REICH E A POSSIBILIDADE DO BEM-ESTAR NA CULTURA

maio 10, 2018

Elijah Brubaker

Texto incrível de Paulo Albertini que dá a devida dimensão das consequências políticas das divergências conceituais entre Freud e Reich e seus devidos pressupostos.

Contra todo o determinismo, uma perspectiva revolucionária para análise do comportamento humano!

Leia aqui: Reich e a possibilidade do bem-estar na cultura

* na imagem, quadrinhos de Elijah Brubaker

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Dimensões Críticas da Reforma Trabalhista no Brasil

maio 4, 2018

From What Shall I Be? by Vladimir Mayakovsky, illustrated by B. Gurevich, 1974

Está disponível para download o pdf do livro Dimensões Críticas da Reforma Trabalhista no Brasil lançado no início de maio pelo CESIT — Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho do Instituto de Economia da Unicamp.

Veja abaixo o sumário

Capítulo 1
Desenvolvimento, competitividade e a reforma trabalhista

Capítulo 2

Dinâmica recente do mercado de trabalho brasileiro ainda nos marcos da Clt

Capítulo 3

Flexibilização das relações de trabalho: insegurança para os trabalhadores

Capítulo 4

a reforma trabalhista como reforço a tendências recentes no mercado de trabalho

Capítulo 5
Flexibilização na lei e na prática: o impacto da reforma trabalhista sobre o movimento sindical

Capítulo 6
as experiências internacionais de flexibilização das leis trabalhistas

Capítulo 7
o impacto de algumas reformas trabalhistas na regulação e nas instituições públicas do trabalho em diálogo comparado

Capítulo 8
Desigualdade e vulnerabilidade no mundo do trabalho

Capítulo 9

Reforma trabalhista e Financiamento da previdência Social: simulação dos impactos da pejotização e da formalização

Só depois de 2010

abril 24, 2018

  Vito-Campanella

Outro dia, fui pego num ato falho ao falar, animado, sobre alguns planos enérgicos para o futuro com um: “isso… só depois de 2010!”

O ouvido que me ouviu tem senso de humor, sabe das minhas confusões deliberadas, mas até me deu o crédito do engano: “espera aí, não entendi… você fez isso em 2010? Fiquei confusa!”

Era pra dizer 2019, mas 2010 me saiu assim como quem não quer nada, como um ano logo ali, prestes a fazer as vezes de amanhã.

A verdade verdadeira é que 2008 foi um fio desencapado, um choque – de alguns instantes – do qual, parece, nunca me recuperei. Não foi Iemanjá que falhou naquele réveillon, nem fui eu que não percebi a década que passou. Nem poderia, teve tanta, mas tanta coisa que reinventou a vida todinha, a desdobrou, a virou do avesso…

Mas sei lá! Parece que do bolo, tudo o que veio depois foi a cobertura – vistosa, gostosa, rala, barata, soberba, não importa; pode ser preconceito meu, mas a farinha, os ovos, o fermento, todos os ingredientes salutares pra que um bolo seja um bolo, um homem seja um homem… são de antes!

E aí é que está o problema, isso – a rigor, não poderia ser diferente – é falso!

Talvez seja só um não se reconhecer no espelho, certo torpor diante da aceleração das coisas que, em queda brusca, perdem peso a casa pesagem, mas é muito esquisito!

É esquisito, eu existo e sigo existindo para as coisas reais, mas talvez não esteja suficientemente presente, talvez eu não faça jus a elas, não como o tempo presente merece. Quem me ama talvez não me ame pelo que eu sou hoje, ou releve o que hoje sou, em nome daquilo que eu sou desde sempre. E daí certa empáfia minha e um desdém involuntário (esses medos que fingem galopar) frente ao que é novo! Amarga tolice!

Já nem me dou ao luxo de achar que isso é nostalgia, foi só o relógio que embirutou, e eu não soube mais consertar. Aquele segue sendo um ano limite, marco de um tempo musical, com músicas todas saindo de uma vitrola ligada e que segue tocando dentro de uma sala cuja porta não tem maçaneta, um ambiente sonoro que eu não tenho meios para ignorar.

Isso em geral é bom e harmonioso, mas às vezes isso me confunde, me atrapalha , impede que eu escute adequadamente o que me é dito ao vivo.

Se você me conhece e já teve que repetir o que disse até ser ouvido, entendido ou amado…

Ou teve que desistir de me fazer escutar, dar de ombros, e concluir (inventar) algo pra que fizesse sentido a aberrante incongruência entre o meu olhar que olha e olha e olha fundo e a minha (des)atenção …

Se você ainda não me conhece, e eu sinto que poderia…

… saiba, minha surdez é essa demência no tempo!

