carta aos mineiros

entrementesQueridos mineiros do apocalipse(*),
 
escrevo ainda um pouco gélido desse inverno ex tempori que apanhei nas têmporas. Mas escrevo também imbuído de um vasto e sensível conhecimento sobre o que sejam as lareiras. E escrevo justamente a vocês que são a minha fornalha imorredoura, a minha reserva moral, o meu lastro insonegável de valores.
 
É para esse fogo prazenteiro de vocês que estendo sempre as mãos, quando quero amortecer a frialdade das falanges. Porque, amigos, as falanges dos dedos não merecem pernoitar no relento. Falange sempre sugere rubro flamejar de dedos, rebuliço das mãos, inquietação dos espíritos transformada em ação.
 
E sempre que me flagro mortiço, insosso, preso em qualquer injustificado e acrílico desencanto, corro a esse corredor de vento encanado que é a nossa amizade. Bebo com sofreguidão as primeiras lufadas de silêncio e vento e sei que aquilo há de erguer a minha vela. Sei que esta corrente há de me reconduzir ao caminho auto-guiado das vontades.
 
Sei que entre vocês também há vacilos e pestanejos, mas sei que esses intervalos da audácia são apenas momentos em que se aponta o lápis com que se escreve, em que se repousa a mente que ama, em que se deita o coração que reflete.
 
Despido agora, no penúltimo parágrafo desta ponte pensil que os liga a mim, dos palavrosos subterfúgios do maneirismo, digo: andei amando demais, e daquele modo equívoco que sempre me coube… e isso me dói um tanto.
 
Dessa ferida ainda mal lambida, escrevo como quem estoura, num fogo novo, mesmo que sem os artifícios para se fazer ver do alto, nem para se curar numa morte de brilho e purpurina. E, por isso, convoco-os para ladearem minha nova hecatombe purificadora, a minha nova lareira terna.

(*) entrementes, tremosos e extremamente: Ricardo Pulido, Lucas Zambon, Pedro Rey, André Paranzini e Bruno Ctenas, a se congregarem com Guilherme Conte, Tiago Archela, José Henrique Lopes, Marina Terra, Renato Mancini, Marcus Eme, Fernando Gallo e Abrahão.

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Uma resposta to “carta aos mineiros”

  1. Thathá Says:

    Esse tunel tem tres buracos.

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