Aptidão para o voo

A lápide de uma mulher ambiciosa
fala de qualquer coisa, menos de si.

Ela nunca teve aptidão para o voo,
Ferina, contentou-se com o salto.
Um falcão maltês lhe chamaria de galinha.
Sem sapatos, tropeçava, escorregou.
Calçada, cacarejava, “o que sou?”

Mesquinha, do que era feita a sua pontaria?
“Da matéria de que são feitos os sonhos”
ou de uma dose e meia de burros n’água?

O céu aberto causou-lhe aquela doença
De que os gregos caçoariam:
“Prefiro a penteadeira a falar de política”.
Como é que se chama mesmo: agorafobia?

Seu piano não era de música, era de mogno
Um lugar para deixar os cinzeiros, os cigarros apagar
Um lugar para deixar os jornais e as contas a pagar.

Em sua cozinha as garrafas de leite faziam queijo
Frígida: de seu quarto as visitas só levavam queixas
Dos ovos, pouca gema e muita clara.

Costuma-se dizer que quando os gatos saem,
Os ratos fazem a festa. Em sua casa, ela nunca apitava…
Seus fantasmas eram inquilinos que jamais lhe pagavam.
Sozinha foi ficando, eternamente mal acompanhada.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: