Acúmulo e destruição

A construção de uma personalidade ou de uma personagem literária parece ter inesgotáveis meios de execução. Quanto mais complexos e sortidos os caracteres que as compõem, tanto mais difícil se apresenta a tarefa de desenhar um mapa que as cartografe ou de clarificar os contrastes que as revelam.

Porém, por mais temerária que seja qualquer classificação, é possível reduzir – sem tantos prejuízos – esses meios a dois grandes grupos, a duas formas salutares de criação: o acúmulo e a destruição.

 

Por acúmulo entenda-se todo espectro de ações que têm como base a incorporação de elementos. A infância é corrompida pelo adolescer que põe pingentes na alma, tatua imagens toscas na pele, impõe às cabeças um chapéu ou um bigode que as faça verossímeis no intento de se fazerem passar por adultas. O tempo é, aqui, um enorme templo de vestuário em dias em que se amanhece nu.

O conto da tradição oriental sufi, Fátima a fiandeira, é um exemplo paradigmático de como as peripécias e percalços de uma aventura podem ser impressas ao protagonista de uma história dotando-o de novas características. Em cada um de seus naufrágios particulares, Fátima retira a senha de um novo aprendizado convertendo-se em algo que, sem aquela experiência, jamais seria.

O eterno sortilégio da mobilidade social apresenta-se como um câmbio de conversibilidade ilimitada e, sob essa estética pautada pela noção de acúmulo, a existência ganha uma renovada promessa de eldorado.

Um Rousseau – filósofo, romancista ou apenas cultivador de si mesmo – faz desse modelo uma apologia romântica à infindável quantidade de destinos que os homens podem roteirizar para si mesmos. Da nudez primordial do homem, o cabide informe a se depositarem todos os figurinos do mundo, um precedente para a aspiração burguesa de se fazer de qualquer garoto mais bem barbeado o potencial presidente da república.

Olhares mais severos, contudo, apontam para o aspecto ilusório desse teatro de revista e para a indumentária escassa desses baús da provisão. Vêem, nessa modalidade de invenção, apenas o empilhamento postiço de máscaras. Um tecido mal ajambrado de meias-verdades cênicas que, se na literatura forma personagens fracos e caricaturais, na vida, cria uma série de homens descartáveis e estéreis.

 

Em oposição à idéia de acúmulo, surge outra modalidade criativa: a – paradoxal – construção pela destruição. Despir-se para revelar-se. Despojar-se para erigir-se. Todo o campo semântico em que estão presentes as idéias relacionadas à renúncia, morte, depuração…

Aqui, o tempo é aquele que caduca a copa das árvores e dá ao piso a tez pardacenta do outono. Nessa seara, a nudez é um a priori, que – em si – não passa de uma desfaçatez falsamente impudica. O que realmente há de revelador está na ossatura por baixo da pele, na silhueta que faz das costelas o RG dos famintos. A verdade impura do mar está no sal – esqueleto oculto das águas – que o sol, com seu calor, revela.

Triunfa o conceito de que a decantação das essências é a principal forma de percepção do novo. Os relatos não se concentram no horizonte das oportunidades, na visão que concebe a vida como provedora da fortuna, mas sim na microscopia da intimidade, na fricção do homem com o mundo, o que faz cair o pano da aparência.

Se a estética do acúmulo brinda o alarido das heranças imprevistas, o universo da destruição celebra o dia seguinte à falência e o amanhã frugal da bancarrota. Está em pauta um senso de mortalidade que é consciente de seu próprio poder de redenção.

Na esteira desse princípio escatológico de demolição surge nosso fascínio e espanto frente às personalidades auto-destrutivas, cujo percurso descendente – seja na esfera social, seja no modo pungente e visceral com que conduzem a própria vida afetiva – funciona como farolete a nos indicar, mesmo que de modo dramático, a mediocridade das convenções sociais.

