O sindicato dos alfaiates

Uma de minhas primeiras lições de humildade se deu em um campo fértil de perversidade e humilhação: a infância.

 

Em 1988, vivíamos tempos em que – com as olimpíadas de Seul – ainda aprendíamos as regras do vôlei. Era difícil compreender por qual motivo a imensa maioria dos jogadores (excetuando-se um simpático bigodudo chamado Bernard) não praticava aquilo que, para meu pai, fazia todo sentido do mundo ser a regra do esporte: a jornada nas estrelas.

Ponto número um: a exceção não pode ser regra, sob risco de deixar de ser exceção.

 

Muito embora esse já seja um aprendizado tristemente doloroso, eivado que é de uma inconformante dose de conservadorismo, voltemos àquela que foi a grande lição: em 1988, no auge da quarta séria primária, vivíamos sem saber – como crianças que éramos – a festa colorida do fim da história.

 

Era mentira, é bem verdade, pois a história não acabou e nem nunca vai acabar, a despeito do que alardeiem os apologetas do engodo liberal.  Porém, naquele momento, presenciávamos o arco-íris do que se vendeu como sendo o fim-da-era: podíamos ter tudo.

 

Eu sequer sabia o que viria a ser o consenso de Washington, nem quem era Margaret Thatcher, nem podia imaginar o que ela tinha a ver com o muro que cairia no ano seguinte. Contudo, na festa de final de ano da escola, tivemos a maquete do que foram aqueles tempos.

Era para ser apenas uma festinha de amigo oculto, entre 27 crianças semi-abastadas e uma professorinha chamada Ivanilde. Aquele troca-troca inocente de presentes foi a minha primeira e escandalosa visão do mundo do consumo. Todos aguardavam, em frenesi, por seus bibelôs coloridos, seus carrinhos de fricção, e seus LPs da novela Vale Tudo, que – exibida de 16 de maio de 1988 até 6 de janeiro de 1989 (um viva ao wikipédia!) – trouxe a banalização da impunidade e da corrupção aos lares brasileiros.

 

Quanto a mim, não poderia ser diferente. Eu também desejava ardentemente um presente batuta e de preferência com uma embalagem lustrosa e enorme, para brilhar dentro da grande feira livre da concorrência e da disputa, que é a escola pequeno-burguesa.

 

Eu não possuía muitos elementos e idade para não me deixar seduzir por aquele modelo. Ainda eram muito recentes os esforços de meu pai em tornar-me um homem crítico (um ano depois ele me apresentaria à cachorra Baleia, de “Vidas Secas”, e seu focinho ensangüentado com as carnes de um preá, e à vermelhidão da consciência de que – em muitas casas – existia a fome).

Além disso, eu ainda não havia travado contato com as professoras que, no ginásio, subverteriam meu pensamento e me instigariam a ver, até nas aulas de religião, um pretexto para glorificar o povo oprimido da América Latina e ensejar uma revolução libertadora.

 

Portanto, estava armada a bestialidade. Na manhã em que ocorreu o amigo secreto, fui até o colégio com um embrulho bem feito, a ornar o que as economias de minha mãe puderam comprar. Não tive muita sorte, havia tirado o nome de um garoto meio soberbo – ele já trouxera para a escola, na terceira série, uma foto da torre Eiffel, haveria de ser figura de gostos finos, pensava eu – por isso tinha medo que ele pudesse achar o meu presente besta. Mas, como quase toda criança mimada, ele era tonto e caiu na armadilha do carrinho vagabundo, mas barulhento e cheio de lâmpadas.

Eu só precisava esperar: eu também era tolo e estava ansioso por minha quinquilharia barulhenta, de preferência entregue por uma das duas impúberes beldades da sala.

Fiasco!

Eis que o temível ocorreu: quem pronunciou o meu nome – debaixo do interrogatório do advinhe-quem-é-boçal-dos-jogos-de-amigo-secreto – foi aquela que julgávamos ser, na nossa arrogância infantil, a garota mais feia da classe.

 

Uma figura quasímoda e escamosa – sob o capacho das espinhas e do aparelho nos dentes – veio até mim com um pacote anódino, murcho e sem graça. Gago, eu me desesperei. Diante da pergunta plácida e calma que ela me fez – consegue advinhar o que é? – eu apalpei aquela embalagem sem forma na esperança de perceber a silhueta de algo valoroso, que compensasse o aparente vexame.

Ao abrir o embrulho, porém, o meu desespero, sob os olhos inquisidores daqueles outros 25 déspotas do consumismo-mirim, transformou-se num agudo ponto de interrogação:

 

 – O que é iisso? – disse eu com voz trêmula e apagada.
 – Uma fazenda! – respondeu ela, em tom ufanista e afável.

 

Àquela altura, todos nós já nos reuníamos em volta daquele pedaço de dois metros quadrados de pano cinza.

 

– Uma fazenda?
 – Sim. Um tecido!!!!!!!

– Ahhh, táá! Obrigado!!! – respondi, um tanto estarrecido e fazendo uso daquilo que eu não sabia se chamar hipocrisia.

Com ele você pode fazer uma calça, um terninho… o que você quiser! – disse ela candidamente – Minha mãe pode costurar pra você!

Ocultando a minha vergonha por não saber que fazenda também é o nome que se dá para tecido e, atordoado com aquele que para mim parecia ser um presente-muxoxo, resignei-me e fui para o canto esquerdo da sala.

E nunca mais saí desse canto, e foi nesse canto esquerdo da vida que eu aprendi – ao amadurecer – que esse foi o mais providencial presente que poderia ter recebido. Foi aquela a minha primeira aula de humildade; mais do que a calça que usei em meia dúzia de batizados e aniversários, o que aquela garota me deu foi a minha primeira oficina literária e jornalística.

 

Eu estava ainda distante de meu destino de tecedor de textos e enredos, porém ela já me deu, ali, alguns dos fios para coser o meu projeto de homem. Aquele trapo cor de chumbo foi minha primeira visão da poesia; minha primeira miragem sobre como, pelo artifício da costura, compor a realidade material das idéias informes.

 

Aquele presente de grego foi a minha primeira aula sobre política e estética; antecedeu em muitos anos os ensaios de Hegel, Lukács, Benjamin, na tarefa de me ensinar a prevalência da forma sobre o conteúdo, e resumir o sentido da dialética.

 

Foi aquele o meu primeiro e salutar gestus brechtiano: perfeita síntese das contradições do meu tempo, que ainda estão a espera de serem desfiadas, desenoveladas, e re-tecidas.

 

(* ) esse título – O sindicato dos alfaiates – foi inspirado num texto de Natália Ciotto, leitora desta pagina, a quem agradeço.

Anúncios

Uma resposta to “O sindicato dos alfaiates”

  1. Pupu Says:

    Ora, ora, mas desde cedo, então, já possuías um cotidiano vincado….
    Muito esclarecedor….
    Um homem cosido ao seu tempo!

    Abraços!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: