O jogo leviano perante o mar

[ou carta aos que sentem demais]   
Se há um campo em que a ideia igualitária do socialismo se mostra com os ares do impraticável, esse campo é o da distribuição das Sensibilidades.

Antes de desenvolver esse raciocínio, é preciso desatar o falso nó que essa primeira frase provoca, já que vivemos tempos em que todas e quaisquer idéias igualitárias [e a do próprio socialismo] encontram-se desacreditadas: sim, o socialismo é praticável, ainda, enquanto houver senso de justiça na face da terra e enquanto houver sangue quente nas frontes, e – por conseqüência – homens com vergonha na cara.

Eis um argumento propositalmente enviesado e moral; e não fujamos da moral: o socialismo é uma demanda ética do processo civilizatório.

Mas antes que esse texto se perca em hipérboles que exigiriam inúmeras páginas para serem diluídas, voltemos ao argumento pontual que o levou a existir: a Sensibilidade é – entre os viventes – ainda mais mal repartida do que a terra.

Se a ocupação da terra – e a conseqüente possibilidade de se adquirir a própria dignidade e sustento – é motivo de litígios legítimos e requer disposição para o embate, a conquista de uma percepção sensível sobre o mundo parece não estar no horizonte das vontades.

Não se pode ter uma visão iluminista sobre os afetos. Ilustração e polimento intelectual, por si, não geram – nem nunca geraram – perspicácia para o espírito, nem acuidade para o caráter.  E quando afirmo isso, temo – e até aspiro – estar errado. Entretanto, é inegável a constatação de que a razão não é imagem especular da sensibilidade.

É comum encontrarmos pessoas intelectualmente bem preparadas que se mostram totalmente inaptas para se relacionar com o que transpira um mínimo de humanidade; ao mesmo tempo, é possível verificar sagacidade e desvelo em homens e mulheres que não detém aquilo que socialmente se imputa como sendo o contracheque do mundo culto.

Perspicácia, acuidade, sagacidade: todos esses termos são tradicionalmente atribuídos à função de adjetivar o intelecto. Portanto, estão aqui equivocadamente empregados. O que se quer qualificar nesta página é uma faculdade da vida espiritual – filosoficamente falando, claro – que está para além da razão, e da experiência sensível dos afetos: trata-se de uma área de relação e intercâmbio entre o mundo subjetivo e o mundo material.

Para tentar definir com mais exatidão aquilo que se quer expressar como Sensibilidades (e para evitar entendimentos grosseiros como alma, religiosidade, etc.), pode-se dizer que elas, nesse contexto, são uma articulação do mundo da razão com o mundo afetivo. Habitam, portanto, um locus vago, híbrido e impreciso que só pode ser identificado e valorizado sem uma visão dualista entre razão e emoção.

De modo esquemático, poder-se-ia dizer: a razão gera idéias sobre o mundo; os afetos geram sentimentos sobre o mundo; e as Sensibilidades geram olhares a respeito do mundo.

Feito esse esboço sobre o nosso tema, passemos a uma constatação frívola: não é curioso como ao lado dos embotados, dos insensíveis e dos brutos do caráter, há sempre uma horda daqueles que sentem tudo profundamente? Em outros termos, ainda mais indelicados: não é intrigante o fato de que existe um sem-número de intransigentes da sensibilidade que ao destilarem seus sentimentos abismais sobre a terra turvam-lhe o que lhe resta de encanto? Ou em palavras mais definitivas: não é assaz periclitante o fato de que, de tão sensíveis, os sensíveis demais se tornam Insensíveis?

Espero que o uso das maiúsculas não seja um excesso didático. Contudo, parece que foi conveniente toda essa explanação palavrosa feita até aqui para tornar inteligível – em toda a sua estratificação polissêmica – uma frase como: “de tão sensíveis, os sensíveis demais se tornam Insensíveis”.

Trata-se de um excesso necessário, pois essa frase traz uma súmula do panfleto pelo qual pretendo militar: o combate aos latifundiários da Sensibilidade.

Não se trata mais de traçar uma linha divisória entre o mundo bruto da velocidade, da produção e do material – de um lado – e a esfera da cordialidade, do humanismo e do intangível – de outro. Essa fronteira já foi estabelecida há tempos: com impropriedades maniqueístas ou não, é possível dizer que essa é uma dicotomia crassa e já bastante exaurida.

Parece pertinente matizar os lados da contenda; mostrar o quão ilusório é o aspecto homogêneo de cada uma das faces e explicitar os poliedros nodosos que crescem em volta daquele traçado inocente que um dia dividiu o mundo entre sensações e idéias.Fiquemos, hoje, apenas com as sensações: “de tão sensíveis, os sensíveis demais se tornam Insensíveis”.

