A memória como gratidão


ESTRADA. SALGUEIROS
Vento. Noite. Ekart dormindo na relva.
BAAL vem se aproximando pelos campos, como bêbado, a roupa aberta, como um sonâmbulo – Ekart! Ekart! Achei. Acorda!
EKART – O que é que você tem? Está outra vez sonhando?
BAAL senta-se junto dele – Ouça:

Quando a moça lentamente se afogou
E foi descendo para outros rios maiores
Como um milagre o céu resplandeceu
Como se fosse amparar o seu cadáver.


As algas enroscando-se no seu corpo
Que pouco a pouco se tornou pesada
Frios os peixes entre as suas pernas
Tornando-se ainda mais lenta a sua última viagem.

À noite o céu escureceu como fumaça
Escondendo a pálida luz das estrelas
Mas logo amanheceu para que ela
Também vivesse agora manhãs e tardes.

Quando na água seu pálido corpo apodrecia
Lentamente Deus foi se esquecendo dela:
O rosto e depois os cabelos e as mãos.
Uma carcaça sobre tantas carcaças no rio.


Vento
.

(Bertolt Brecht – da peça Baal – 1918/1919)

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