Arquivo da categoria ‘Política’

Resistência matutina

junho 30, 2009

Esteban Felix/AP - Apoiadores do presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya

A padaria está de portas abertas e é da fornada, é do pão, é do apetite do trabalhador vizinho que o poeta tira seu fermento.

***

Embora opaca, a espuma sobre o café age qual espelho: faz caboclo olhar dentro e ver-se.

***

Ver-se é o início do verso. O resto é lembrar de ti e conjugar rebelião.

gêneros

maio 20, 2009

fio de ariadne

“Há uma maneira dramática de ver o mundo, de concebê-lo como dividido por antagonismos irreconciliáveis; há um modo épico de contemplá-lo serenamente na sua vastidão imensa e múltipla; pode-se vivê-lo liricamente, integrado no ritmo universal e na atmosfera impalpável das estações.” (Anatol Rosenfeld, in O Teatro Épico)

‘eu maior que o mundo’

maio 4, 2009

Samora e Graça Machel

Por dentro,  grande é o mundo.

O Horácio

abril 22, 2009

[de Heiner Müller]
[tradução - Ingrid Koudela]

Entre a cidade de Roma e a cidade de Alba
Havia luta pelo poder. Contra estes que brigavam
Estavam armados os etruscos, poderosos.
Para solucionar a briga, antes do ataque esperado
Colocaram-se um contra o outro, em ordem de combate
Ambos os ameaçados. Os chefes de exército
Colocaram-se cada um diante do seu exército e disseram
Um para o outro: Como a batalha enfraquece
Vencedores e vencidos, vamos tirar a sorte.
Que apenas um homem lute por nossa cidade,
Contra um homem por Vossa cidade,
Poupando os outros para o inimigo comum.
E os exércitos bateram a espadas contra os escudos
Em sinal de aprovação. E a sorte foi tirada.
A sorte determinou que lutaria
Por Roma um Horácio, por Alba um Curiácio.
Depois o Horácio e o Curiácio foram indagados
Cada qual diante do seu exército
Ele é/ Você é noivo/ da sua irmã/irmã dele?
A sorte deve ser
Tirada mais uma vez?
E o Horácio e o Curiácio disseram: Não.
E eles lutaram, entre as fileiras de combate.
E o Horácio feriu o Curiácio
E o Curiácio disse com a voz desvanecendo
Poupe o vencido. Eu sou
Noivo de sua irmã.
E o Horácio gritou:
Minha noiva é Roma.
E o Horácio enfiou a sua espada
No pescoço do Curiácio, sendo que o sangue caiu sobre a terra.
Quando o Horácio voltou para Roma
Sobre os escudos da tropa, sem feridas,
Jogada sobre o ombro a vestimenta de batalha
Do Curiácio, a quem havia matado,
No cinto a espada da vítima, nas mãos a sua própria, cheia de
Sangue veio ao seu encontro, na porta oeste da cidade
Com passo rápido, a sua irmã, e atrás dela
Seu velho pai, lentamente
E o vencedor saltou dos escudos, em meio ao júbilo do povo,
Para receber o abraço da irmã
Mas a irmã reconheceu a vestimenta de combate cheia de sangue,
Obra de suas próprias mãos, e gritou, e arrancou os cabelos.
E o Horácio ralhou com a irmã, que chorava a morte.
Por que você grita, e arranca seus cabelos.
Roma venceu. Diante de ti está o vencedor.
E a irmã beijou a vestimenta de combate, cheia de sangue, e gritou:
Roma
Me devolve o que havia dentro dessa vestimenta.
E o Horácio, que ainda tinha no braço o impulso
Com que havia matado o Curiácio,
Pelo qual a sua irmã chorava agora,
Enfiou a espada, sobre a qual o sangue daquele que lastimava
Ainda não havia secado,
No peito da chorosa,
Sendo que o sangue caiu sobre a terra. Ele disse:
Vá para ele, a quem você ama mais do que a Roma.
Isso a toda romana que lastimar o inimigo.
E ele mostrou a espada, duas vezes cheia de sangue, a todos os romanos.
E o júbilo silenciou. Só das fileiras mais distantes
Da multidão que observava ainda se ouviam
Vivas. Ali ainda não haviam percebido
O terrível. Quando em meio silêncio do povo
O pai chegou perto de seus filhos,
Tinha apenas um filho. Ele disse:
Você matou a sua irmã.
E o Horácio não escondeu a espada, duas vezes cheia de sangue
E o pai do Horácio
Olhou para a espada, duas vezes cheia de sangue e disse:
Você venceu. Roma
Reina sobre Alba.
Ele chorou pela filha, com rosto encoberto
Estendeu sobre sua ferida e vestimenta de combate
Obra de suas mãos, sangrando pela mesma espada
E abraçou o vencedor.
Juntaram-se então aos horácios os lictores
Separaram com chicote e machado o abraço.
Tiraram a espada da vítima do cinto
Do vencedor, e das mãos do assassino a
Sua própria espada, duas vezes cheia de sangue.
E um dos romanos gritou:
Ele venceu. Roma reina sobre Alba.
e um outro romano respondeu:
Ele matou a sua irmã.
E os romanos gritaram uns contra os outros:
Honrem o vencedor
Executem o assassino
E romanos empunharam a espada contra romanos na luta
Se como vencedor deveria ser honrado
Ou julgado como assassino o Horácio.
Os lictores
Separaram os que brigavam com chicote e machado.
E convocaram o povo para uma assembléia.
E o povo elegeu dois dos seus
Para fazer justiça sobre o Horácio.
E colocou na mão de um deles
O louro, para o vencedor,
E na do outro o machado de execução, destinado ao assassino.
E o Horácio estava
Entre o louro e o machado.
Mas seu pai colocou-se ao seu lado,
O primeiro prejudicado e disse:
Espetáculo vergonhoso
Que nem mesmo o albano veria sem pudor.
Diante da cidade estão os etruscos
E Roma desperdiça sua melhor espada.
Por uma apenas se preocupe
Preocupem-se com Roma.
E um dos romanos lhe respondeu
Roma tem muitas espadas
Nenhum romano
É menos do que Roma, ou Roma não existe
E um outro romano disse
E apontou com os dedos em direção ao inimigo
Duas vezes poderoso
É o etrusco, se Roma estiver dividida
Por opiniões contrárias
No julgamento fora de hora
E o primeiro fundamentou assim a sua opinião
Conversas não conversadas
Pesam sobre o braço que empunha a espada
Discordância encoberta
Torna as fileiras de combate inseguras
E os lictores separaram pela segunda vez
O abraço dos horácios, e os romanos se armaram
Cada qual com a sua espada.
Aquele que carregava o louro e aquele que carregava o machado
Cada qual com a sua espada, de forma que
O da esquerda agora segurava o louro ou o machado
E a espada o da direita. Os próprios lictores
Largaram por um instante
As insígnias de seu posto e enfiaram
No cinto cada qual a sua espada e pegaram
Novamente na mão o chicote e o machado
E o Horácio se inclinou
Para pegar a sua espada, cheia de sangue, que estava na poeira
Mas os lictores
Impediram-no com o chicote e o machado
E o pai do Horácio também pegou sua espada
E ia erguer com a esquerda aquela cheia de sange
Do vencedor, que era um assassino
E os lictores também o impediram
E os vigias foram reforçados nos quatro portões da cidade
E prosseguiu o julgamento
À espera do inimigo
E aquele que carregava o louro disse
Seu mérito apaga sua culpa
E aquele que carregava o machado disse
Sua culpa apaga seu mérito
E aquele que carregava o louro perguntou
O vencedor deve ser executado?
E aquele que carregava o machado perguntou
O assassino deve ser honrado?
E aquele que carregava o louro disse
Se o assassino for executado
Será executado o vencedor
E aquele que carregava o machado disse
Se o vencedor for honrado
Será honrado o assassino
E o povo olhou para o autor único e indivisível
De atos tão diversos e silenciou
E aquele que carregava o louro e aquele que carregava
O machado perrguntaram
Se um não pode ser feito sem o outro, que o torna desfeito
Porque o vencedor/assassino e o assassino/vencedor
São um homem, indivisível
Então entre ambos nada devemos fazer
Para que haja uma vitória/assassinato
Mas nenhum vencedor/assassino
E que o vencedor/assassino seja chamado ninguém?
E o povo respondeu a uma só voz
(mas o pau do Horácio silenciou)
Ali está o vencedor. Seu nome, Horácio.
Ali está o assassino. Seu nome, Horácio.
Há muitos homens em um só homem
Um deles venceu por Roma no duelo
Um outro matou a sua irmã
Sem necessidade. A cada um o seu
Ao vencedor o louro. Ao assassino o machado
E o Horácio foi coroado com o louro
E aquele que carregava o louro ergueu a sua espada
Com o abraço estendido e honrou o vencedor
E os lictores largaram das mãos
O chicote e o machado e levantaram a espada
Aquela duas vezes cheia de sangue com sangues diferentes
Que estava na poeira e a entregaram ao vencedor
E o Horácio, com a testa coroada
Ergueu a sua espada para que ela fosse visível para todos
Aquela duas vezes cheia de sangue com sangues diferentes
E aquele que carregava o machado largou das mãos o machado
E todos os romanos
Ergueram suas espadas por um tempo de três batidas do coração
Com o braço estendido e honraram o vencedor
E os lictores enfiaram novamente suas espadas
No cinto, tiraram a espada
Do vencedor das mãos do assassino e a jogaram
Na poeira. E aquele que carregava o machado arrancou
Da testa do assassino o louro
Com o qual o vencedor havia sido coroado e o
Devolveu à mão daquele que carregava o louro
E jogou sobre a cabeça do Horácio o pano da cor da noite
Dentro da qual fora condenado a entrar
Porque havia matado um homem
Sem necessidade, e os romanos todos
Enfiaram cada um sua espada na bainha
De forma que os fios estavam todos cobertos
Para que não participassem as armas
Com as quais o vencedor havia sido honrado
Da execução do assassino. Mas os vigias
À espera do inimigo nos quatro portões da cidade
Não cobriram suas espadas
E os fios dos machados ficaram descobertos
E a espada do vencedor, na poeira, cheia de sangue
E o pai do Horácio disse
Esse é o meu último. Matem a mim por ele.
E o povo respondeu a uma só voz
Nenhum homem é outro homem
E o Horácio foi executado com o machado
Que o sangue caiu sobre a terra
E aquele que carregava o louro na mão
Novamente o louro do vencedor, amarrotado agora
Porque havia sido arrancado da testa do assassino
Perguntou ao povo
O que deverá acontecer com o cadáver do vencedor?
E o povo respondeu a uma só voz
O cadáver do vencedor deve receber seu féretro
Sobre os escudos da tropa, salvo por sua espada
E eles reuniram
Aquilo que já não podia ser reconciliado
A cabeça do assassino e o corpo do assassino
Separados um do outro pelo machado do julgamento
Sangrando ambos, como cadáver do vencedor
Sobre os escudos do exército, salvo por sua espada
Não vendi seu sangue em suas mãos, e colocaram
Em sua testa o louro amarrotado
E colocaram na mão, os dedos crispados
Da convulsão última sua espada cheia de sangue e poeira
E cruzaram sobre ele as espadas nuas
Indicando que nada deveria ferir o cadáver
Do Horácio que havia vencido por Roma
Nem a chuva, nem o tempo, nem a neve, nem o esquecimento
E ficaram de luto com o rosto encoberto
Mas os vigias nos quatro da cidade
À espera do inimigo
Não cobriram seus rostos
E aquele que carregava o machado, novamente o machado da execução
Nas mãos
Sobre as quais o sangue do vencedor ainda não havia secado
Perguntou ao povo
O que deve acontecer com o cadáver do assassino?
E o povo respondeu a uma só voz
(mas o último Horácio silenciou)
O cadáver do assassino
Deve ser jogado diante dos cães
Para que o rasguem
Para que nada dele permaneça
Ele que matou um homem
Sem necessidade
E o último Horácio, no semblante
Duas vezes a marca da lágrima, disse
O vencedor está morto, aquele que não pode ser esquecido

