Archive for the ‘Filosofia’ Category

O leito de Procusto

dezembro 22, 2009

“Conta-nos uma lenda antiga, que um homem rico e poderoso, obsequioso e cortês, gostava de convidar estranhos para seu palácio, onde propiciava vinhos e as iguarias mais requintadas e oferecia-lhes um leito suntuoso para o descanso.

O único problema que se apresentava para o convidado era que ele tinha de encaixar-se perfeitamente no leito. Se houvesse a menor discrepância entre o tamanho do convidado e o leito, suas pernas eram cortadas ou esticadas até que ele se ajustasse às proporções devidas e nesse processo o incauto quase sempre acabava por morrer.

Somente  aqueles raros convidados cujas proporções coincidiam com as da cama tinham suas vidas poupadas e alcançavam a velhice.”

“A liberdade”

agosto 12, 2009

“Há algum tempo, no mercado, comprei um peixe vermelho num vaso redondo de vidro transparente. O espaço era pouco, nem se podia falar em nadar. E eu tinha pena de vê-lo bater continuamente o focinho no vidro. Era evidente que, mesmo repetidas, as desilusões nunca o convenceram da inutilidade de seus esforços para se evadir.

Compadecido, decidi dar-lhe uma casa menos estreita. E mandei construir no jardim um belo tanque redondo com três metros e meio de diâmetro e profundidade de meia perna. Quando o tanque ficou pronto, enchi-o de água fresca e ia emborcar nele o peixinho quando pensei: atualmente, ele se encontra em água quase morna, se o atiro de repente na água fria, não terá uma congestão? Para evitar tal risco, adotei uma solução muito simples. Coloquei suavemente no fundo, tal como se encontrava, o vaso de vidro, deixando dentro dele a água e o peixinho. Com duas vantagens: primeiro, o bichinho podia se aclimatar à baixa temperatura do tanque, segundo, sua alegre surpresa seria maior, inesperada e sem choques quando, subindo à superfície, como fazia freqüentemente, percebesse que a água não acabava ali, que a prisão não era mais prisão e que, ao redor, estendia-se um grande oceano à sua disposição.

Assim aconteceu. Quando o vaso foi colocado no fundo, por algum tempo o peixe continuou a bater o nariz contra o vidro, depois, tendo subido casualmente à embocadura do vidro, debruçou-se timidamente, e, finalmente, não encontrando nenhum obstáculo, começou uma correria louca de um lado para o outro do tanque, entusiasmado com a inesperada liberdade.

Essa alegria durou uns dois dias. Três manhãs mais tarde, quando fui ver como estava, fiquei petrificado ao vê-lo entocado no vaso que esquecera no tanque. Estava muito quieto, balançando-se na metade do vaso, não batia mais a cabeça contra a parede como antes. ”Capricho de peixe!”, pensei. “Mesmo os presidiários libertados, freqüentemente, desejam voltar, para uma breve visita, à prisão onde passaram tantos anos de tão amarga clausura.”

Mas não foi uma breve visita. Mesmo à noite, o peixe permanecia dentro do vidro, como no dia seguinte, e no terceiro dia consecutivo. Perdi a paciência e lhe disse:

— Caro peixe, desculpe, mas parece que agora você passou das medidas! Gastei um dinheirão para que pudesse nadar à vontade, de tanta pena de vê-lo sempre fechado naquele mísero vaso, e você volta ao vaso e nele passa dias inteiros, como se não lhe importasse nada estar livre. Juro que você me desanima!

Então (é uma mentira que os peixes são mudos, eles apenas têm certa dificuldade na pronúncia dos “erres”), o animalzinho me respondeu:

— Ó homem, como você é pouco inteligente, e perdõe minha sinceridade. Que estranha é sua idéia de liberdade. Não é o uso da liberdade que importa, aliás ela é, geralmente, uma coisa insossa e extremamente vulgar. O que importa é a possibilidade de usá-la. Aqui está o seu requintado sabor. Gosto de estar nesse vaso, que é tão íntimo e calmo, propício às meditações solitárias. Mas sei que, quando quiser, posso sair e fazer longas viagens no tanque (pelo qual, entre parênteses, sou extremamente grato).

