O conforto do escorregador

Peter Brötzmann por Pete GershonA primeira apresentação do saxofonista alemão Peter Brötzmann no Brasil [no Sesc Vila Mariana, em São Paulo] na última quarta-feira, 4 de junho, é o tipo de evento subterrâneo que não altera em nada a superfície da vida citadina.

Em termos mais brandos – se a tal da teoria do caos é algo abstrato no campo dos fenômenos naturais, o que dirá no terreno da cultura – o trânsito da cidade fluía como sempre após o evento, e não houve estado de sítio anunciado na TV ou confraternização universal e paralisação dos jogos da rodada.

 

Aos poucos afortunados que o ouviram – acompanhado de Marino Pliaskas no contrabaixo elétrico e do mil vezes endemoninhado baterista Michael Wertmüller – cumpre a tarefa de anunciar, em voz mouca e para ouvidos incrédulos, que o hades surgiu em face da terra e abriu suas galerias à visitação no período de aproximadamente 1h 30 min.

Ao contrário do que a dita música contemporânea costuma oferecer – questionamentos do suporte, assonâncias, síncopes, atonalidades e toda a bravataria terminológica da música pretensamente culta que compõe o metié do free jazzPeter Brötzmann se esmerou em tocar do modo mais convencional possível. Rejeitou a melodia do desconforto e as harmonias assimétricas e, mesmo assim, deu a quem pôde ouvi-lo uma lancinante queda livre ao inferno.

O conforto do escorregador. Eis o que toda criança conhece bem. A certeza da queda e a certeza do amparo. Gozar a imponderabilidade do salto com o suporte providencial de uma poltrona. A música de Peter Brötzmann tem essa capacidade, conduz o sujeito ordinário – pagador de impostos e do ingresso – a uma visita guiada nos trens fantasmas de lúcifer com a certeza de que não morrerá.

“O mostro é de mentirinha”, diz a mãe, “mas parecia tão real”.

Parecia real o artifício bélico do músico, que trocava de instrumentos como quem troca de armamento. A depender do monstro a ser abatido, um calibre diferente da artilharia musical: saxafones, clarinetes…

Diferentes formas de expectorar emoções em forma de pulmão. .

 

Balas de festim. É só arte, não é guerra.

 

Peter Brötzmann, Marino Pliakas e Michael Wertmüller

 

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Uma resposta to “O conforto do escorregador”

  1. guilherme Says:

    Uma vela para Stockhausen!

    Escorreguemos, pois.

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