Hegeliano-Franciscanas paternas I

O PRÍNCIPE Nekliudov tinha dezenove anos e frequentava o terceiro ano de um curso universitário quando foi passar as férias à sua aldeia, onde permaneceu todo o verão. No outono escreveu, com a sua letra infantil, não formada ainda, à sua tia, a condessa Beiloretzkaia, a sua melhor amiga e a mulher mais genial do mundo, a seguinte carta em Francês:

Tomei uma resolução de que dependerá o destino da minha vida. Abandono a universidade para me consagrar inteiramente aos camponeses, pois reconheci ter nascido para isso. Por Deus, querida tia, não te rias de mim. Pensarás que sou um garoto, e talvez seja, com efeito, demasiado jovem; mas isso não me impede de sentir a minha vocação, amar o bem e desejar praticá-lo.

Já te mandei dizer que encontrei tudo numa desordem indescritível. Quando quis pôr ordem nas coisas, dei-me conta de que o mal provém a má situação dos mujiques e que esse mal só pode remediar-se com trabalho e paciência. Estou convencido de que se visses os mujiques David e Ivan, por exemplo, e a vida que levam as suas famílias, esse fato só por si te convenceria melhor que qualquer coisa que eu te pudesse dizer para explicar a minha resolução. Não terei, porventura, o sagrado dever de me preocupar com esses setecentos homens pelos quais terei que responder perante Deus? Não será pecado deixar-mo-los nas mãos de grosseiros starostas e administradores, apenas para mais à vontade nos divertirmos e satisfazermos as nossas ambições? Por que haveria eu de procurar a maneira de ser útil e praticar o bem noutra esfera quando descobri aqui um dever formoso? Sinto-me capaz de ser um bom proprietário e, para o ser, tal como o entendo, não são precisos esses títulos nem esses diplomas que tanto desejas que obtenha. Querida tia, não forjes para mim nenhum projeto baseado na ambição; habitua-te à ideia de que empreendi um caminho completamente diferente, bom, portanto, e que pressinto me dará a felicidade. Meditei muito nas minhas futuras obrigações. Compus um regulamento para as minhas atividades; e, se Deus me der forças, conseguirei o meu propósito.

Não mostres esta carta a meu irmão Vásia: receio que troce de mim. Tem a mania de sentir superior e eu a de me submeter a ele. Está claro que, não aprovasse a minha resolução , não deixaria de entendê-la

[Leon Tosltói, in A manhã de um senhor]

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