A bifurcação jamais está adiante


Meu amor querido,

tenho saudades de você…
[e de nós].

Sinto que nossa amizade e carinho estão [e são] irretocáveis, sinto que somos capazes
de um companheirismo no que há de mais fraterno e isso me faz muito bem;

ao mesmo tempo, sinto um silêncio enorme entre nós,
uma distância que não é física,
me parece uma distância feita de som.
Algo difícil de qualificar.

[…]

Sinto o seu amor por mim – e seu amor por nós, e seu amor por nos amarmos – muito forte, vigoroso.
[E, ao mesmo tempo, sinto o seu amor emudecido].

E muitas vezes me deixo confundir e me perco naquilo que é a mudez que não te deixa nua
[e eu gosto tanto da sua nudez].

E, de repente, ao escrever isso agora, percebo que talvez a mudez seja uma vestimenta; um vestido
fechado até o pescoço que não nos deixa ver os ombros
[e eu gosto tanto dos seus ombros].

E nessa minha confusão [diante desse tapume que é a mudez com que se recobre o seu corpo] vejo
a força do seu amor, vejo o vigor dele,
frágil,
vacilante.

E me pergunto: esse tapume mente?
E afirmo para mim mesmo: ora, não se confunda, esse tapume mente!

E, ao mesmo tempo, concluo – entre confuso e esclarecido: seu amor está aí… lindo e grandioso
[e, muitas das vezes, inacessível!]

E o tapume do silêncio já não é mais um tapume. É uma cúpula de vidro que encobre uma flor.
Nossa distância não é opaca. É transparente.
Seu silêncio não é escuro; é límpido e transparente.

E isso me alegra: eu a vejo por trás dessa fina camada translúcida. E sinto – “você está comigo!”
E isso me entristece: por vezes, é mais dolorido ver e não tocar. E sinto – “você não está comigo?”

Muitas vezes, seria mais fácil sequer saber o valor daquilo que uma caixa fechada esconde.
Mas eu vejo através do vidro.
Sei o valor do que vejo.

Seus olhos são uma fresta. Seus olhos são a porta de entrada que permite essa transparência.
E, por eles, vejo o seu conteúdo esplêndido
E, por eles, percebo o invólucro incômodo que o guarda.

[…]

Quanto do nosso amor não surge como um relâmpago num riso?
Esse feixe de luz se faz perceber [a despeito da distância].
E por mais que a trovoada do silêncio chegue mais tarde
[o seu silêncio trovoa]
A certeza do seu amor chega até mim como uma luz veloz.
[A alegria é a prova do amor]

[…]

O Oswald de Andrade dizia que “a alegria é a prova dos nove”.

A alegria é como uma luz que é o cálculo infalível, aquele que tira
a prova real.

[somar contigo é tão bom; sempre que vou até você não me sinto subtraído;
vejo-me a multiplicar-me].

E eu me sinto alegre ao seu lado. E, ao te perceber triste, me pergunto:
Alguma soma não somou? Alguém se diminui em nosso multiplicar?

Muitas vezes, apresento os meus grãos em nossa mesa comum. E digo: leve-os com você.
[E é na multiplicação de quem se doa que eu penso].

Muitas vezes lhe aponto uma alternativa de caminho em nossa travessia. E digo:
“siga por aqui comigo!”
[E é no caminhar juntos que eu penso].

Porque sei que o meu caminho não deixa de ser meu quando a travessia é nossa.

[…]

E…
se por vezes, ao caminhar ao seu lado, sinto que você já não me responde
[ou que eu lhe respondo algo que você não me perguntou]…

Sei que a bifurcação que nos separou ficou para trás.
A bifurcação jamais está adiante!

[…]

Regressar é ir adiante. Ir adiante é regressar.

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