Archive for the ‘Dança’ Category

“When a dancer becomes a dance”

dezembro 30, 2012

A bailarina se torna menos mortal
quando deixa em casa os calcanhares.

Sem eixo, vira tablado
pode estar em toda parte.

Edgar pensou em dançarinas.
Aleksandr pensou na dança.



Legadinhos XI

setembro 28, 2011

Porque os amores musicais são um tanto quanto AM, um tanto quanto FM… nem sempre sintonizam em outra estação…

“Para ouvir e ensaiar diariamente quando formos muito, muito velhos em Cuba ou Pico Rivera, já teremos uma nobre ocupação: ficar na porta do metrô ou nos degraus de algum lugar onde sejamos inconvenientes, solfejando Rama Lama Ding Dong em acapella, um de nós necessariamente cego(…) junto a um cão velho/gordo/decrépito…”

Set List

Rama Lama Ding Dong
Barbara Ann
Never Fall in Love Again
Sh Boom
Brown Eyed Girl
Come And Go With Me
Don’t Be Cruel
Morse Code Of Love
Sixty-Minute Man
La Bamba/Twist And Shout
Breakfast At Tiffany’s
She Moves in Mysterious Ways
Eye of The Tiger
The Drifters Medley
Duke of Earl
At The Hop
Love Potion #9
Book of Love
Alley Cat Tag
The Wanderer
What’s Your Name
Little Darlin’
Rundaround Sue
If You Could Only See
In The Still Of The Night
The Lion Sleeps Tonight
Something In The Way She Moves
Goodnight Sweetheart

Legadinhos IX

setembro 25, 2011

Um homem — ao longo da vida, entre tropeços e cavalos de pau — acumula alguns legadinhos.

Um dos que me foram deixados foi a tal “vaca paisagista”, do Jorge Timossi, escrita de trás para diante num papel amarelo…

“Existem muitos tipos de vacas, como bem sabe um escritor como Augusto, mas para mim a melhor é a extraordinária vaca paisagista, a que se situa, com os cascos bem plantados, no ponto mais alto de uma colina, e dali, de sua atalaia, olha para o extenso e profundo vale com os olhos úmidos e estáticos, hipnotizados pelo panorama que, por sua vez, neles se reflete, na íris docemente sépia, sem mover-se para nada, nem para espantar uma mosca, e não é que se trate de uma vaca filosófica, como as da Índia, orgulhosas de sua casta, de passo às vezes irritado, que parecem estar sempre ruminando dinastias e mágicas fórmulas em sânscrito, não, simplesmente se trata de uma vaca latino-americana, quase sempre castanha, entre outros sinais, apaixonada até a medula por sua paisagem, por esse vale espalhado lá embaixo, por essa eterna promessa de pastos, uma vaca que não é pensativa nem tampouco dá leite (porque algumas têm muita teta e pouca imaginação) nem se perturba com o trepidar dos trens de carga, ou as pedras que lhe atiram os turistas, uma vaca paisagista ela mesma elemento inelutável do panorama, que sequer pestanejaria se sofresse um aguaceiro torrencial sobre seu pêlo castanho e continuaria olhando através da cortina de água, à espera talvez do arco-íris que se estenderá como uma ponte de um extremo a outro do vale e os olhos desta vaca serão agora furta-cor, quer dizer que nada nem ninguém poderá tirá-la de sua atitude contemplativa, de sua visão que poderíamos qualificar de feliz, se isto fosse possível para uma visão de vaca, motivo pelo qual teria de aparecer algum insensato insensível que nunca falta por estas paragens e ter a idéia de empurrá-la empurrá-la por seus quartos traseiros, por suas nádegas nobres e inocentes, para o precipício, para o despenhadeiro à morte certa, mas a vaca quase flutuaria no espaço azul (teria acabado de chover), iria descendo lenta para o vale, lã, algodão de vaca, com suas quatro patas bem abertas, deslizaria pelas nuvenzinhas até chegar à terra, não faria o mínimo esforço para tornar a subir, plácida, diluída entre as ervas cheirosas, incorporada para sempre às margaridas, à paisagem que outra vaca idêntica à anterior, e tão descuidada quanto ela, já está observando do ponto mais alto da colina.”

O haver

agosto 11, 2009

simples, simples, simples…

Aos recalcitrantes

julho 16, 2009

“Hannah Arendt apontou a saída: é, sim, possível, mesmo reconhecendo a vacilação do terreno em que pisamos, assumir valores, defender posições políticas, afirmar convicções, investir no conhecimento, firmas juízos morais e estéticos. Para isso, é necessário recusar os dogmatismos, reconhecer a legitimidade do pluralismo, adotar a humildade e a tolerância como posturas constantes, e buscar,no diálogo e na reflexão crítica, no estudo da tradição e no exame do repertório contemporâneo das criações culturais, as referências que produzam menos danos para a vida coletiva, em condições civilizadas (sic), e menos prejuízos aos valores que podem proteger e animar, seja o espaço público democrático, seja a experiência privada variada e livre. A receita não é simples, nem fácil. Não se aplica, mecanicamente, mas nos ajuda a atravessar nosso tempo sombrio”

[do antropólogo e cientista político Luis Eduardo Soares (UERJ), no texto Hannah Arendt e sua receita para tempos sombrios]

A memória como gratidão

setembro 26, 2008


ESTRADA. SALGUEIROS
Vento. Noite. Ekart dormindo na relva.
BAAL vem se aproximando pelos campos, como bêbado, a roupa aberta, como um sonâmbulo – Ekart! Ekart! Achei. Acorda!
EKART – O que é que você tem? Está outra vez sonhando?
BAAL senta-se junto dele – Ouça:

Quando a moça lentamente se afogou
E foi descendo para outros rios maiores
Como um milagre o céu resplandeceu
Como se fosse amparar o seu cadáver.


As algas enroscando-se no seu corpo
Que pouco a pouco se tornou pesada
Frios os peixes entre as suas pernas
Tornando-se ainda mais lenta a sua última viagem.

À noite o céu escureceu como fumaça
Escondendo a pálida luz das estrelas
Mas logo amanheceu para que ela
Também vivesse agora manhãs e tardes.

Quando na água seu pálido corpo apodrecia
Lentamente Deus foi se esquecendo dela:
O rosto e depois os cabelos e as mãos.
Uma carcaça sobre tantas carcaças no rio.


Vento
.

(Bertolt Brecht – da peça Baal – 1918/1919)