É também nessa esteira que nasce o brilho de uma galeria de personagens falhados. É impossível não perceber o quão elevadas são as ruínas de um Trepliov – de Anton Tchekhov –, de um Amory Blaine – de F.S. Fitzgerald –, de um André – de Raduan Nassar – ou de um Paulo Honório – de Graciliano Ramos. Sem falar num sem número de amantes irracionais que disseminaram na história da literatura a impressão de que morte e suicídio são, em alguma medida, anagramas da poesia.

Pode-se perceber que há diferenças no que se refere à localização do epicentro desses casos de caos doméstico.  

Em alguns, como ocorre no desencantado universo rural da Rússia czarista ou na irresponsável prodigalidade norte-americana dos anos 1920, as contradições do cenário coletivo dão a tônica da decadência moral individual. O que Tchekhov ilustra – essa avalanche de desconcerto que invade a esfera privada – dá o tom do Fogo Morto de José Lins do Rego ou d’A moratória de Jorge Andrade  , assim como aquilo com o que opera Fitzgerald, também está presente – com maior ou menor brilho – na obra de João Antonio e de Nelson Rodrigues.

    Noutros casos, é centrífuga a força destrutiva que abala a calmaria dos enredos. Uma espécie de derruimento da individualidade lança estilhaços que perturbam a ordem vigente. A cólera, como a do personagem de Raduan, ou a angústia, da de Graciliano, contaminam o entorno, difundem uma seiva de pestilência que espalha o tom de terra arrasada.

É preciso frisar que em geral, porém, é difícil identificar onde ocorre a faísca da explosão. É a luta que faz o homem ou homem que faz a luta? Eis uma discussão antiga que sempre teve como resposta mais sensata o frescor prudente da dialética: o homem transforma o mundo e o mundo transformado transforma o homem.

Independentemente do lugar recôndito do qual parta essa centelha de desajuste, ao menos nesses exemplos, é sempre a destruição o motor das ações.

 

E cessa aqui a generalização. Olhares mais minuciosos e mais propensos à polêmica poderão identificar, com pouco esforço, a fragilidade desta oposição entre acúmulo e destruição. O que melhor se produziu em termos literários, ou em biografias dignas de interesse, está no seio de uma síntese eficiente desses dois pólos.

   Essa síntese intrincada – daquilo que se conquista e do que se perde – está na base de muitos dos melhores Bildungsroman [os romances de formação] e das mais ricas súmulas memorialistas, como atestam Os anos de aprendizagem de Wilhelm Meister, de Goethe, Em busca do tempo perdido, de Proust, e as condoídas memórias nacionais de A idade do serrote, de Murilo Mendes.

No exemplo da Fátima a fiandeira, temos a coleção de uma série de habilidades manuais – ora a fiação, ora a tecelagem, ora a marcenaria – que repercutem nas possibilidades de ação da heroína. Essas desventuras não se dão no campo das transformações psicológicas – daquelas que permitem aos personagens e aos indivíduos acumularem seus traumas e leitmotive para seguirem em frente na invenção de si mesmos – mesmo assim, é possível dizer que a protagonista colhe de seus naufrágios a redenção de seus feitos.

Isso colocaria em xeque a argumentação inicial desse ensaio e mostraria que as noções de acúmulo e destruição – mais uma vez – podem se superpor. Diante desse aparente revés retórico, seria mais pertinente alterar desde o início a oposição aqui apresentada em nome de um par de idéias mais óbvio e de maior acuidade para o argumento: construção x destruição, em vez de acúmulo x destruição.

Entretanto, o aparente equívoco tem lá o seu mérito por escavar o lugar comum da idéia de acúmulo. Fica claro, diante do exposto, que é possível colecionar voluntariamente o desagradável, o inconveniente.

Por trás da idéia inocente do colecionador diletante, surge a irrepreensível imagem do masoquismo por vezes inevitável daqueles que não podem fugir às suas heranças e daqueles que, como Pedro Nava, passam a vida a preencher um baú de ossos.

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