Fracasso

“No final de A educação sentimental [de Flaubert], os amigos de infância Frédéric Moreau e Charles Deslauriers se reencontram, ocasião que propicia a comparação entre seus sonhos adolescentes e aquilo em que haviam se transformado em suas vidas adultas. A justaposição é claramente desfavorável à maturidade, que em comparação parece malsucedida e malograda, o lugar da frustração de paixões pessoais pessoais e sonhos de êxito profissional. O que aproxima os dois amigos, portanto, neste epílogo do romance, é justamente a percepção, compartilhada por eles, do presente como uma falta, em contraste com a plenitude do passado, mesmo que a plenitude de uma promessa.

Nas páginas finais do romance, a narrativa demonstra como a lembrança de um passado comum e o afeto por ele pode ser constitutivo de uma amizade. As memórias vão sendo evocadas dialogicamente, com perguntas de parte a parte — ”Ainda te recordas?”, “Ainda te lembras?” — e apoio mútuo. A evocação de nomes de antigos amigos, amantes e conhecidos suscita exclamações de reconhecimento e suspiros saudosos. O reconhecimento imediato de pessoas e lugares que lhes eram familiares, bem como o afeto compartilhado por eles, sustentará o sentimento de cumplicidade entre os dois amigos e construirá uma imagem comum do passado. Em última análise, as duas vozes constróem uma narrativa sobre a perda e o efeito destruidor do tempo, lembrando o argumento de Jean-Luc Nancy de que para a construção de uma narrativa histórica é menos importante a narração de uma seqüência de eventos do que a formação de uma comunidade.

A rememoração carinhosa de Moreau e Deslauriers não é, note-se, exatamente de façanhas da juventude. Sua nostalgia é, para ser preciso, pelo futuro que um dia existiria em seu passado, e seu anseio é visivelmente por aquilo que eles, quando jovens, imaginavam que fariam quando adultos, por aquele tempo futuro que seria preenchido escrevendo romances e estudando filosofia. É a perda de um horizonte de possibilidades o que se chora, a perda da comoção que brotara do sentimento de que as portas da história haviam sido arrombadas e o previamente inimaginável poderia, enfim, se materializar. Neste caso, como em tantos outros relatos literários e historiográficos, o olhar desconsolado se volta ao passado quando o futuro não cumpre aquilo que prometera.”   

(pp 36-37 de A política da nostalgia, de Marcos Piason Natali)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: