O belo odioso

 
 

Texto

 

É de franceses a lição: ao censurar o seu apetite pelo incesto, o homem se fez civilizado. Lacan e Lévi-Strauss (suíço cuja formação se deu na França) nos ensinaram que ao transcendermos a dimensão natural da existência – ao interpormos, frente a desejos de base instintiva, uma restrição arbitrada por valores intelectual e simbolicamente construídos – inauguramos o mundo da cultura.

 

E isso é bom ou ruim? – perguntaria um incauto.

 

Ao expormos o conceito desta maneira, apelando para termos como censurar e restringir, podemos passar a idéia de que o advento da civilização foi uma violência à pax natural. Eis um argumento que nos atinge, sobretudo em tempos em que a lógica da vida civilizada se confunde com a prática de um mundo desumanizado pela ação corrosiva do capital.

 

Mas não façamos confusão: foi justamente devido a essa capacidade – de pôr à frente de quaisquer determinismos biológicos um ideal compartilhado de bem-estar coletivo e culturalmente acordado entre os viventes – que atingimos nossa condição de humanidade. No fim das contas, o vale-tudo do capitalismo só faz emular a selvageria que faz da busca pelo poder o símbolo máximo da libido dominandi.

 

Nesta defesa do homem e da civilização, não perdemos de vista, obviamente, a forma arrogante com que temos lidado com a natureza. O aquecimento global e os demais indícios da nossa ação predatória só demonstram que ainda temos agido de modo incestuoso em relação ao planeta.

 

Precisamos, pois, celebrar esse princípio tautológico que nos consagra: para afirmar o que somos, é necessário negar aquilo que não devemos ser.

 

Para ratificar o que em nós é humano precisamos renunciar àquilo que nos animaliza, àquilo que nos faz perder o horizonte da humanidade como um projeto.

 

É preciso rejeitar com veemência uma série de valores que nos corrompem. Recusar com radicalidade as seduções que nos acossam e nos sujeitam a perder aquilo que nos constitui é tão salutar quanto lutar por políticas afirmativas – em questões de preservação das soberanias e das identidades nacionais, em contendas étnicas, raciais e de gênero, por exemplo.

 

Contexto

 

Porém, esse jogo de afirmar e negar não é tão simples. Sobretudo porque, quase sempre, aquilo de que devemos nos desvencilhar está [ou aparenta estar] cancerigenamente atado àquilo que devemos preservar. O corpo doente adquire uma perigosa aderência ao corpo são: constitui-se uma arriscada unidade que, sob risco de morte, exige a precisão absoluta do corte.

 

Nesses termos, a questão parece adquirir certa aura religiosa e dual; bastaria colorir o mundo com os pincéis do bem e do mal e seguir o manual de boa conduta dos primatas bem comportados, que não comem banana com casca nem praticam o adultério.

Nada mais fácil de driblar do que os anjos e os diabos; com um safanão eles tombam em pleno vôo, feito libélulas imprevidentes. Difícil é exorcizar os espíritos da ambigüidade: os anjos demoníacos e os capetinhas angelicais. Os famosos lobos em pele de cordeiro; e – porque não – as ovelhas que rangem dentes para se fazerem passar por lobos.

 

Não poderíamos esperar, é claro, nutridos por mentalidades e ideologias totalizantes, que a realidade atual fosse pouco complexa, porém não se pode confundir complexidade com ambivalência maliciosa.

 

Sobretudo em tempos de relativismo ético, é preciso estarmos atentos aos elementos que nos confundem, que nos nublam o senso crítico.

 

Eis algumas de nossas mistificações correntes: a arte engajada é esteticamente limitada; o novo é bom e o antigo é mau; o novo é mau e o antigo é bom; a harmonia é um fim; a violência é ilegítima em todas as situações; o belo é bom, e o bom é verdadeiro…

 

Enfim, há uma série desses mitos modernos [alguns deles medievais, outros quase que ancestrais]. E todos eles baseiam-se na mais perniciosa forma de embotamento das vontades e das consciências: cristalizar verdades e congelar o mundo tal qual ele é.

