Legadinhos IX

Um homem — ao longo da vida, entre tropeços e cavalos de pau — acumula alguns legadinhos.

Um dos que me foram deixados foi a tal “vaca paisagista”, do Jorge Timossi, escrita de trás para diante num papel amarelo…

“Existem muitos tipos de vacas, como bem sabe um escritor como Augusto, mas para mim a melhor é a extraordinária vaca paisagista, a que se situa, com os cascos bem plantados, no ponto mais alto de uma colina, e dali, de sua atalaia, olha para o extenso e profundo vale com os olhos úmidos e estáticos, hipnotizados pelo panorama que, por sua vez, neles se reflete, na íris docemente sépia, sem mover-se para nada, nem para espantar uma mosca, e não é que se trate de uma vaca filosófica, como as da Índia, orgulhosas de sua casta, de passo às vezes irritado, que parecem estar sempre ruminando dinastias e mágicas fórmulas em sânscrito, não, simplesmente se trata de uma vaca latino-americana, quase sempre castanha, entre outros sinais, apaixonada até a medula por sua paisagem, por esse vale espalhado lá embaixo, por essa eterna promessa de pastos, uma vaca que não é pensativa nem tampouco dá leite (porque algumas têm muita teta e pouca imaginação) nem se perturba com o trepidar dos trens de carga, ou as pedras que lhe atiram os turistas, uma vaca paisagista ela mesma elemento inelutável do panorama, que sequer pestanejaria se sofresse um aguaceiro torrencial sobre seu pêlo castanho e continuaria olhando através da cortina de água, à espera talvez do arco-íris que se estenderá como uma ponte de um extremo a outro do vale e os olhos desta vaca serão agora furta-cor, quer dizer que nada nem ninguém poderá tirá-la de sua atitude contemplativa, de sua visão que poderíamos qualificar de feliz, se isto fosse possível para uma visão de vaca, motivo pelo qual teria de aparecer algum insensato insensível que nunca falta por estas paragens e ter a idéia de empurrá-la empurrá-la por seus quartos traseiros, por suas nádegas nobres e inocentes, para o precipício, para o despenhadeiro à morte certa, mas a vaca quase flutuaria no espaço azul (teria acabado de chover), iria descendo lenta para o vale, lã, algodão de vaca, com suas quatro patas bem abertas, deslizaria pelas nuvenzinhas até chegar à terra, não faria o mínimo esforço para tornar a subir, plácida, diluída entre as ervas cheirosas, incorporada para sempre às margaridas, à paisagem que outra vaca idêntica à anterior, e tão descuidada quanto ela, já está observando do ponto mais alto da colina.”

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