Enquanto Roma reinar sobre Alba
Não será possível esquecer a sua Roma e o exemplo
Que ele deu ou não deu
Pesando com a balança do comerciante um contra o outro
Ou diferenciando com cuidado culpa e mérito
Do autor único e indivisível de atos tão diversos
Temendo a verdade impura ou não a temendo
E exemplo pela metade não é exemplo

Aquilo que não é feito inteiro até o fim verdadeiro
Volta para o Nada nas rédeas do tempo em passo de caranguejo
E tiraram o louro do vencedor
E um dos romanos se inclinou
Diante do cadáver e disse
Permite que quebremos a sua mão, vencedor,
Que nada mais sente
A espada que está sendo requisitada
E um outro romano cuspiu no cadáver e disse
Assassino, devolve a espada
E quebraram a espada de sua mão
Pois a mão enrijecida pela morte
Havia se fechado em volta da maça do punho da espada
De forma que foi preciso quebrar os dedos
Do Horácio para que entregasse a espada
Com a qual havia por Roma e uma vez
Não por Roma, uma vez cheia de sangue em demasia
Para que pudesse ser melhor usada por outros
O que ele havia bem usado exceto uma vez
E o cadáver do assassino, dividido pelo machado de execução
Foi jogado diante dos cães para que eles
O estraçalhassem para que nada dele sobrasse
Aquele que havia matado um homem
Sem necessidade ou por quase nada

E um dos romanos perguntou para os outros
Como deve ser chamado o Horácio pela posteridade?
E o povo respondeu a uma só voz
Ele deve ser chamado o vencedor sobre Alba
Ele deve ser chamado o assassino de sua irmã
No mesmo fôlego seu mérito e sua culpa
E quem mencionar sua culpa e não mencionar seu mérito
Este deve morar com os cães como um cão
E quem mencionar seu mérito e não mencionar sua culpa
Este também deve morar com os cães
Mas quem mencionar sua culpa em um momento
E mencionar seu mérito em outro momento
Falando da mesma boca em momentos diferentes de forma diferente
A este deve ser arrancada a língua
Pois as palavras devem permanecer puras.
Uma espada pode ser quebrada e um homem
Também pode ser quebrado, mas as palavras
Caem na agitação do mundo, irrecuperáveis
Tornando as coisas reconhecíveis ou irreconhecíveis
Mortal para o homem é aquilo que é irreconhecível
Assim estabeleceram, sem temer a verdade impura
Á espera do inimigo, um exemplo provisório
De diferenciação pura, não ocultando o resto
O que não podia ser solucionado na transformação irremediável
E voltaram cada um novamente ao seu trabalho
À mão, ao lado do arado, martelo, sovela
Estilete, a espada.

Dichtung – zwei

fevereiro 13, 2009

Yannis Kolesidis, Reuters
Condensado: o leite fica mais doce.
Memoráveis: os tempos, menos finitos.

Pasmada: a chuva não chove.
Grávida: a vida não morre.

Uma cor resume um gesto.
Uma  gota contém tudo.

“tem dias…”

fevereiro 2, 2009

cacareco

“… que eu invejo muito os animais.”

O belo odioso

setembro 30, 2008

Texto

 

Foi de um francês a lição: ao censurar o seu apetite pelo incesto, o homem se fez civilizado. Lévi-Strauss nos ensinou que ao transcendermos a dimensão natural da existência – ao interpormos, frente a desejos de base instintiva, uma restrição arbitrada por valores intelectual e simbolicamente construídos – inauguramos o mundo da cultura.

 

E isso é bom ou ruim? – perguntaria um incauto.

 

Ao expormos o conceito desta maneira, apelando para termos como censurar e restringir, podemos passar a idéia de que o advento da civilização foi uma violência à pax natural. Eis um argumento que nos atinge, sobretudo em tempos em que a lógica da vida civilizada se confunde com a prática de um mundo desumanizado pela ação corrosiva do capital.

 

Mas não façamos confusão: foi justamente devido a essa capacidade – de pôr à frente de quaisquer determinismos biológicos um ideal compartilhado de bem-estar coletivo e culturalmente acordado entre os viventes – que atingimos nossa condição de humanidade. No fim das contas, o vale-tudo do capitalismo só faz emular a selvageria que faz da busca pelo poder o símbolo máximo da libido dominandi.

 

Nesta defesa do homem e da civilização, não perdemos de vista, obviamente, a forma arrogante com que temos lidado com a natureza. O aquecimento global e os demais indícios da nossa ação predatória só demonstram que ainda temos agido de modo incestuoso em relação ao planeta.

 

Precisamos, pois, celebrar esse princípio tautológico que nos consagra: para afirmar o que somos, é necessário negar aquilo que não devemos ser.

 

Para ratificar o que em nós é humano precisamos renunciar àquilo que nos animaliza, àquilo que nos faz perder o horizonte da humanidade como um projeto.

 

É preciso rejeitar com veemência uma série de valores que nos corrompem. Recusar com radicalidade as seduções que nos acossam e nos sujeitam a perder aquilo que nos constitui é tão salutar quanto lutar por políticas afirmativas – em questões de preservação das soberanias e das identidades nacionais, em contendas étnicas, raciais e de gênero, por exemplo.

 

Contexto

 

Porém, esse jogo de afirmar e negar não é tão simples. Sobretudo porque, quase sempre, aquilo de que devemos nos desvencilhar está [ou aparenta estar] cancerigenamente atado àquilo que devemos preservar. O corpo doente adquire uma perigosa aderência ao corpo são: constitui-se uma arriscada unidade que, sob risco de morte, exige a precisão absoluta do corte.