 

O mundo pós-moderno é repleto de dicotomias enganosas, minado por engodos e meias-verdades e enrijecido por pensamentos acríticos e acrílicos. Esquartejar falsas unidades é uma das tarefas fundamentais das inteligências no século XXI.

 

Panfleto

 

Unindo as duas idéias: essa de que devemos sabatinar os embustes do pensamento e aquela de que devemos negar aquilo que nos animaliza e nos faz menos humanos, passemos ao nosso panfleto de hoje:

 

O belo pode ser odioso.

 

Ao contrário da visão embevecida e alienada que concebe o belo como elemento da natureza, e sobre o qual devem recair apenas os nossos sentidos, o que está em jogo aqui é a velha receita hegeliana para a qual é possível, sim, estabelecer uma filosofia para a arte e, por conseqüência, para o belo.

 

E, extrapolando esse conceito, se é possível estabelecer uma filosofia para o belo, será possível também conceber uma ética para o belo.

 

Não se poderia esperar que uma árvore pudesse retorcer seu tronco para atender ao gosto jônico ou ao dórico; mas é possível pensar que um homem seja capaz de fazer apologia ao humano, e que possa evitar a disseminação da barbárie em seus escritos, pinceladas e acordes. Cabe ao homem a tarefa de não encapsular o mau no belo; de não servir, a seu semelhante, maçã lustrosa e envenenada.

 

E não falamos apenas da Estética ou do belo nas artes. Quando nos referimos a uma ética do belo, referimo-nos, sobretudo, a uma série de situações cotidianas em que a beleza arbitra escolhas e comportamentos na vida social.

A questão de uma ética para o belo está parcialmente posta, quando afirmamos que a construção da beleza deve seguir certos preceitos; porém, é necessário que reflitamos também sobre a recepção da beleza, e não apenas sobre os modos de sua produção.

 

Em parte, a valoração sobre o que é ou não belo está no olhar daquele que percebe a beleza. Isto ocorre, porém, num ambiente em que – desgraçadamente – a fruição é acéfala. Justamente por existir aquela visão que concebe a beleza como dado do mundo natural, e não do mundo da cultura, é que se tem uma percepção do belo que passa mais pela pelve do que pela razão.

 

Essa beleza que seduz nossas vísceras, mas que ofende nossa razão é aquela que pode tornar o belo odioso. E é esse belo irracional e irrefletido que deve ser convertido em refugo por nossa vigilância intelectual.

 

Reagir bestialmente ao belo, mais uma vez, é desabotoar a castidade da civilização, romper o pacto que nos faz homens e não coisas. Esse belo fantasmal é uma das mistificações contemporâneas que devemos combater.

 

O belo – em seu ilusionismo sensorial – pode aviltar, corromper e destruir.

E é pelo exemplo de outro francês – um tanto menos afortunado – que devemos rejeitar nossa faceta instintiva e primata: precisamos repudiar com tenacidade a vilania pirotécnica e estéril de Nicolas Sarkozy.

 

A beleza de Carla Bruni é um estratagema do Poder; a capacidade que a modelo italiana tem de seduzir sensualmente os olhos e o sexo dos homens, e de ser invejada pelas mulheres por se constituir como protótipo de glamour e bom gosto é hedionda e precisa ser refutada.

 

O rastro afrodisíaco que Carla Bruni destila deve ser repelido por nosso senso de justiça e discernimento. O brilho obsceno de seus olhos é uma afronta ao olhar ameno de todas as mães argelinas.

 

Os olhos dos jovens franceses, que em 2006 lutaram contra a lei do primeiro emprego e contra as investidas liberalizantes de flexibilização das leis do trabalho, e os olhos dos imigrantes que, em 2005, atearam fogo em carros na periferia de Paris e de outras cidades da França… esses olhos tornam-se cada vez mais opacos, quando um flash é disparado e rebrilha na íris de Carla Bruni e ricocheteia no nariz adunco de Sarkozy.

 

Essa invenção midiática não passa de um emplastro com gosto de morango. Rícino temperado com groselha para nos iludir o paladar e fazer passar goela abaixo o apostolado reacionário e xenófobo, desse que é umas das mais execráveis líderes políticos vivos.

 

Fazem falta, aos líderes africanos do Sudão e do Zimbábue, esposas assim – capazes de desviar o foco da opinião pública internacional para longe de suas intempestivas arbitrariedades e de tornarem suas ditaduras ordinárias, mas bonitinhas.

 

Tudo isso parece óbvio e já exaustivamente esmiuçado. Porém, num mês em que os muros de Wall Street caem e as páginas econômicas passam a ser o norte da paranóia mundial, talvez seja conveniente acusar o fato de que a crônica desse holocausto está mais bem espelhada nas páginas frívolas e obsedantes das Vanity Fair’s e afins, que retratam brancas de neve, Brunis e Sarkozys como arautos de um mundo silvestre e sem limites.

 

 

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8 Respostas to “O belo odioso”

  1. Pupu Says:

    Acredito que uma posiçãoe menos panfletária – e, portanto, mais civilizada – seria a de adequar a fruição bestial (por que não?) aos controles da ética. Ora, o belo pode ser odioso, mas, também, pode haver beleza no hediondo. Separar ambos, valorizar diferentemente cada um deles e se comportar adequadamente, apesar de mais difícil, em tese, seria uma postura mais ambiguamente humana.

    Pois se somos – e queremos ser – humanos, devemos nos afastar tanto dos absolutos dos instintos quanto dos absolutos da idelogia pura, já que ambas as condições nos impedem de praticar o doloroso exercício do pensamento.

    Assim, em termos mais específicos, apesar de não concordar com algumas políticas do Sr. Sarkozy, não condenaria ou me furtaria a admirar a beleza de sua esposa. Apesa de sim, o casamento de tais pessoas ser um bom acordo para ambos, como exposto pelo nosso cronista, e de ter uma função de marketing evidente, me considero capaz de separar a beleza dela do meu julgamento a respeito do seu marido.
    Ainda quero crer que se há um Absoluto Categórico, ele não deva ser tão Absoluto a ponto de não ter uma exceção (pelo menos no sábado à noite, vá lá) e nem tão Categórico a ponto de manter tanto patrulhamento.

    Deixemos a Carla Bruni ser linda. E deixemos a Europa com suas dores de cabeça, sofrendo as conseqûências de um crescimento econômico desproporcional aos vizinhos.

  2. Rod Says:

    Caro Pulido,
    obrigado pelo comentário cirúrgico.
    É perfeita a sua constatação de que devemos nos afastar dos absolutos para exercermos com plenitude a dádiva-suplício do pensamento.
    E fico mais alegre ainda ao vê-lo dizer isso, porque você confirma as minhas palavras que dizem ser necessário o esquartejamento das falsas unidades, e de que “não poderíamos esperar, nutridos por mentalidades e ideologias totalizantes, que a realidade atual fosse pouco complexa.”

    E para que tenhamos uma atitude menos panfletária em relação ao que quer que seja, nada melhor do que dar a cada moção — e me esforcei nesse sentido — o seu devido texto e contexto.

    Quanto às suas idéias: Não! Não se pode admirar a beleza do hediondo!
    Essa beleza pode existir, mas tem que ser categoricamente rejeitada por juízos sadios como o seu — que como bem frisou — é capaz de discernir.

    Como coloquei, e você bem compreendeu, a maçã pode ser lustrosa e envenenada ao mesmo tempo. Só não podemos nos dar ao desfrute de servi-la aos outros, nem de mordê-la — livres que somos dos ímpetos suicidas.

