elogio ao perecível I

Para provar que a finitude de algo não lhe retira a beleza.

Os anéis se foram

 

 

 

 

Tinha estabelecimento social;

Cuidava do rosto,

Cuidava da pele,

Cuidava do corpo;

Comia pastel,

Andava de  táxi,

Ia à praia,

era liberta,

andava sozinha,

não ouvia ninguém,

escrevia poesia,

tinha pavor a matemática,

tinha uma sandália para cada vestido,

admirava o nascer  do sol,

não  empinava papagaio,

tinha reflexo da vida,

não falava mal de ninguém,

espetava nos outros seu reflexo de consciência,

ouvia o branco do mundo,

caminhava devagar,

divagava com seus sentimentos,

ambicionava o olfato sonoro do mundo,

amava a si mesma,

errava nos outros,

corria pra escola,

tirava boa nota,

não mijava na cama,

brincava de boneca,

tomava sorvete,

bebia chocolate,

tinha presentes no natal,

tinha a boca cheia de dentes,

maquiagem bem  feita,

pernas conformantes com o corpo,

seios bem posicionados,

sensibilidades a altura,

enxergava muito longe;  hoje: vive comigo

esmagada comigo, quebrada comigo, magra comigo, sem dentes comigo,

sem roupas comigo, descalça comigo, dormindo comigo, com fome comigo,

sem sorvete, sem praia, sem reflexo… mas, vive comigo

 

FRANCISCO  ANTONIO

(1973)

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2 Respostas to “elogio ao perecível I”

  1. Marina Terra Says:

    Deu vontade de conhecê-lo…

  2. Thathá Says:

    Você achou né?Lí quando eu era pequenina,mamãe ficou envergonhada quando eu disse “seios bem posicionados?”.Beijos!

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