Archive for the ‘Hipérboles’ Category

Só depois de 2010

abril 24, 2018

  Vito-Campanella

Outro dia, fui pego num ato falho ao falar, animado, sobre alguns planos enérgicos para o futuro com um: “isso… só depois de 2010!”

O ouvido que me ouviu tem senso de humor, sabe das minhas confusões deliberadas, mas até me deu o crédito do engano: “espera aí, não entendi… você fez isso em 2010? Fiquei confusa!”

Era pra dizer 2019, mas 2010 me saiu assim como quem não quer nada, como um ano logo ali, prestes a fazer as vezes de amanhã.

A verdade verdadeira é que 2008 foi um fio desencapado, um choque – de alguns instantes – do qual, parece, nunca me recuperei. Não foi Iemanjá que falhou naquele réveillon, nem fui eu que não percebi a década que passou. Nem poderia, teve tanta, mas tanta coisa que reinventou a vida todinha, a desdobrou, a virou do avesso…

Mas sei lá! Parece que do bolo, tudo o que veio depois foi a cobertura – vistosa, gostosa, rala, barata, soberba, não importa; pode ser preconceito meu, mas a farinha, os ovos, o fermento, todos os ingredientes salutares pra que um bolo seja um bolo, um homem seja um homem… são de antes!

E aí é que está o problema, isso – a rigor, não poderia ser diferente – é falso!

Talvez seja só um não se reconhecer no espelho, certo torpor diante da aceleração das coisas que, em queda brusca, perdem peso a casa pesagem, mas é muito esquisito!

É esquisito, eu existo e sigo existindo para as coisas reais, mas talvez não esteja suficientemente presente, talvez eu não faça jus a elas, não como o tempo presente merece. Quem me ama talvez não me ame pelo que eu sou hoje, ou releve o que hoje sou, em nome daquilo que eu sou desde sempre. E daí certa empáfia minha e um desdém involuntário (esses medos que fingem galopar) frente ao que é novo! Amarga tolice!

Já nem me dou ao luxo de achar que isso é nostalgia, foi só o relógio que embirutou, e eu não soube mais consertar. Aquele segue sendo um ano limite, marco de um tempo musical, com músicas todas saindo de uma vitrola ligada e que segue tocando dentro de uma sala cuja porta não tem maçaneta, um ambiente sonoro que eu não tenho meios para ignorar.

Isso em geral é bom e harmonioso, mas às vezes isso me confunde, me atrapalha , impede que eu escute adequadamente o que me é dito ao vivo.

Se você me conhece e já teve que repetir o que disse até ser ouvido, entendido ou amado…

Ou teve que desistir de me fazer escutar, dar de ombros, e concluir (inventar) algo pra que fizesse sentido a aberrante incongruência entre o meu olhar que olha e olha e olha fundo e a minha (des)atenção …

Se você ainda não me conhece, e eu sinto que poderia…

… saiba, minha surdez é essa demência no tempo!

Vou ajustar meu relógio e talvez isso crie abalos ou confusões!

Por agora, feliz 2009!

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“When a dancer becomes a dance”

dezembro 30, 2012

A bailarina se torna menos mortal
quando deixa em casa os calcanhares.

Sem eixo, vira tablado
pode estar em toda parte.

Edgar pensou em dançarinas.
Aleksandr pensou na dança.



Per dom, perdões

julho 12, 2012

— não te perdoo o rancor.

— prefiro dar com a cara no muro,
dar facada em murro,
a te dever favor.

Amores de verão em pleno inverno

junho 12, 2012

Pode amar o batente da porta
Pode amar a cabeceira da cama
Pode amar o encosto da cadeira
Pode amar o cadarço do sapato
Pode amar o zíper da calça
Pode amar o bule do café
Pode amar o filtro da água
Pode amar o capacho da entrada
Pode amar o despertador das 3 e trinta.

Mas e a paixão?

A paixão dos gestos largos,
A paixão das chuvas de verão
em pleno inverno…

Essa de fazer viajar latitudes,
de fazer tomar atitudes…

Essa de fazer aprender mandarim,
alemão & francês,
medicina, ou álgebra…

Essa não é de hoje, nem de ontem, essa é de sempre, essa não se ganha com argumentos, nem com os boletos da escola dos filhos, essa é pra quem está vivo, essa é pra quem não morreu, essa é como o vento…

O vento que não desvia,
O vento que derruba,
O vento que quebra…
que arrebata
e arrebenta.

Como Baudelaire

junho 8, 2012

Uma excessiva consciência de si mesmo
Uma forma superior de ser inferior
àqueles a quem desprezamos

Pepe-jaki

maio 9, 2012

Entre o mágico e o operário
Se escondem alguns móveis
Duas cômodas, um sacrário
Gavetas vazias, rimas fáceis

O escritor pode ter mil profissões num ofício: não precisa ser o xamã, prestidigitador, animador de auditório; não precisa ser amargo apertador de parafusos, nem vil encantador de caramujos.

Amor livre II

maio 7, 2012

Nas artes do equilíbrio:

um é pouco, dois é bom, três é tripé
mais que isso é
“quadrúpede!”
A coisa vira xingamento.

Amor livre

abril 29, 2012

Eis a grande mágica do sistema de polias:

Para vingar a nossa estripulia
Há o macete da roldana,
Há sempre alguém a fazer
o cafona papel de parede.

Movimento

abril 1, 2012

Imagem

“aqui você precisa de calar a sua sabedoria para sobreviver. Conhece a diferença entre o sábio branco e o sábio preto? A sabedoria do branco mede-se pela pressa com que responde. Entre nós o mais sábio é aquele que mais demora a responder. Alguns são tão sábios que nunca respondem.

Faz bem, Massimo: não aspire ser centro de nada. A importância aqui é muito mortal. Veja, por exemplo, essas avezitas que pousam no dorso dos hipopótamos. Sua grandeza é o seu tamanho mínimo. É essa a nossa arte, nossa maneira de nos fazermos maiores: catando nas costas dos poderosos.”

Outro tempo

outubro 10, 2011

Quando Jean Brunhes publica, em 1914, o seu livro A Geografia Humana, ele também se desculpa diante de seu público e do seu editor por um atraso de dez anos. Nossa culpa é dobrada, porque nosso projeto é ainda mais velho. Mas podemos, como ele, dizer que “o meu atraso deve-se ao escrúpulo e não à negligência”.

(Milton Santos – na introdução de seu livro A Natureza do Espaço)