“Este vaso era uma prisão e agora não o é mais, eis a diferença. Não apenas isso. Permanecendo aqui no meu cantinho, estou vivendo, do ponto de vista material a mesma vida de outrora, quando era prisioneiro e infeliz. Mas justamente isto me permite gozar a felicidade atingida. Assim, de fato, esqueço as penas já sofridas, da comparação extraio uma consolação sempre nova e evito que o hábito da vastidão anule pouco a pouco o seu gosto. Estou no cárcere, mas a porta está aberta e vejo, lá fora, o mundo intenso que me espera e tal vista acalma meu coração. Se, ao contrário, para desfrutar avidamente do bem recebido pela sorte, eu corresse, de um lado para outro, o dia inteiro, sem parar nunca, num certo momento estaria enfastiado. E a satisfação cessaria. E começaria a desejar mares cada vez maiores, vastidões cada vez mais ilimitadas, o que hoje não acontece. Em resumo, eu voltaria a ser infeliz. Veja, portanto, que ninguém sabe gozar a divina liberdade mais do que eu. E agora, se quiser me fazer uma gentileza, deixe-me tranqüilo no meu canto.”

E eu, com a sensação de ter feito uma péssima figura, retirei-me, balbuciando vagas desculpas.”

[Dino Buzzati, em Naquele exato momento]

O haver

agosto 11, 2009

simples, simples, simples…

Magma II

julho 27, 2009

“Não vemos, efetivamente, que necessidade haveria de se proibir o que ninguém deseja realizar. Aquilo que se acha severamente proibido tem que ser objeto de um desejo.”

Freud, Totem e tabu

Da arte de peneirar verdades – umlaut

julho 18, 2009

irene

se duas verdades são concomitantes, opte pela mais verdadeira.

Da arte de peneirar verdades

julho 18, 2009

perdas irreparáveis ganhos certos

se duas verdades são concomitantes, opte pela mais simples.

Aos recalcitrantes

julho 16, 2009

“Hannah Arendt apontou a saída: é, sim, possível, mesmo reconhecendo a vacilação do terreno em que pisamos, assumir valores, defender posições políticas, afirmar convicções, investir no conhecimento, firmas juízos morais e estéticos. Para isso, é necessário recusar os dogmatismos, reconhecer a legitimidade do pluralismo, adotar a humildade e a tolerância como posturas constantes, e buscar,no diálogo e na reflexão crítica, no estudo da tradição e no exame do repertório contemporâneo das criações culturais, as referências que produzam menos danos para a vida coletiva, em condições civilizadas (sic), e menos prejuízos aos valores que podem proteger e animar, seja o espaço público democrático, seja a experiência privada variada e livre. A receita não é simples, nem fácil. Não se aplica, mecanicamente, mas nos ajuda a atravessar nosso tempo sombrio”

[do antropólogo e cientista político Luis Eduardo Soares (UERJ), no texto Hannah Arendt e sua receita para tempos sombrios]

gêneros

maio 20, 2009

fio de ariadne

“Há uma maneira dramática de ver o mundo, de concebê-lo como dividido por antagonismos irreconciliáveis; há um modo épico de contemplá-lo serenamente na sua vastidão imensa e múltipla; pode-se vivê-lo liricamente, integrado no ritmo universal e na atmosfera impalpável das estações.” (Anatol Rosenfeld, in O Teatro Épico)

O Horácio

abril 22, 2009

[de Heiner Müller]
[tradução – Ingrid Koudela]

