nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, como uma santa moderna, e anda lento, a fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der aquela paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.

E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta mas não concorda porque é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara- na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.

E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as outras mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, “Minha namorada”, a fim de que, quando eu morrer, você se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse, cantando sem voz aquele pedaço em que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.

E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora – tão purinha entre as marias-sem-vergonha – a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nestas montanhas recortadas pela mão presciente de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa. E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos – eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão, de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações – porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.

[Vinicius de Moraes]

*imagem: The Story of Two Squares [El Lissitzky, 1922]

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“It was always the becoming he dreamed of, never the being”

maio 14, 2015

OS HOMENS OCOS

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,

Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam – se o fazem – não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

– Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular

III

Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.

IV

Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio

Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.

V

Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada

Entre a ideia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
A vida é muito longa

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o

Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.

(T.S. Eliot)

Vossa excelência, meu amor

dezembro 2, 2012

Lobo Antunes

“Como gostaria de voltar, de voltar depressa para poder ver-te, tocar-te, falar-te, meter a minha chave na fechadura do teu corpo, a língua na tua boca, apertar-te o peito com as mãos, morder-te o pescoço, voar, lembro-me de pormenores absurdos, do sinal do peito do teu pé, do teu dente de ouro, do canal da tua nuca, e gosto absurdamente de todos: minha senhora, eu amo-a. Se eu não a conhecesse persegui-la-ia pelas ruas com propostas sórdidas e veementes. Recordo-me do primeiro dia em que a vi, do seu perfil de Boticelli, recordo-me do ano seguinte na praia, do seu cabelo preso atrás e da sua risca no meio, do seu aspecto de retrato de Ingres, recordo-me do seu cabelo cortado e do seu ar de midinette, e amo perdidamente todas as suas encarnações, sem poder escolher entre elas. Amo a sua gravidez, os seus gestos, os seus sorrisos e as sua fúrias. Amo as suas zangas e a solenidade calada e digníssima dos seus amuos. Amo as suas recriminações e os seus beijos. E amo o seu filho, o filho de Vossa excelência, meu amor”

[Antonio Lobo Antunes, D’este viver aqui neste papel descripto – Cartas da Guerra]

Hegeliano-Franciscanas paternas I

junho 9, 2012

O PRÍNCIPE Nekliudov tinha dezenove anos e frequentava o terceiro ano de um curso universitário quando foi passar as férias à sua aldeia, onde permaneceu todo o verão. No outono escreveu, com a sua letra infantil, não formada ainda, à sua tia, a condessa Beiloretzkaia, a sua melhor amiga e a mulher mais genial do mundo, a seguinte carta em Francês:

Tomei uma resolução de que dependerá o destino da minha vida. Abandono a universidade para me consagrar inteiramente aos camponeses, pois reconheci ter nascido para isso. Por Deus, querida tia, não te rias de mim. Pensarás que sou um garoto, e talvez seja, com efeito, demasiado jovem; mas isso não me impede de sentir a minha vocação, amar o bem e desejar praticá-lo.

Já te mandei dizer que encontrei tudo numa desordem indescritível. Quando quis pôr ordem nas coisas, dei-me conta de que o mal provém a má situação dos mujiques e que esse mal só pode remediar-se com trabalho e paciência. Estou convencido de que se visses os mujiques David e Ivan, por exemplo, e a vida que levam as suas famílias, esse fato só por si te convenceria melhor que qualquer coisa que eu te pudesse dizer para explicar a minha resolução. Não terei, porventura, o sagrado dever de me preocupar com esses setecentos homens pelos quais terei que responder perante Deus? Não será pecado deixar-mo-los nas mãos de grosseiros starostas e administradores, apenas para mais à vontade nos divertirmos e satisfazermos as nossas ambições? Por que haveria eu de procurar a maneira de ser útil e praticar o bem noutra esfera quando descobri aqui um dever formoso? Sinto-me capaz de ser um bom proprietário e, para o ser, tal como o entendo, não são precisos esses títulos nem esses diplomas que tanto desejas que obtenha. Querida tia, não forjes para mim nenhum projeto baseado na ambição; habitua-te à ideia de que empreendi um caminho completamente diferente, bom, portanto, e que pressinto me dará a felicidade. Meditei muito nas minhas futuras obrigações. Compus um regulamento para as minhas atividades; e, se Deus me der forças, conseguirei o meu propósito.