Vou ajustar meu relógio e talvez isso crie abalos ou confusões!

Por agora, feliz 2009!

O Capital, de Marx, livro I (tomo I e II) e livro II

abril 19, 2018

marx

O Capital de Marx. Versão digitalizada, Abril Cultural
coordenação Paul Singer, Tradução: Régis Barbosa e Flávio R. Kothe

Livro I, tomo I, O Capital

Livro I, tomo II, O Capital

Livro II, O Capital

Ingratidão

abril 13, 2018

Sinto dar essa notícia a mim mesmo, mas sou, como amante, um ingrato.

Fui íntimo – até demais – das coisas que eu já não sei mais o nome.

Lembro de desembarcar, já depois da meia-noite, na rodoviária de uma cidade pouquíssimo conhecida, mas conhecida o suficiente para andar a pé pelas ruas desertas, encontrar o casarão do hotel velho já fechado e contorná-lo para, nos fundos, manejar uma porta de madeira, cujo segredo para ser aberta era mover um prego sem fazer força. Em silêncio, só era preciso atravessar na escuridão um corredor, e sentar na poltrona velha do saguão, a espera de que a manhã chegasse e um alguém trouxesse. Falo de um tempo generoso, em que noite alguma era a primeira noite de Adão, e – claridade – sempre haveria de retornar, um tempo em que qualquer angústia ou incerteza era supérflua. Mal a noite ainda continuava e as quatro horas da manhã abriam cada uma uma porta e delas saíam os madrugadores, os hóspedes cortadores de cana vindos do Maranhão para a temporada, aquele tipo de homens afáveis, mas tão afáveis, que nos fazem recordar que é ele – o mundo – o bruto; aquele tipo de homens que já viram de tudo na vida e sentem-se perfeitamente confortáveis ao topar com um desconhecido cochilando numa poltrona a ponto de dizer a ele antes de perguntarem seu nome: “deite em minha cama, só voltaremos no fim da tarde; quer dormir em jejum ou pão com manteiga cai bem antes do sono?”

A hospitalidade desse mundo que eu já conheci um dia era tamanha que às vezes me pego pensando se não fui eu que deixei de ser hospitaleiro com esse mundo, e que era a vida – e não eu – a hóspede.

As manhãs: esse frescor de ver os lavradores irem trabalhar depois do café, e deitar como pedra naquele colchão alheio e ter o melhor dos sonos.

A vida: a desenvoltura bem humorada de acordar e explicar à dona do hotel – “sim, sou eu, lembra de mim? Estive aqui há um ano; entrei pela porta dos fundos, seus hóspedes me receberam muito bem!”

A celebridade que o status de forasteiro presenteia, com direito a chá da tarde nas casas das famílias ditas distintas, aquelas que vestem roupa de domingo porque nunca se sabe quando a visita é a novidade em forma de ouro santo; amor quase incondicional daqueles de dar retrato do patriarca, querer apresentar a prima que combina ou levar pra visitar o homem mais velho da cidade que, com seus 104 anos, ainda espera estar lá pra me receber quando eu voltar.

E as partidas? Só traição. Da minha parte, claro! Levo na bolsa: retratos, promessas sinceras, e dou um sorriso que julgo ser honesto ao ouvir a dona Maria, a dona do hotel, me dizer, “não demore outro ano pra voltar, você é sempre bem vindo!”

Ser tão bem quisto, por gente que não teria o menor motivo pra me querer bem: o óbvio, duro demais pra justificar. Jamais voltei!

O mundo mudou bastante desde que eu julguei conhecer a mim mesmo. Mas isso não serve lá de justificativa; a vida não mudou o suficiente pra que eu não encontre um canto ou outro impregnado de calor reconhecível, diante dos quais eu não tenha outra opção a não ser ser aquilo que em mim, por mais tropeços que haja, não é fruto de trapaça.

Sou tão ingrato. Se já traí cidades, que dirá pessoas?

“Perdoe-me! Perdoe-me! Perdoe-me!”

Com essas ladainhas, já blasfemei tantas vezes contra as perdas que julguei irrecuperáveis, e – nessa pose de vítima – não estive atento ao verdadeiro pecado, vício fácil, de jamais perdoar a mim mesmo por me trair tantas vezes.

