Dos dentes do meu cavalo

[ou de como já fui mais simples/simplista] – idos de 2003 [Idade Média]

GoeldiDepois de três dias sem beber água, sete dias sem comer pão-francês e um mês sem beber leite, cheguei a conclusões definitivas sobre o significado da existência e a utilidade da filosofia.

 

Do fato de existirmos, só se pode dizer: é um absurdo!
Das utilidades da filosofia, só pode haver: nenhuma! 

Vistos assim, significado e utilidade são dois enormes supérfluos. Desse modo, se a existência é um disparate e a filosofia um desperdício, viver para quê, pensar para quê?

Mal seguem meus pensamentos sobre viver e pensar e você, que lê, já me interrompe: “Bah! Mas que bravata intelectualóide mais antiga”. Porém, eu sigo impávido dizendo: útil é existir e a única coisa com significado na vida é filosofar. Invertidos os predicados, toco o barco do meu compêndio de idéias: pensar, sem ter unhas pra cortar, eis o inútil. Pensar, sem ter filhos pra amamentar, eis o ócio.

Ora, mas que gratificantes conclusões. Percebo, nessa desnutrição da vida mundana, que a existência e a filosofia, sem meu pão, minha água e meu leite, de nada servem.

Pensar, sem comungar da minha ceia e sem desfrutar da horta do pensado, de nada vale. Porém, pensar com as mãos imersas e perdidas na nuca da mulher que amo, desvendando cada detalhe de sua íris, para mim já é tudo: renunciar aos mistérios e por isso entendê-los. Saber, por não mais necessitar saber.

Pensar, ao nascer ou ao pôr-do-sol: eis a justificativa do pensar, no fim em si mesmo mais saboroso do universo.   Existir, eis o sujeito e o verbo do viver.

E lá vem você com sua empáfia peculiar: “Seu porco materialista!”.
E, presunçoso, eu te chamo de tolo e de burro e prossigo te irritando, ao perguntar: Como pode haver sexo e tamanduás, se não há sentido na vida?

E te respondo, com voz ao mesmo tempo grave e simplória, que, para tanto, basta haver afeto, tesão e formigas. E o sentido prévio da vida já nos é inútil.

Como se poderia entender que existam o amor e os furacões, se na vida não há motivos pra pensar? E a resposta vem franca e camarada: Amigo, se frente à inevitabilidade dos amores e dos furacões ainda couber espaço para pensar, que seja o pensamento do gozo de conviver e o da lástima por, no furor do tufão, só sobrarem telhados sem telhas. Tudo mais é nada.

Todos esses prazeres, imensos e sem propósito, confirmam o absurdo da existência. E a questão está em: Pelos diabos, que mal há no absurdo?             
Se o planeta é assim uma bola achatada nos pólos e meu coração é um músculo involuntário que pulsa no compasso dos relógios que inventamos, que bom que seja assim, ora bolas! “Mas, e o sentido íntimo das cousas…?” Pros diabos!!!

Por mais que eu seja ateu e minha mãe acredite piamente em Deus, ninguém jamais há de responder, nem ela, nem eu: “Afinal, quem criou Deus?” Se a dúvida e a ignorância são, frente a tudo, aquilo que há de mais eterno: vivamos, então.

Para quê as causas do mundo e as causas do existir, se os que valem são o mundo e o existir? Partimos, então, da filosofia das causas para a filosofia das conseqüências.

Pois, se há de haver sempre sexo, amor, tamanduás e furacões, que venha então a arte de pensar para nos fazer viver melhor com o sexo, o amor, os tamanduás e os furacões. Venha a nós a filosofia do convívio com o real e, se a vida é assim tal qual a conhecemos, repito: vivamos, então.

Afinal, do cavalo dado não se olha o dente. Agora, se te assusta, ainda, a brancura dos dentes de seu corcel, só posso lhe dizer uma coisa: ou admire, ou devolva ou troque de creme dental. 

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Uma resposta to “Dos dentes do meu cavalo”

  1. Pulido Says:

    Putz…
    Apesar dessas bravatas pessoísticas, acho bonito que você, assim como eu, QUEIRA ser assim, como direi, desencanado.
    Eu – e acho qe vc também – não consigo…. Mas a tentativa é valida….

    Ou então, de uma maneira menos pernóstica:
    “Se eu pensar muito na vida eu morro cedo amor…”

    cf. Nelson do Cavaquinho.

    Beijos!

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