Não mostres esta carta a meu irmão Vásia: receio que troce de mim. Tem a mania de sentir superior e eu a de me submeter a ele. Está claro que, não aprovasse a minha resolução , não deixaria de entendê-la

[Leon Tosltói, in A manhã de um senhor]

Pepe-jaki

maio 9, 2012

Entre o mágico e o operário
Se escondem alguns móveis
Duas cômodas, um sacrário
Gavetas vazias, rimas fáceis

O escritor pode ter mil profissões num ofício: não precisa ser o xamã, prestidigitador, animador de auditório; não precisa ser amargo apertador de parafusos, nem vil encantador de caramujos.

Legadinhos X

setembro 26, 2011

De legadinho em legadinho, nessa brincadeira de boneca russa, o jogo “nunca termina quando acaba”…

Ela conta a história de uma freira que a atormentava no internato em seu tempo de menina; de um homem que a fez viver longamente entre o desespero e o tédio, a revolta e a humilhação. E fica meio magoada porque a tudo eu sorrio, porque eu não pareço participar do sentimento com que ela fala contra essa gente que passou. Afinal ela também sorri: “Você é meu amigo ou amigo da onça?”

Sou seu amigo. Mas rico ri à toa, e eu me sinto vertiginosamente rico porque essas histórias, alegres ou tristes, ela me conta de mãos dadas, junto de mim. Digo-lhe isso; mas não lhe confesso que aprovo e abençôo todas as coisas e pessoas que povoaram seu passado e tenho vontade de dizer:

“Benditos teu pai e tua mãe; benditos os que te amaram e os que te maltrataram; bendito o artista que adorou e te possuiu, e o pintor que te pintou nua, e o bêbedo de rua que te assustou, e o mendigo que disse uma palavra obscena; bendita a amiga que te salvou e bendita a amiga que te traiu; e o amigo de teu pai que te fitava com concupiscência quando ainda eras menina; e a corrente do mar que te ia arrastando; e o cão que uivava a noite inteira e não te deixou dormir; e o pássaro que amanheceu cantando em tua janela; e a insensata atriz inglesa que de repente te beijou na boca; e o desconhecido que passou em um trem e te acenou adeus; e teu medo e teu remorso a primeira vez que traíste alguém; e a volúpia com que o fizeste; e a firme determinação, e o cinismo tranqüilo, e o tédio; e a mulher anônima que te vociferou insultos pelo telefone; e a conquista de ti por ti mesma, para ti mesma; e os intrigantes do bairro que tentaram te envolver em suas teias escuras; e a porta que se abriu de repente sobre o mar; e a velhinha de preto que ao te ver passar disse: “moça linda…”; bendita a chuva que tombou de súbito em teu caminho, e bendito o raio que fez saltar teu cavalo, e o mormaço que te fez inquieta e aborrecida, e a lua que te surpreendeu nos braços de um homem escuro entre as grandes árvores azuis. Bendito seja todo o teu passado, porque ele te fez como tu és e te trouxe até mim. Bendita sejas tu.”

[A mulher e seu passado – Rubem Braga, do livro A Traição das Elegantes]

Legadinhos IX

setembro 25, 2011

Um homem — ao longo da vida, entre tropeços e cavalos de pau — acumula alguns legadinhos.

Um dos que me foram deixados foi a tal “vaca paisagista”, do Jorge Timossi, escrita de trás para diante num papel amarelo…

“Existem muitos tipos de vacas, como bem sabe um escritor como Augusto, mas para mim a melhor é a extraordinária vaca paisagista, a que se situa, com os cascos bem plantados, no ponto mais alto de uma colina, e dali, de sua atalaia, olha para o extenso e profundo vale com os olhos úmidos e estáticos, hipnotizados pelo panorama que, por sua vez, neles se reflete, na íris docemente sépia, sem mover-se para nada, nem para espantar uma mosca, e não é que se trate de uma vaca filosófica, como as da Índia, orgulhosas de sua casta, de passo às vezes irritado, que parecem estar sempre ruminando dinastias e mágicas fórmulas em sânscrito, não, simplesmente se trata de uma vaca latino-americana, quase sempre castanha, entre outros sinais, apaixonada até a medula por sua paisagem, por esse vale espalhado lá embaixo, por essa eterna promessa de pastos, uma vaca que não é pensativa nem tampouco dá leite (porque algumas têm muita teta e pouca imaginação) nem se perturba com o trepidar dos trens de carga, ou as pedras que lhe atiram os turistas, uma vaca paisagista ela mesma elemento inelutável do panorama, que sequer pestanejaria se sofresse um aguaceiro torrencial sobre seu pêlo castanho e continuaria olhando através da cortina de água, à espera talvez do arco-íris que se estenderá como uma ponte de um extremo a outro do vale e os olhos desta vaca serão agora furta-cor, quer dizer que nada nem ninguém poderá tirá-la de sua atitude contemplativa, de sua visão que poderíamos qualificar de feliz, se isto fosse possível para uma visão de vaca, motivo pelo qual teria de aparecer algum insensato insensível que nunca falta por estas paragens e ter a idéia de empurrá-la empurrá-la por seus quartos traseiros, por suas nádegas nobres e inocentes, para o precipício, para o despenhadeiro à morte certa, mas a vaca quase flutuaria no espaço azul (teria acabado de chover), iria descendo lenta para o vale, lã, algodão de vaca, com suas quatro patas bem abertas, deslizaria pelas nuvenzinhas até chegar à terra, não faria o mínimo esforço para tornar a subir, plácida, diluída entre as ervas cheirosas, incorporada para sempre às margaridas, à paisagem que outra vaca idêntica à anterior, e tão descuidada quanto ela, já está observando do ponto mais alto da colina.”

Histórias de jardinagem I

janeiro 11, 2011

“O sr. K. observava uma pintura na qual alguns objetos tinham uma forma bem arbitrária. Ele disse: “A alguns artistas acontece, quando observam o mundo, o mesmo, o mesmo que aos filósofos. Na preocupação com a forma se perde o conteúdo. Certa vez trabalhei com um jardineiro. Ele me passou uma tesoura e me disse para cortar um loureiro. A árvore ficava num vaso e era alugada para festas. Por isso tinha que ter a forma de uma bola. Comecei imediatamente a cortar os brotos selvagens, mas não conseguia atingir a forma de uma bola, por mais que me esforçasse. Uma vez tirava demais de um lado, outra vez de outro. Quando finalmente ela havia se tornado uma bola, esta era pequena demais. O jardineiro falou, decepcionado: ‘Certo, isto é uma bola, mas onde está o loureiro?’ ”

(Forma e conteúdo – in Histórias do Sr. Keuner, de B. Brecht )

Sinais interiores de riqueza

março 2, 2010

Quando em 25 de dezembro de 1863 Victor Hugo escreveu num dos seus cadernos “Sou um homem que pensa noutra coisa”
referia-se, é claro, a mim. Quando almoço com alguém, por exemplo, deixo um sorriso sentado no lugar e escapo-me em bicos dos pés para outra mesa do restaurante, a desenhar comboios e navios na toalha de papel na esperança de partir, numa locomotiva ou num paquete de tinta, para longe de um mundo de saleiros, garrafas de branco e cabeças de pescada. Em pequeno, na época em que me tentavam ensinar catolicismo tinha de Deus a ideia de um vertebrado gasoso: levei séculos a compreender que o vertebrado gasoso era eu.

O resultado disto é que observo os objetos do quotidiano com a estranheza do homem das cavernas: nunca fui capaz de mexer num vídeo, todas as manhãs me corto com a gilete, preencher um cheque é quase tão difícil como resolver um problema de torneiras do género “Se um tanque tem 3 metros de lado, quanto tempo uma torneira que debita 7 decilitros por minuto, etc“. Desesperei os instrutores na tropa a virar-me para eles de espingarda carregada a perguntar
“– Como?”
numa incompreensão sincera e a surpreender-me   de os ver atirarem-se para o chão berrando
“– Desvia essa merda”
numa angústia de que ainda hoje não compreendoo motivo. Talvez tenha herdado isto de um tio remoto que num velório, espantado com a tristeza do viúvo, o consolou com uma palmadinha no ombro
“– Não pense mais na morte da bezerra”

