Outubro 6, 2009 por Rodrigo
A prece de um fraco
Que luz…
Que alacridade…
Que plenitude…
Tudo é lindo
Muito lindo
Muito bom
Demais até
Pra durar muito.
Entretanto…
da luz fica o reflexo
da alegria, a lembrança
da plenitude , o vazio.
E assim…
Lentamente,
Cruelmente,
chegas.
Invades tudo.
Reinas
Sozinha
Mesquinha.
Até quando?
Por que não te vais?
Não te suporto mais
Outros te esperam.
E a mim
Ingrato
Sei que dirás.
Mas…
Perdão!
Eu quero
é viver
e
não recordar!
Sensibilidade
Na
Enxurrada
Rápida
Barrenta
E suja
Vai uma flor.
As crianças que brincam
não a percebem.
Os velhos que passam
não a enxergam.
Somente eu
Da minha janela
Entristeço-me.
A flor desaparece
esfacelada
na boca de um esgoto.
(in O camelo ancorado)
Ubaldo Luiz de Oliveira (1944-2009) foi professor de português no curso de madureza do Santa Inês, no Colégio Bandeirantes, entre outras escolas, e escreveu o livro de poemas “O Camelo Ancorado” e os estudos “Estrutura Sintática da Frase” e “Gramática Objetiva”.
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Outubro 4, 2009 por Rodrigo

quanto desse fogo é manso?
quanto desse minério, gasto?
parece que teu mais rubro tendão
é a mais lendária cinza, em carvão.
mais incendiário é um fogo não queimado,
mais vivo e cálido em memória, imaginário.

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Outubro 2, 2009 por Rodrigo
Um fim não é fim
Se começo não há.
É noite-escura-sempre.
Sem big bang.
(Zé Henrique Lopes)

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Setembro 22, 2009 por Rodrigo
O professor sempre corrigia o pleonasmo
Apontava o erro, cheio de sarcasmo.
A aluna dizia “na medida do possível… “
E ele troçava: “e na medida do impossível?”
Foi assim, com essa mania de chiste,
Que ele me ensinou a ver o que além existe.
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Setembro 16, 2009 por Rodrigo

Sob luz crepuscular, e no caminho da escola, o aluno lê a “Filosofia da composição” e ouve um rumor:
Poe
Põe, na
Poeira do
Poente, a
Poesia em eixos
chatos
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Setembro 13, 2009 por Rodrigo
para a minha querida mulher desportoperária
O nosso time é feito de quais?
Quais homens?
Quais propósitos?
Se contra todas a vendas
– Que ocultam as vistas
Que vendem as vidas –
Seguimos acreditando na justiça?
Seguindo a certeza de que algo nos faz iguais?

O meu ombro é terra fértil
Para a chuva da tua lágrima
E o nó da tua garganta é o botão
que desata a dor em flor.
Flores para ti e para aqueles outros corações
Que — como nós — ainda acreditam na justiça.

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Setembro 11, 2009 por Rodrigo

Esta manhã, pensei em meu primo
Como se ele fosse um artesanato
Daqueles feitos com palitos de sorvete e tinta
Pindurado num fio, qual mensageiro dos ventos.
A vibrar sob o som inaudível das promessas.
***
Há ossos pequeninos por sob a carne d’ouvido,
Diapasões femininos que o mundo — a perceber –
nos dão
Em meu primo, a surdez fez esse mundo, para um lado, penso,
qual inclinada torre.
E o que farão esses ossos sem vibrar?
Dão ao badalo dos sinos qual atenção?
Se para um lado do mundo pende
a atenção desse homem sério,
Órfãos de quem são os habitantes
desse outro ignorado hemisfério?
São esses ossos sinais de qual silêncio?
Dizem o que, ao não ouvirem o que dizem?
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Setembro 11, 2009 por Rodrigo

Construí uma torre por dentro
Com espaço para abrigar corredores e vento.
Solidez aerada para não interferir na paisagem.
Maçanetas de prata argentina foram proibidas.
Não queria um belo vistoso que escondesse
em seu brilho
escravo trabalho.
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Agosto 28, 2009 por Rodrigo
“A revolução social do século XIX
não pode tirar sua poesia do passado,
e sim do futuro.
Antes a frase ia além do conteúdo;
agora é o conteúdo que vai além da frase.”
Karl Marx (18 Brumário)

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Agosto 23, 2009 por Rodrigo

“era absolutamente original; combinava erudição e sintonia permanente com o que acontecia no mundo; aliava sensibilidade estética a rigor filosófico; temperava ousadia e equilíbrio, imaginação e prudência; criatividade e fidelidade à tradição; engajamento político e independência; produção acadêmica fiel aos cânones e autonomia, tanto na escolha dos temas, quanto na maneira de tratá-los; diálogo com seu pares universitários e participação no debate público; espírito crítico ferino e humildade ante o pluralismo de opiniões; firme em suas posições e tolerante com as diferenças; convicção e responsabilidade.”
[descrição sobre o perfil da cientista política Hannah Arendt feita pelo professor Luiz Eduardo Soares em seu artigo Hannah Arendt e sua receita para tempos sombrios]
“as qualidades de uma boa conversa deveriam ser a polidez sem fingimento, a franqueza sem rispidez, a erudição sem pedantismo, o rigor sem aridez e, sobretudo, a disposição sincera de cooperar na busca do saber. Afinal, eles se perguntaram, o que os impedia de, sem perder a leveza e o bom humor, perseguir com afinco a verdade? O sério não é sinônimo de soturno, assim como o profundo não o é de obscuro. La gaya scienza. Se a busca do saber não precisa ser sisuda, a alegria da convivência não precisa ser frívola.”
[descrição sobre as qualidades do diálogo, da arte da conversação, feita pelo economista e professor Eduardo Giannetti em seu livro Felicidade]
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