Archive for the ‘auto-ironia’ Category

“Mártir voluntário do absoluto”

setembro 10, 2015

Photo Maurice-Louis Branger – Le clown Footit

“Se acaso em minhas mãos fica um pedaço de ouro,
Volve-se logo falso… ao longe o arremesso…
Eu morro de desdém em frente dum tesouro,
Morro à mingua, de excesso.”

[…]

“Um pouco mais de sol – eu era brasa,
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…

Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho – ó dor! – quase vivido…

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim – quase a expansão…
Mas na minha alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo … e tudo errou…
– Ai a dor de ser-quase, dor sem fim… –
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou…

Momentos de alma que desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…

Se me vagueio, encontro só indícios…
Ogivas para o sol – vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios…

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…

…………………………………………………
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Um pouco mais de sol – e fora brasa,
Um pouco mais de azul – e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…”

De A queda e Quase
[Mário de Sá-Carneiro, 1913]

*foto: Maurice-Louis Branger – Le clown footit

“It was always the becoming he dreamed of, never the being”

maio 14, 2015

OS HOMENS OCOS

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,

Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam – se o fazem – não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

– Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular

III

Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.

IV

Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio

Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.

V

Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada

Entre a ideia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
A vida é muito longa

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o

Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.

(T.S. Eliot)

Stromboli

dezembro 31, 2012

A locomotiva perguntou ao carvão
[por que tanta fumaça, meu amigo!?]
Ele pensou em responder
[quem arde pode esperar?]
mas assobiou seu silêncio negando,
fumegando a própria condição.

A mulher e o dicionário

julho 31, 2012

Me despertou uma fome de dicionário…

não quis comê-la,
não quis mordê-la,
não quis chupá-la

[talvez um beijo matutino,
mas já era fim de tarde]

… correu para a estante e conferiu.  Ali, no meio da rua, com a pilha de livros sobre os seios, lívida e leve, ela me deixou ligeiramente encabulado por me ensinar o significado de um vocábulo:

Alacridade!

Amores de verão em pleno inverno

junho 12, 2012

Pode amar o batente da porta
Pode amar a cabeceira da cama
Pode amar o encosto da cadeira
Pode amar o cadarço do sapato
Pode amar o zíper da calça
Pode amar o bule do café
Pode amar o filtro da água
Pode amar o capacho da entrada
Pode amar o despertador das 3 e trinta.

Mas e a paixão?

A paixão dos gestos largos,
A paixão das chuvas de verão
em pleno inverno…

Essa de fazer viajar latitudes,
de fazer tomar atitudes…

Essa de fazer aprender mandarim,
alemão & francês,
medicina, ou álgebra…

Essa não é de hoje, nem de ontem, essa é de sempre, essa não se ganha com argumentos, nem com os boletos da escola dos filhos, essa é pra quem está vivo, essa é pra quem não morreu, essa é como o vento…

O vento que não desvia,
O vento que derruba,
O vento que quebra…
que arrebata
e arrebenta.

Como Baudelaire

junho 8, 2012

Uma excessiva consciência de si mesmo
Uma forma superior de ser inferior
àqueles a quem desprezamos

Luar

maio 21, 2012

Nobiliar
é a parte maior
de uma palavra escondida
em nobiliárquico
É a nobreza toda e parte do poder.

Luar é a nobreza toda, e o poder todo.
A Lua é menos que o luar porque lhe sobram as fases todas
com que a lua se apequena de ser lua.

O luar é o que a lua tem de permanente

Amor livre II

maio 7, 2012

Nas artes do equilíbrio:

um é pouco, dois é bom, três é tripé
mais que isso é
“quadrúpede!”
A coisa vira xingamento.

Amor livre

abril 29, 2012

Eis a grande mágica do sistema de polias:

Para vingar a nossa estripulia
Há o macete da roldana,
Há sempre alguém a fazer
o cafona papel de parede.

Movimento

abril 1, 2012

Imagem

“aqui você precisa de calar a sua sabedoria para sobreviver. Conhece a diferença entre o sábio branco e o sábio preto? A sabedoria do branco mede-se pela pressa com que responde. Entre nós o mais sábio é aquele que mais demora a responder. Alguns são tão sábios que nunca respondem.

Faz bem, Massimo: não aspire ser centro de nada. A importância aqui é muito mortal. Veja, por exemplo, essas avezitas que pousam no dorso dos hipopótamos. Sua grandeza é o seu tamanho mínimo. É essa a nossa arte, nossa maneira de nos fazermos maiores: catando nas costas dos poderosos.”