A morte do Argelino – a véspera grifada

 

A véspera do teu olhar foi feita de cuidados involuntários

Sem te conhecer, aspirei o pó do teu quarto como quem devota amor à causa humana.

Percebi que, pra ser verdadeiro, o amor tem que ser de véspera à primeira vista,

E – se há de morrer – deve ser [por vingança] no dia seguinte ao meu enterro.

 

Como num quadro sem molduras: tudo é, senão, vida.

Se – de uma sala – desconhecemos a entrada e a saída

É porque nos foi dada a missão de viver nela.

Mesmo que nossos dias juntos se contem nos dedos intocados da metafísica.

 

A certeza da paixão foi, por contradição, uma afronta aos meus conceitos de razão.

Anti-marxista até a raiz dos cabelos, nosso amor nasceu de um fatalismo:

O sol dourou seu rosto no Miradouro da Graça e me vi ali impotente a matar o argelino.

 

Feito Mersault, me vi impelido a te admirar como a um guiso de cobra

Som sedutor – prenúncio de morte, presságio de uma condenação redentora.

E a sentença é bem edificante: provar com dias, meses, e anos o gesto daquela véspera.

 

 

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Uma resposta to “A morte do Argelino – a véspera grifada”

  1. Aninha Says:

    A véspera pode ser um dia ou dois anos. Numa escala maior o tempo real não existe. “Duas semanas não são nada para os planos que eu tenho com vc”, como já diziam por aí, dois anos também podem não ser nada.

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