    No mais: sim, a Carla Bruni é belíssima. E ela continuará sendo, e isso pouco importa; mas ficaremos vigilantes quanto a tudo o que se faça em nome disso que possa ser aviltante a outros. E quanto às dores de cabeça da Europa (eu não sei quanto a você), elas são também as minhas.

  3. Says:

    A beleza de Carla Bruni — que certamente não é insignificante — não deve ser entendida como um fim. Creio que o questionamento colocado não foi esse. O ponto nevrálgico da discussão, penso eu, é o frenesi causado por um matrimônio repentino entre um baixinho de arroubos napoleônicos que, recém-abandonado pela mulher, precisava dar uma resposta à altura exibindo um belo exemplar do sexo oposto, e um arquétipo de uma nova estirpe feminina forjada pela pós-modernidade. Nada mais coerente para o mundo em que vivemos, forjado pelas falsas unidades inquebrantáveis. “Carla Bruni é linda, moderna, inteligente, independente…”, diriam inúmeras revistas que povoam bancas de jornal mundo afora. É uma sacada de mestre de um presidente eleito no susto, em um país que ainda não sabe muito bem para onde seguir. Que flerta com a flexibilização exigida pelo mundo do capital financeiro (e da glamourização dos frutos que isso pode trazer) e por outro lado sente a força de uma classe trabalhadora bastante vinculada a seus direitos adquiridos — apenas para citar um exemplo. Neste contexto, Carla Bruni se tornou um ímã que, na mesma proporção em que atrai flashes, refuta tudo aquilo que possa ser motivo para as cada vez mais freqüentes dores de cabeça européias. Vamos ver até quando isso dura. Afinal, os muros que caem e as calotas gélidas da apatia social que derretem levam consigo os falsos mitos, como avalanches. E avalanches são sempre bem-vindas; sobretudo se varrem um dado status quo. Afinal, como bem citou o nobre amigo, uma das mistificações mais correntes seria a idéia de que a violência é ilegítima em todas as situações. Saudações.

  4. tistu Says:

    Convenhamos: Carla Bruni não seria um ponto de discussão se pudesse estar ao lado de algum dos três acima, certo? rs A questão não é a beleza. A questão é a distração que a beleza causa. Maçã vermelha. Muito bem observado…

  5. Pupu Says:

    Quanta dor de cabeça, Figura!!! Ai!!!
    Mas… tentando levar a conversa dos termos político para os termos filosóficos (o que pessoalmente me interessa mais, pois não?); por que devemos execrar a beleza do que é odioso? Ora, não podemos achar algo belo e odioso ao mesmo tempo e, mesmo assim, admirar a beleza do mesmo? Haveria que se dar um valor ético ao estético? Ou seriam apenas grandezas independentes que podem ou não estar presentes ao mesmo tempo em determinado objeto?
    Cartas à redação!
    Beijosd a todos…

  6. Drão Says:

    Incauto… muito velha essa…

  7. Thathá Says:

    Isso me lembra um texto nada natalino que você fez com que eu narrasse ano passado.O que tem presse ano?Beijo, Te amo Véio Estrábico da Pipoqueira Elétrica.

  8. Almeida Says:

    Delícia é ver como esta lânguida persona, travestida de rainha dos francófonos, desviou o foco do acordo estabelecido entre Brasil e França.

    Nosso exército de Brancaleone faturou quatro submarinos e 51 helicópteros. O Jobim já assinou o cheque. Haverá ainda um possível esforço contra extração ilegal de ouro na divisa do Amapá e Guiana Francesa, um suposto centro franco-brasileiro pela biodiversidade amazônica, entre outras perfumarias.

    Tudo para que, pelo amor de Deus, até 2010 saia a cadeira no Conselho de Segurança da ONU. Enquanto Carlinha soprava velas no Cantagalo, Sarkozy defendia nossa presença lá.

    Ah, a cambaleante diplomacia brasileira!

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