Entre a cidade de Roma e a cidade de Alba
Havia luta pelo poder. Contra estes que brigavam
Estavam armados os etruscos, poderosos.
Para solucionar a briga, antes do ataque esperado
Colocaram-se um contra o outro, em ordem de combate
Ambos os ameaçados. Os chefes de exército
Colocaram-se cada um diante do seu exército e disseram
Um para o outro: Como a batalha enfraquece
Vencedores e vencidos, vamos tirar a sorte.
Que apenas um homem lute por nossa cidade,
Contra um homem por Vossa cidade,
Poupando os outros para o inimigo comum.
E os exércitos bateram a espadas contra os escudos
Em sinal de aprovação. E a sorte foi tirada.
A sorte determinou que lutaria
Por Roma um Horácio, por Alba um Curiácio.
Depois o Horácio e o Curiácio foram indagados
Cada qual diante do seu exército
Ele é/ Você é noivo/ da sua irmã/irmã dele?
A sorte deve ser
Tirada mais uma vez?
E o Horácio e o Curiácio disseram: Não.
E eles lutaram, entre as fileiras de combate.
E o Horácio feriu o Curiácio
E o Curiácio disse com a voz desvanecendo
Poupe o vencido. Eu sou
Noivo de sua irmã.
E o Horácio gritou:
Minha noiva é Roma.
E o Horácio enfiou a sua espada
No pescoço do Curiácio, sendo que o sangue caiu sobre a terra.
Quando o Horácio voltou para Roma
Sobre os escudos da tropa, sem feridas,
Jogada sobre o ombro a vestimenta de batalha
Do Curiácio, a quem havia matado,
No cinto a espada da vítima, nas mãos a sua própria, cheia de
Sangue veio ao seu encontro, na porta oeste da cidade
Com passo rápido, a sua irmã, e atrás dela
Seu velho pai, lentamente
E o vencedor saltou dos escudos, em meio ao júbilo do povo,
Para receber o abraço da irmã
Mas a irmã reconheceu a vestimenta de combate cheia de sangue,
Obra de suas próprias mãos, e gritou, e arrancou os cabelos.
E o Horácio ralhou com a irmã, que chorava a morte.
Por que você grita, e arranca seus cabelos.
Roma venceu. Diante de ti está o vencedor.
E a irmã beijou a vestimenta de combate, cheia de sangue, e gritou:
Roma
Me devolve o que havia dentro dessa vestimenta.
E o Horácio, que ainda tinha no braço o impulso
Com que havia matado o Curiácio,
Pelo qual a sua irmã chorava agora,
Enfiou a espada, sobre a qual o sangue daquele que lastimava
Ainda não havia secado,
No peito da chorosa,
Sendo que o sangue caiu sobre a terra. Ele disse:
Vá para ele, a quem você ama mais do que a Roma.
Isso a toda romana que lastimar o inimigo.
E ele mostrou a espada, duas vezes cheia de sangue, a todos os romanos.
E o júbilo silenciou. Só das fileiras mais distantes
Da multidão que observava ainda se ouviam
Vivas. Ali ainda não haviam percebido
O terrível. Quando em meio silêncio do povo
O pai chegou perto de seus filhos,
Tinha apenas um filho. Ele disse:
Você matou a sua irmã.
E o Horácio não escondeu a espada, duas vezes cheia de sangue
E o pai do Horácio
Olhou para a espada, duas vezes cheia de sangue e disse:
Você venceu. Roma
Reina sobre Alba.
Ele chorou pela filha, com rosto encoberto
Estendeu sobre sua ferida e vestimenta de combate
Obra de suas mãos, sangrando pela mesma espada
E abraçou o vencedor.
Juntaram-se então aos horácios os lictores
Separaram com chicote e machado o abraço.
Tiraram a espada da vítima do cinto
Do vencedor, e das mãos do assassino a
Sua própria espada, duas vezes cheia de sangue.
E um dos romanos gritou:
Ele venceu. Roma reina sobre Alba.
e um outro romano respondeu:
Ele matou a sua irmã.
E os romanos gritaram uns contra os outros:
Honrem o vencedor
Executem o assassino
E romanos empunharam a espada contra romanos na luta
Se como vencedor deveria ser honrado
Ou julgado como assassino o Horácio.
Os lictores
Separaram os que brigavam com chicote e machado.
E convocaram o povo para uma assembléia.
E o povo elegeu dois dos seus
Para fazer justiça sobre o Horácio.
E colocou na mão de um deles
O louro, para o vencedor,
E na do outro o machado de execução, destinado ao assassino.
E o Horácio estava
Entre o louro e o machado.
Mas seu pai colocou-se ao seu lado,
O primeiro prejudicado e disse:
Espetáculo vergonhoso
Que nem mesmo o albano veria sem pudor.
Diante da cidade estão os etruscos
E Roma desperdiça sua melhor espada.
Por uma apenas se preocupe
Preocupem-se com Roma.
E um dos romanos lhe respondeu
Roma tem muitas espadas
Nenhum romano
É menos do que Roma, ou Roma não existe
E um outro romano disse
E apontou com os dedos em direção ao inimigo
Duas vezes poderoso
É o etrusco, se Roma estiver dividida
Por opiniões contrárias
No julgamento fora de hora
E o primeiro fundamentou assim a sua opinião
Conversas não conversadas
Pesam sobre o braço que empunha a espada
Discordância encoberta
Torna as fileiras de combate inseguras
E os lictores separaram pela segunda vez
O abraço dos horácios, e os romanos se armaram
Cada qual com a sua espada.
Aquele que carregava o louro e aquele que carregava o machado
Cada qual com a sua espada, de forma que
O da esquerda agora segurava o louro ou o machado
E a espada o da direita. Os próprios lictores
Largaram por um instante
