Conversa virtual num mundo irreal ou,
como diria Décio Pignatari, ARREAL
ELE: Oi
ELA: oi
ELE: Bom dia!!! [com três exclamações para demonstrar efusividade]
10 segundos de silêncio
ELE [novamente]: Bom dia?
ELA: Bom dia, tudo bom?
ELE: Tudo. Você chegou faz tempo?
15 segundos de silêncio
ELA: Oi… faz uma meia hora, já
ELE: Mais cedo de novo?
ELA: Sim, peguei uma carona para casa.
ELE: Ah!
20 segundos de silêncio
ELE: Bom, estou vendo os meus e-mails. Vou voltar para casa. vou ficar lendo! A gente se encontra às 20h ou às 21h?
ELA: Você é quem sabe.
ELE: Bom, então tá! [ele reluta e prossegue] Você tomou café da manha direito?
ELA: Sim, por quê?
ELE: Ah, por nada!
10 segundos de silêncio
ELE: O que você já comeu hj?
ELA: Tomei leite, comi bolacha e tomei iogurte
ELE: Hum, bom então deve estar com fome. Vou caprichar no jantar então. Acho que já vou praí, então!
ELA: Tá bom, você é quem sabe. Qualquer mudança de planos, me avise, tá?
ELE: Ué? Porque eu mudaria.
ELA: Nada, deixa pra lá.
ELE [mudando de tática]: “Quando a gente gosta, é claro que a gente cuida”
ELA: =/
ELE: “Por que você não cola em mim?”
ELA: Você está ouvindo musica?
ELE: Tsc, tsc… estou cantando pra você.
ELA: Hum…
ELE: Hum;;; [usando ponto-e-vírgulas para quem sabe expressar uma tênue ironia]
8 minutos depois
ELE: Olha só isso o que eu vou te mandar!
ELA: Ainda está aí?
ELE: Sim, mas é por um bom motivo.
ELA: Putz, vai ficar tarde, assim!
ELE: Calma! Olha só isso, vai valer a pena…
“Companheiros”
“quero
escrever-me de homens
quero
calçar-me de terra
quero ser
a estrada marinha
que prossegue depois do último caminho
e quando ficar sem mim
não terei escrito
senão por vós
irmãos de um sonho
por vós
que não sereis derrotados
deixo
a paciência dos rios
a idade dos livros
mas não lego
mapa nem bússola
por que andei sempre
sobre meus pés
e doeu-me
às vezes
viver
hei-de inventar
um verso que vos faça justiça
por ora
basta-me o arco-íris
em que vos sonho
basta-te saber que morreis demasiado
por viverdes de menos
mas que permaneceis sem preço
companheiros”
ELA: O que é isso?
ELE: Mia couto.
ELA: Hum…
5 segundo de silêncio
ELA: bonito [assim mesmo, em minúsculo]
ELE: Eu estava pensando em chamar o meu primeiro livro de A ESTRADA MARINHA.
ELA: ehehe
ELE: Gosta?
ELA: Se for coerente com o conteudo…
ELE:
10 segundos de silêncio
ELE: O que acha desse poema?
ELA: Me manda por e-mail. Você não ia pra casa?
ELE: Ia, mas estou aqui conversando contigo e querendo fazer prospecção poética para encantar e mudar o mundo.
ELA: entendi…
ELE: Sentiu?
ELA: O que?
ELE: Você entendeu; mas sentiu?
ELA: Preciso ler com calma.
ELE: Eu estava falando da minha motivação de fazer prospecção poética, essa atitude que me faz ficar aqui picoteando a carcaça de gelo do mundo!
ELA: Isso eu senti, sim.
ELE:
Sei…. [com ar cético, ao colocar quatro pontos nas reticências como que por protesto pela desfaçatez e pelo ar modorrento dela].
15 segundos de silêncio
ELE [apelando para uma saída non sense]: “El castellano, sin duda, resulta una lengua muchísimo más útil, non?”
ELA: De onde você tirou isso?
ELE [continuando, já com ar de vitória, por não mais lutar]: Abre muchas más puertas. La hablan muchas más gentes en el mundo… En un mundo globalizador el gallego representa una bandera en favor del separatismo y la diferenciación.
ELA: ?
ELE: “Que passa?” Passas ao rum?
ELA [corrigindo, no auge de seu morfinismo sentimental]: “¿qué pasa?”, é assim que se escreve.
ELE: Uau! Como você faz essa interrogação de ponta cabeça, hein? Aliás, serve tailandesa?
ELA: Não estou entendendo.
ELE [ionescamente revoltado]: METANO! BUTANO!
ELA: ?
ELE: Prospecção poética do mundo!
ELA: H2C2
ELE: ZAZ! Você entende de algo: química! Dois meteno e um benzeno!? Padre da foda, não!
ELA: ?eheh? [traduzido livremente por 'sorriso amarelo']
5 minutos depois
ELA: VOcê vai sair daí, afinal?
30 segundos de silêncio [por pura sacanagem dele]
ELA: Antonio.
ELE: Eu vou depois do pôr-do-sol.
ELA: Mas já anoiteceu.
ELE: Pois é!!
ELA: Bom, você faz o que quiser então. Mas você escolhe onde comer porque eu nao estou com vontade de pensar em comida.
ELE: Pensa, então, em nuvens cor de rosa.
ELA: Isso não existe.
ELE: Como não? Acabam de ser pensadas.
ELA: 
ELE: Nuvens de gafanhotos cor-de-rosa no egito… pragas!
Nuvens de Flamingos cor-de-rosa em Lobito… poesia!
ELA: rs!
ELE: “Nuvens Cor de Rosa”, Nuvens Cor de Rosa”, isso pode não ter muito sentido, para muita gente, mas para qualquer Lobitanga, será sempre a lembrança de milhares de Flamingos em vôo na zona dos mangais e das salinas do Lobito.
ELA: Mia Couto?
ELE: Tsc, tsc… não!
10 segundos de silêncio
ELE: Você, por acasao, já pensou em fazer algum tipo de dança?
ELA: não
ELE: Flamenca, por exemplo? A gente podia fazer, né?
ELA: podia?
ELE: É. Imagina você de castanholas… hummmmmmmmmmmmm!
ELA: Ridículo, eu diria
ELE: Não!É legal… bonito, sensual… você não gosta de dançar?
ELA: Bom, falamaos de dança pessoalmente…é melhor você ir para não se atrasar.
ELE: tá
ELA: 
ELE: Tô indo.
ELA: Tá bom!
ELE: Beijo!
ELA: Beijo.
ELE: Beijos (….)
49 anos de silêncio