Archive for the ‘breguices’ Category

tra<3slação

fevereiro 24, 2017

foto-1

tenho, cá pra mim,
que a terra só dá voltas fúteis
em torno de si
porque tem vergonha:

se pudesse assumiria –
giraria até mil vezes mais
em torno do sol .

só rotasó
quem não conhece
o movimento largo
os generosos amores de astro.

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Os dedos e a luva

julho 25, 2012

Bom-dia: eu dizia à moça
que de longe me sorria.
Bom-dia: mas da distância
ela nem me respondia.
Em vão a fala dos olhos
e dos braços repetia
bom-dia à moça que estava
de noite como de dia
bem longe de meu poder
e de meu pobre bom-dia.
Bom-dia sempre: se acaso
a resposta vier fria
ou tarde vier, contudo
esperarei o bom-dia.
E sobre casas compactas,
sobre o vale e a serrania,
irei repetindo manso
a qualquer hora: bom dia.
O tempo é talvez ingrato
e funda a melancolia
para que se justifique
o meu absurdo bom-dia.
Nem a moça põe reparo,
não sente, não desconfia
o que há de carinho preso
no cerne deste bom-dia.
Bom dia: repito à tarde,
à meia-noite: bom dia.
E de madrugada vou
pintando a cor de meu dia
que a moça possa encontrá-lo
azul e rosa: bom dia.
Bom dia: apenas um eco
na mata (mas quem diria)
decifra minha mensagem,
deseja bom o meu dia.
A moça, sorrindo ao longe,
não sente, nessa alegria,
o que há de rude também
no clarão deste bom-dia.
De triste, túrbido, inquieto,
noite que se denuncia
e vai errante, sem fogos,
na mais louca nostalgia.
Ah, se um dia respondesses
ao meu bom-dia: bom-dia!
Como a noite se mudara
no mais cristalino dia!

[Carlos Drummond de Andrade – Canção para álbum de moça]

Amor tipo zero Celsius

junho 13, 2012

Consta nos astros, nos signos, nos búzios
Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos autos, nas bulas, nos dogmas
Eu fiz uma tese, eu li num tratado, está computado nos dados oficiais
Serás o meu amor, serás a minha paz
Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário nos contrariar
Mas se o destino insistir em nos separar
Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas
Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos
Profetas, sinopses, espelhos, conselhos
Se dane o evangelho e todos os orixás
Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz
Consta na pauta, no Karma, na carne, passou na novela
Está no seguro, picharam no muro, mandei fazer um cartaz
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos mapas, nos lábios, nos lápis
Consta nos Ovnis, no Pravda, na Vodca

[Dueto, Chico Buarque]

Amores de verão em pleno inverno

junho 12, 2012

Pode amar o batente da porta
Pode amar a cabeceira da cama
Pode amar o encosto da cadeira
Pode amar o cadarço do sapato
Pode amar o zíper da calça
Pode amar o bule do café
Pode amar o filtro da água
Pode amar o capacho da entrada
Pode amar o despertador das 3 e trinta.

Mas e a paixão?

A paixão dos gestos largos,
A paixão das chuvas de verão
em pleno inverno…

Essa de fazer viajar latitudes,
de fazer tomar atitudes…

Essa de fazer aprender mandarim,
alemão & francês,
medicina, ou álgebra…

Essa não é de hoje, nem de ontem, essa é de sempre, essa não se ganha com argumentos, nem com os boletos da escola dos filhos, essa é pra quem está vivo, essa é pra quem não morreu, essa é como o vento…

O vento que não desvia,
O vento que derruba,
O vento que quebra…
que arrebata
e arrebenta.

Seu nome

junho 10, 2012

Li lás
aquis
e
acolás

Li o seu nome em muitos lugares
e ele tinha a mesma cor de ontem
ao fim da tarde.

Luar

maio 21, 2012

Nobiliar
é a parte maior
de uma palavra escondida
em nobiliárquico
É a nobreza toda e parte do poder.

Luar é a nobreza toda, e o poder todo.
A Lua é menos que o luar porque lhe sobram as fases todas
com que a lua se apequena de ser lua.