Fica evidente, diante do exposto, que há pelo menos dois níveis de sensibilidade. A Sensibilidade que aqui se evoca seria aquela conjugação – já referida – entre a sensibilidade minúscula, que cabe a todos, e o mundo palpável.

Entretanto, muitas vezes essa sensibilidade mínima – que deveria ser item de fábrica de qualquer ser humano que se preze – torna-se um bem invisível. A partir daí, alguns arautos do humanismo arvoram-se a condição de detentores do fermento que retiraria o animal homem de sua condição pétrea e inanimada.

É inegável que – frente aos valores triunfantes da sociedade capitalista (eficiência, competitividade, e a lógica cartesiana mantenedora da ordem) – é necessário restabelecer alguns limites de atuação para que o humano possa sobreviver à marcha abrupta e empedernida do falso-progresso. É preciso, pois, pensar em algumas formas de resgate.

Porém, geralmente, esse remédio salvador vem encapsulado em palavras como âmago, essência, intimidade. Mantras são evocados em nome do que é visceral e uterino. Estabelece-se um princípio feminino restaurador (regenerativo) que retiraria o projeto humano de sua falência, vinculada aos ditames do mundo técnico.

O que poderia se concretizar como uma alternativa viável – embebida de lirismo – para a inauguração do ‘tempo da delicadeza’, torna-se apenas o grunhido histérico de sensibilidades confusas e ensimesmadas.

Um umbilicalismo autista e biliar sabota as vontades de uma geração refogada no molho pardo da auto-suficiência, ou do consumo imoderado do outro. A super-dosagem da vacina cria o fac-símile do veneno.

Lembro-me bem de um rapaz apaixonado que, naquilo que ele julgava ser o limiar supremo de sua maturidade afetiva, disse-me certa vez: “Antes de conhecer Thereza, eu sentia com as mãos; com ela, passei a sentir com os dedos”.

Seria belíssimo se, meses depois, ele não vivesse a ardência incômoda de fraturas expostas. Teve que navalhar os tendões para fazer jus às augustas sensibilidades da moça.

Não estamos falando apenas da inconsciência pueril dos emos. Estamos falando de uma nata – dita intelectualizada – que leu com lupa escatológica as páginas de Clarice Lispector, Ana Cristina César e Virginia Woolf.

O que viria a ser a celebração das sutilezas converteu-se, para muitos, na perscrutação obsessiva e maquinal da minúcia. A virtude feminina que nos libertaria, a sagração do útero como espaço reprodutor da vida, tornou-se o calabouço mortuário de homens e mulheres perdidos na sanguinolência das próprias entranhas. O que era belo e poético em Gritos e Sussuros, de Bergman, torna-se opaco e mórbido nas ruas.

Uma sensibilidade alienada é contraproducente em tempos em que é imperativo o exercício da solidariedade esclarecida. É incontornável a necessidade de unir razão e emoção: uma sensibilidade não-alienada é o que faz ser possível a existência de uma Sensibilidade.

Contra as engrenagens, o tricô; contra o odor acre da opressão e da fuligem, o fubá.

Eis uma revolução minimalista: não se trata, porém, de uma abordagem estéril da esfera individual, nem da reciclagem fetichista dos conceitos de liberdade dos existencialistas.

Não é a individuação pura e simples que combaterá o aniquilamento do “eu” perpetrado pela modernidade. Tampouco será uma sociabilidade baseada em laços de paixão cega e obliterante que tornará factível algum sentido de pertencimento.

Apenas um ‘Eu em relação’ poderá tecer algum nexo de coesão social. E só um ‘Eu’ – na plena justa-estima de seus limites – poderá fazer dessa relação um terreno de convívio suportável.

Todos nós sabemos que Francisco se liga a Abrahão, que se liga a José, que se liga Rafael, que se liga a Lucas, que se liga a Guilherme, que se liga a Pedro, que se liga a Rodrigo, que se liga a Claudia, que se liga a Ronaldo, que se liga a Ludmila, que se liga a Ney, que se liga a Helena, que se liga a Sérgio, que se liga a Apolinário, que se liga a Tobias, que se liga a um riacho de águas cristalinas, que se liga a um filete de águas turvas, que se liga a um gole d’água, que se liga a uma sede insaciável, que nos liga ao mar.

E perante essa imensa massa líquida – cujo horizonte distante nos faz descrer na ideia de que o mar é feito de gotas – convém um ritual sereno: não afetar um arrebatamento de onda, e confiar no gesto paciente de dar nome a cada um dos vapores que dão verossimilhança à alma do gelo.

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