A torre de Pisa e os moinhos ou o poder revolucionário da fragilidade (*)

picasso

O continuado exercício da dialética modulou, com o tempo, o meu caráter. No cenário propício e pertinente de nossas vidas, podemos fincar estacas, fundar alicerces, e erigir verdadeiros monumentos.

Nem sempre, essa homérica arquitetura tem rascunhos e tentativas em giz. Na maioria das vezes, o determinismo euclidiano dá lugar a construções improvisadas, as quais avançam contra o espaço sem os devidos esboços, que lhes garantissem a mínima segurança em seus destinos.

Assim, o rigor cartesiano do planejamento, por vezes, implode em nossa imaginação; sobressaem-se, nesses momentos, as ruínas do inesperado.

Diria eu aos meus amigos: “frágeis colunas não sustentam grandes monumentos!”
E alguns deles, desavisadamente, responderiam: “mas os monumentos é que constróem a história… a história, meu amigo”

E quanto à história de cada um de nós? Seria lógico construir uma vida de imponência e beleza, mas de efêmera firmeza e de frágil sustentação?

Quase chego a acreditar que nossa trajetória só pode nos conduzir a dois destinos possíveis:

– Ou viveremos e nos eternizaremos como velhas, sésseis, e escuras fortalezas medievais, simbolizando tudo o que há de terreno, pobre, empoeirado, e acomodadamente seguro e imóvel.

– Ou feneceremos comos ousadias arquitetônicas mal afortunadas que sucumbiram com a mais tênue afronta.

Mas, é claro, que enfim caio em mim e resisto, e luto, e revoluciono o mundo da engenharia. Eis que a fragilidade — a ser festejada e brindada a partir de agora — será o alicerce de nossa nascente civilização neoclássica.

Foi na suavidade da água que se modularam e se esculpiram os contornos dos maiores rochedos. Foi na fluidez do vento que se moveu o alento do mestre de todas as utopias humana, El Don Quijote.

E será na fragrância da tolerância e com o poder das palavras, que se desmancham em pétalas, que eu e você faremos de nossas frágeis ruínas a base de verdadeiros monumentos.

(*) texto originalmente publicado no célebre, galhardo e inocente periódico Sob os Bigodes de Arnaldo (Haloperidol – junho de 2001), que possuía a singela virtude de sempre dizer o óbvio com aquela honesta sinceridade dos imberbes.

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Uma resposta to “A torre de Pisa e os moinhos ou o poder revolucionário da fragilidade (*)”

  1. Taísa Says:

    Aceita juntar suas pétalas com as minhas?

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