O luar é o que a lua tem de permanente

Pepe-jaki

maio 9, 2012

Entre o mágico e o operário
Se escondem alguns móveis
Duas cômodas, um sacrário
Gavetas vazias, rimas fáceis

O escritor pode ter mil profissões num ofício: não precisa ser o xamã, prestidigitador, animador de auditório; não precisa ser amargo apertador de parafusos, nem vil encantador de caramujos.

Amor livre II

maio 7, 2012

Nas artes do equilíbrio:

um é pouco, dois é bom, três é tripé
mais que isso é
“quadrúpede!”
A coisa vira xingamento.

Legadinhos XI

setembro 28, 2011

Porque os amores musicais são um tanto quanto AM, um tanto quanto FM… nem sempre sintonizam em outra estação…

“Para ouvir e ensaiar diariamente quando formos muito, muito velhos em Cuba ou Pico Rivera, já teremos uma nobre ocupação: ficar na porta do metrô ou nos degraus de algum lugar onde sejamos inconvenientes, solfejando Rama Lama Ding Dong em acapella, um de nós necessariamente cego(…) junto a um cão velho/gordo/decrépito…”

Set List

Rama Lama Ding Dong
Barbara Ann
Never Fall in Love Again
Sh Boom
Brown Eyed Girl
Come And Go With Me
Don’t Be Cruel
Morse Code Of Love
Sixty-Minute Man
La Bamba/Twist And Shout
Breakfast At Tiffany’s
She Moves in Mysterious Ways
Eye of The Tiger
The Drifters Medley
Duke of Earl
At The Hop
Love Potion #9
Book of Love
Alley Cat Tag
The Wanderer
What’s Your Name
Little Darlin’
Rundaround Sue
If You Could Only See
In The Still Of The Night
The Lion Sleeps Tonight
Something In The Way She Moves
Goodnight Sweetheart

Legadinhos X

setembro 26, 2011

De legadinho em legadinho, nessa brincadeira de boneca russa, o jogo “nunca termina quando acaba”…

Ela conta a história de uma freira que a atormentava no internato em seu tempo de menina; de um homem que a fez viver longamente entre o desespero e o tédio, a revolta e a humilhação. E fica meio magoada porque a tudo eu sorrio, porque eu não pareço participar do sentimento com que ela fala contra essa gente que passou. Afinal ela também sorri: “Você é meu amigo ou amigo da onça?”

Sou seu amigo. Mas rico ri à toa, e eu me sinto vertiginosamente rico porque essas histórias, alegres ou tristes, ela me conta de mãos dadas, junto de mim. Digo-lhe isso; mas não lhe confesso que aprovo e abençôo todas as coisas e pessoas que povoaram seu passado e tenho vontade de dizer:

“Benditos teu pai e tua mãe; benditos os que te amaram e os que te maltrataram; bendito o artista que adorou e te possuiu, e o pintor que te pintou nua, e o bêbedo de rua que te assustou, e o mendigo que disse uma palavra obscena; bendita a amiga que te salvou e bendita a amiga que te traiu; e o amigo de teu pai que te fitava com concupiscência quando ainda eras menina; e a corrente do mar que te ia arrastando; e o cão que uivava a noite inteira e não te deixou dormir; e o pássaro que amanheceu cantando em tua janela; e a insensata atriz inglesa que de repente te beijou na boca; e o desconhecido que passou em um trem e te acenou adeus; e teu medo e teu remorso a primeira vez que traíste alguém; e a volúpia com que o fizeste; e a firme determinação, e o cinismo tranqüilo, e o tédio; e a mulher anônima que te vociferou insultos pelo telefone; e a conquista de ti por ti mesma, para ti mesma; e os intrigantes do bairro que tentaram te envolver em suas teias escuras; e a porta que se abriu de repente sobre o mar; e a velhinha de preto que ao te ver passar disse: “moça linda…”; bendita a chuva que tombou de súbito em teu caminho, e bendito o raio que fez saltar teu cavalo, e o mormaço que te fez inquieta e aborrecida, e a lua que te surpreendeu nos braços de um homem escuro entre as grandes árvores azuis. Bendito seja todo o teu passado, porque ele te fez como tu és e te trouxe até mim. Bendita sejas tu.”

[A mulher e seu passado – Rubem Braga, do livro A Traição das Elegantes]