As insígnias de seu posto e enfiaram
No cinto cada qual a sua espada e pegaram
Novamente na mão o chicote e o machado
E o Horácio se inclinou
Para pegar a sua espada, cheia de sangue, que estava na poeira
Mas os lictores
Impediram-no com o chicote e o machado
E o pai do Horácio também pegou sua espada
E ia erguer com a esquerda aquela cheia de sange
Do vencedor, que era um assassino
E os lictores também o impediram
E os vigias foram reforçados nos quatro portões da cidade
E prosseguiu o julgamento
À espera do inimigo
E aquele que carregava o louro disse
Seu mérito apaga sua culpa
E aquele que carregava o machado disse
Sua culpa apaga seu mérito
E aquele que carregava o louro perguntou
O vencedor deve ser executado?
E aquele que carregava o machado perguntou
O assassino deve ser honrado?
E aquele que carregava o louro disse
Se o assassino for executado
Será executado o vencedor
E aquele que carregava o machado disse
Se o vencedor for honrado
Será honrado o assassino
E o povo olhou para o autor único e indivisível
De atos tão diversos e silenciou
E aquele que carregava o louro e aquele que carregava
O machado perrguntaram
Se um não pode ser feito sem o outro, que o torna desfeito
Porque o vencedor/assassino e o assassino/vencedor
São um homem, indivisível
Então entre ambos nada devemos fazer
Para que haja uma vitória/assassinato
Mas nenhum vencedor/assassino
E que o vencedor/assassino seja chamado ninguém?
E o povo respondeu a uma só voz
(mas o pai do Horácio silenciou)
Ali está o vencedor. Seu nome, Horácio.
Ali está o assassino. Seu nome, Horácio.
Há muitos homens em um só homem
Um deles venceu por Roma no duelo
Um outro matou a sua irmã
Sem necessidade. A cada um o seu
Ao vencedor o louro. Ao assassino o machado
E o Horácio foi coroado com o louro
E aquele que carregava o louro ergueu a sua espada
Com o abraço estendido e honrou o vencedor
E os lictores largaram das mãos
O chicote e o machado e levantaram a espada
Aquela duas vezes cheia de sangue com sangues diferentes
Que estava na poeira e a entregaram ao vencedor
E o Horácio, com a testa coroada
Ergueu a sua espada para que ela fosse visível para todos
Aquela duas vezes cheia de sangue com sangues diferentes
E aquele que carregava o machado largou das mãos o machado
E todos os romanos
Ergueram suas espadas por um tempo de três batidas do coração
Com o braço estendido e honraram o vencedor
E os lictores enfiaram novamente suas espadas
No cinto, tiraram a espada
Do vencedor das mãos do assassino e a jogaram
Na poeira. E aquele que carregava o machado arrancou
Da testa do assassino o louro
Com o qual o vencedor havia sido coroado e o
Devolveu à mão daquele que carregava o louro
E jogou sobre a cabeça do Horácio o pano da cor da noite
Dentro da qual fora condenado a entrar
Porque havia matado um homem
Sem necessidade, e os romanos todos
Enfiaram cada um sua espada na bainha
De forma que os fios estavam todos cobertos
Para que não participassem as armas
Com as quais o vencedor havia sido honrado
Da execução do assassino. Mas os vigias
À espera do inimigo nos quatro portões da cidade
Não cobriram suas espadas
E os fios dos machados ficaram descobertos
E a espada do vencedor, na poeira, cheia de sangue
E o pai do Horácio disse
Esse é o meu último. Matem a mim por ele.
E o povo respondeu a uma só voz
Nenhum homem é outro homem
E o Horácio foi executado com o machado
Que o sangue caiu sobre a terra
E aquele que carregava o louro na mão
Novamente o louro do vencedor, amarrotado agora
Porque havia sido arrancado da testa do assassino
Perguntou ao povo
O que deverá acontecer com o cadáver do vencedor?
E o povo respondeu a uma só voz
O cadáver do vencedor deve receber seu féretro
Sobre os escudos da tropa, salvo por sua espada
E eles reuniram
Aquilo que já não podia ser reconciliado
A cabeça do assassino e o corpo do assassino
Separados um do outro pelo machado do julgamento
Sangrando ambos, como cadáver do vencedor
Sobre os escudos do exército, salvo por sua espada
Não vendi seu sangue em suas mãos, e colocaram
Em sua testa o louro amarrotado
E colocaram na mão, os dedos crispados
Da convulsão última sua espada cheia de sangue e poeira
E cruzaram sobre ele as espadas nuas
Indicando que nada deveria ferir o cadáver
Do Horácio que havia vencido por Roma
Nem a chuva, nem o tempo, nem a neve, nem o esquecimento
E ficaram de luto com o rosto encoberto
Mas os vigias nos quatro da cidade
À espera do inimigo
Não cobriram seus rostos
E aquele que carregava o machado, novamente o machado da execução
Nas mãos
Sobre as quais o sangue do vencedor ainda não havia secado
Perguntou ao povo
O que deve acontecer com o cadáver do assassino?
E o povo respondeu a uma só voz
(mas o último Horácio silenciou)
O cadáver do assassino
Deve ser jogado diante dos cães
Para que o rasguem
Para que nada dele permaneça
Ele que matou um homem
Sem necessidade
E o último Horácio, no semblante
Duas vezes a marca da lágrima, disse
O vencedor está morto, aquele que não pode ser esquecido

Enquanto Roma reinar sobre Alba
Não será possível esquecer a sua Roma e o exemplo
Que ele deu ou não deu
Pesando com a balança do comerciante um contra o outro
Ou diferenciando com cuidado culpa e mérito
Do autor único e indivisível de atos tão diversos
Temendo a verdade impura ou não a temendo
E exemplo pela metade não é exemplo

Aquilo que não é feito inteiro até o fim verdadeiro
Volta para o Nada nas rédeas do tempo em passo de caranguejo
E tiraram o louro do vencedor
E um dos romanos se inclinou
Diante do cadáver e disse
Permite que quebremos a sua mão, vencedor,
Que nada mais sente
A espada que está sendo requisitada
E um outro romano cuspiu no cadáver e disse
Assassino, devolve a espada
E quebraram a espada de sua mão
Pois a mão enrijecida pela morte
Havia se fechado em volta da maça do punho da espada
De forma que foi preciso quebrar os dedos
Do Horácio para que entregasse a espada
Com a qual havia por Roma e uma vez
Não por Roma, uma vez cheia de sangue em demasia
Para que pudesse ser melhor usada por outros
O que ele havia bem usado exceto uma vez
E o cadáver do assassino, dividido pelo machado de execução
Foi jogado diante dos cães para que eles
O estraçalhassem para que nada dele sobrasse
Aquele que havia matado um homem
Sem necessidade ou por quase nada

E um dos romanos perguntou para os outros
Como deve ser chamado o Horácio pela posteridade?
E o povo respondeu a uma só voz
Ele deve ser chamado o vencedor sobre Alba
Ele deve ser chamado o assassino de sua irmã
No mesmo fôlego seu mérito e sua culpa
E quem mencionar sua culpa e não mencionar seu mérito
Este deve morar com os cães como um cão
E quem mencionar seu mérito e não mencionar sua culpa
Este também deve morar com os cães
Mas quem mencionar sua culpa em um momento
E mencionar seu mérito em outro momento
Falando da mesma boca em momentos diferentes de forma diferente
A este deve ser arrancada a língua
Pois as palavras devem permanecer puras.
Uma espada pode ser quebrada e um homem
Também pode ser quebrado, mas as palavras
Caem na agitação do mundo, irrecuperáveis
Tornando as coisas reconhecíveis ou irreconhecíveis
Mortal para o homem é aquilo que é irreconhecível
Assim estabeleceram, sem temer a verdade impura
Á espera do inimigo, um exemplo provisório
De diferenciação pura, não ocultando o resto
O que não podia ser solucionado na transformação irremediável
E voltaram cada um novamente ao seu trabalho
À mão, ao lado do arado, martelo, sovela
Estilete, a espada.

furikake remix

abril 14, 2009

porém, ai porééééééémmm…