Primo Pompilho, filho de índio

agosto 6, 2017

arlequim bandolim

Ouvindo este harpejar de antigamente, certamente, contente, deste choro há de gostar…

– Os teus olhos tão cruéis.
– Nos seus olhos era tanto brilho!
– Anda o operário a mourejar.
– É a boca do lobo, a morder a nuca do povo!
– Eu quero ter a vida inteira pra fazer besteira e você perdoar.
– O que eu sei hoje da vida até Deus duvida!
– Por todos os meus descaminhos, somos tão sozinhos que o melhor mesmo é se dar.
– Eu quero que você se dane!
– E mesmo que eu te engane é assim que eu sei te amar.

[…]

– Cadê meu conhaque?
– Ih, rapaz, eu pedi um uísque e até agora não veio!
– E meu chopp, cadê meu chopp?
– Atenção, atenção…

No meio da madrugada, a paz barulhenta da noite foi atravessada pela flecha do índio que se fez notar. De mesa em mesa, o bar se moveu em rebuliço. Um ébrio de susto tombou, um valente no balcão se apeou, duas mulheres de salto gritaram para o inusitado da cidade moderna.

Já ele não teve tempo de reagir. Dois tiros na testa e a chacina acabou com a festa.

Quem havia de avisar a mulher do falecido?
A própria alma do morto voltou à vida pra comunicar o seu destino.

O telefone tocou e a mãe não quis atender, o filho recebeu a notícia: “mãe, a coisa é séria! O pai avisou que hoje não volta, porque hoje ele morreu!”

A mãe não quis dar corda e o menino guardou as flechas todas no pomo de Adão sangrando! O pai ressuscitou, mas quem haveria de contar a história do pai boêmio que morreu de flechada e reviveu era a sua garganta, de filho, magoada.

feito ser semente sem vento

agosto 5, 2017

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Lembro daquele abril

O Caio Fernando Abreu
sentia aquela vontade
besta de não ter crescido
feito o mês antes de ter nascido ser
melhor do que os dias depois de morrido

Tive que explicar ao rapaz-rebento que
o desejo de voltar
é feito ser semente sem vento

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fevereiro 24, 2017

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tenho, cá pra mim,
que a terra só dá voltas fúteis
em torno de si
porque tem vergonha:

se pudesse assumiria –
giraria até mil vezes mais
em torno do sol .

só rotasó
quem não conhece
o movimento largo
os generosos amores de astro.

De quando é 1916

fevereiro 11, 2017

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Nunca se sabe quando é 1916

Quem garante que vai nascer o dia de sol amanhã?
Quem percebe que hoje é véspera de algo?

A ciência dos que veem se há estrelas na noite e dizem “amanhá o céu vai abrir!”?
A simpatia dos que jogam um punhado de sal por cima dos ombros e rezam uma Ave Maria?
O sonho de quem vai acordar tarde e perder o sol que houver?
O acordar dos que nada esperam e o que vier é lucro?
O amor de quem vai brilhar faça chuva, faça sol?
O preparo dos que sabem que a nossa hora vai chegar?
O sangue de quem morreu hoje?

Há com certeza mais de 56 formas de fazer com que amanhã seja melhor que hoje

Seu ontem; meu hoje; nosso sempre

setembro 24, 2015

Marc Chagall, 1924

Aqui te amo.
os obscuros pinheiros o vento desenlaça.
A lua fosforesce sobre as águas errantes.
Dias iguais se perseguem.
A névoa se desenha em figuras dançantes.
Uma gaivota de prata se descola do ocaso.
Às vezes uma vela. Altas, altas estrelas.
Ou a cruz negra de um barco.
Só.
Às vezes amanheço, e até minha alma está húmida.
Soa, ressoa o mar distante.
Este é um porto.
Aqui te amo.
Aqui te amo e em vão te oculta o horizonte.
Estou te amando ainda entre estas frias coisas.
Às vezes vão meus beijos nestes barcos graves,
que correm pelo mar até aonde não chegam.
Já me creio esquecido como essas velhas âncoras.
São mais tristes os molhes quando a tarde atraca.
Minha vida se afadiga faminta inutilmente.
Amo o que não tenho. Tu estás tão distante.
Meu fastio faz força com os lentos crepúsculos.
Mas a noite chega e canta para mim.
A lua faz girar sua roda de sonho.
Me olham com teus olhos as estrelas maiores.
E como eu te amo, os pinheiros no vento
querem cantar teu nome com suas folhas de cobre

[Aqui te amo, de Pablo Neruda,
em Vinte Poema de Amor e Uma Canção Desesperada]

*imagem: Marc Chagall, 1924