Sou um homem que pensa noutra coisa, que tenta abrir a fechadura da porta com o cigarro e que fuma um molho de chaves por dia: se adoecer de cancro do pulmão será um canalizador a operar-me. As palavras grandiosas como Trabalho, Família, Dinheiro, atravessam-me sem me tocarem. Dá ideia que não sei viver com os que amo ou que rejeito o seu afecto: não é verdade. O que acontece é que enquanto me acariciam estou a observar as cegonhas na mata do sótão da tia Madalena, ou na esplanada da Praia das Maçãs, ao lado do meu avô, a comer um sorvete de morango. E gosto das pessoas modestas porque os sinais interiores de riqueza me comovem.
A propósito de sinais interiores de riqueza a semana passada, na consulta do Hospital Miguel Bombarda, vi uma mulher nova, de quarenta anos: nasceu-lhe um caroço no peito e o médico não a quis operar porque a doença já lhe atingira os ossos. Quimioterapia. Uma mulher bonita, inteligente. Disse-me
“– Ainda gostava de viver mais algum tempo”
e vai morrer daqui a nada. Depois sorriu e perguntou
“– Vou ficar melhor não acha?”
ela sabia que não e sabia que eu sabia que não
“– Claro que melhora”
disse eu
“– Está linda sabe?”
“– Toda a gente me diz isso agora. Faço quarenta e um no mês que vem”

Trazia o vestido dos domingos, colar, anéis, um risco azul nas pálpebras. A enfermeira abriu a porta, espreitou, viu que eu não estava sozinho, desapareceu. E o sorriso
“– Se calhar ainda nos voltamos a ver”
e eu a apertar-lhe a mão
“– Se calhar.”
Ao sair até a maneira de andar era elegante. E então pensei: ainda bem que sou um homem que pensa noutra coisa. Se não fosse um homem que pensa noutra coisa ia ter vontade de chorar.
De forma que no momento em que a doente seguinte entrou já me esquecera dela. Já me esquecera dela. Já me esquecera dela.
Graças a Deus já me esquecera dela.

(António Lobo Antunes, do Livro de Crónicas)

Pesar menos e obrar mais

dezembro 10, 2009


Para mim e para Otto*

“Preciso fundar em mim a disciplina da fidelidade. Preciso aprender a ser fiel a mim mesmo, às verdades que me são reveladas e que eu busco, num certo sentido, esquecer e malcurar, pois nenhuma tarefa é tão pesada como a de pastorear o ser das coisas que a nós se revela. Preciso aprender a trabalhar com método calmo e transparente amor. A revelação, a iluminação, nada mais representam do que o bloco de pedra a partir do qual se há de arrancar a escultura. Preciso aprender a tornar-me o escultor cotidiano, aquele que acorda e dorme a sua obra, no desfiar dos dias que se sucedem, com paciência e silenciosa paixão. Preciso pesar menos e obrar mais. Preciso ser menos eruptivo e mais fluente. Preciso fluir, manar, desdobrar-me, descobrir-me, preciso permitir que as águas venham da rocha profunda. Pois só na medida em que as águas surgem é que elas renovam. Do fluir decorre a fluência. Não há fluência sem o fluir, da mesma forma como não há fonte sem a água que borbulha. A fonte é a água que borbulha, e mais nada. Não há, portanto, fonte onde não há o fluir da água, onde não existe o seu brotar da pedra, frio e fresco. Estou certo de que só o criar alimenta e restaura a capacidade de criação. Não resta dúvida de que, às vezes, as coisas parecem que nos são dadas por acréscimo, por superabundância, por graça. Mas estas coisas que nos são dadas de graçça exigem de nós, depois, a paciente perseverança, o aturado e duradouro calor, capaz de transformar-nos nos guardiões da graça do ser que a nós se revelou. O preço da graça que recebemos é nos mantermos fiéis a ela, é nos tornarmos os porta-vozes dela, nos fazermos a voz dela, a linguagem dela. A graça quer aceder ao mundo através da nossa boca que fala. Fala boca, para que te possas, depois, calar com dignidade. Fala, para mereceres o silêncio, que vem depois, como a noite vem depois do dia. Fala.”

Rio de Janeiro, 12/06/62

*bilhete datilografado, assinado por
Hélio Pellegrino, para Otto Lara Resende.