 

Nesses termos, a questão parece adquirir certa aura religiosa e dual; bastaria colorir o mundo com os pincéis do bem e do mal e seguir o manual de boa conduta dos primatas bem comportados, que não comem banana com casca nem praticam o adultério.

Nada mais fácil de driblar do que os anjos e os diabos; com um safanão eles tombam em pleno vôo, feito libélulas imprevidentes. Difícil é exorcizar os espíritos da ambigüidade: os anjos demoníacos e os capetinhas angelicais. Os famosos lobos em pele de cordeiro; e – porque não – as ovelhas que rangem dentes para se fazerem passar por lobos.

 

Não poderíamos esperar, é claro, nutridos por mentalidades e ideologias totalizantes, que a realidade atual fosse pouco complexa, porém não se pode confundir complexidade com ambivalência maliciosa.

 

Sobretudo em tempos de relativismo ético, é preciso estarmos atentos aos elementos que nos confundem, que nos nublam o senso crítico.

 

Eis algumas de nossas mistificações correntes: a arte engajada é esteticamente limitada; o novo é bom e o antigo é mau; o novo é mau e o antigo é bom; a harmonia é um fim; a violência é ilegítima em todas as situações; o belo é bom, e o bom é verdadeiro…

 

Enfim, há uma série desses mitos modernos [alguns deles medievais, outros quase que ancestrais]. E todos eles baseiam-se na mais perniciosa forma de embotamento das vontades e das consciências: cristalizar verdades e congelar o mundo tal qual ele é.

 

O mundo pós-moderno é repleto de dicotomias enganosas, minado por engodos e meias-verdades e enrijecido por pensamentos acríticos e acrílicos. Esquartejar falsas unidades é uma das tarefas fundamentais das inteligências no século XXI.

 

Panfleto

 

Unindo as duas idéias: essa de que devemos sabatinar os embustes do pensamento e aquela de que devemos negar aquilo que nos animaliza e nos faz menos humanos, passemos ao nosso panfleto de hoje:

 

O belo pode ser odioso.

 

Ao contrário da visão embevecida e alienada que concebe o belo como elemento da natureza, e sobre o qual devem recair apenas os nossos sentidos, o que está em jogo aqui é a velha receita hegeliana para a qual é possível, sim, estabelecer uma filosofia para a arte e, por conseqüência, para o belo.

 

E, extrapolando esse conceito, se é possível estabelecer uma filosofia para o belo, será possível também conceber uma ética para o belo.

 

Não se poderia esperar que uma árvore pudesse retorcer seu tronco para atender ao gosto jônico ou ao dórico; mas é possível pensar que um homem seja capaz de fazer apologia ao humano, e que possa evitar a disseminação da barbárie em seus escritos, pinceladas e acordes. Cabe ao homem a tarefa de não encapsular o mau no belo; de não servir, a seu semelhante, maçã lustrosa e envenenada.

 

E não falamos apenas da Estética ou do belo nas artes. Quando nos referimos a uma ética do belo, referimo-nos, sobretudo, a uma série de situações cotidianas em que a beleza arbitra escolhas e comportamentos na vida social.

A questão de uma ética para o belo está parcialmente posta, quando afirmamos que a construção da beleza deve seguir certos preceitos; porém, é necessário que reflitamos também sobre a recepção da beleza, e não apenas sobre os modos de sua produção.

 

Em parte, a valoração sobre o que é ou não belo está no olhar daquele que percebe a beleza. Isto ocorre, porém, num ambiente em que – desgraçadamente – a fruição é acéfala. Justamente por existir aquela visão que concebe a beleza como dado do mundo natural, e não do mundo da cultura, é que se tem uma percepção do belo que passa mais pela pelve do que pela razão.

 

Essa beleza que seduz nossas vísceras, mas que ofende nossa razão é aquela que pode tornar o belo odioso. E é esse belo irracional e irrefletido que deve ser convertido em refugo por nossa vigilância intelectual.

 

Reagir bestialmente ao belo, mais uma vez, é desabotoar a castidade da civilização, romper o pacto que nos faz homens e não coisas. Esse belo fantasmal é uma das mistificações contemporâneas que devemos combater.

 

O belo – em seu ilusionismo sensorial – pode aviltar, corromper e destruir.

E é pelo exemplo de outro francês – um tanto menos afortunado – que devemos rejeitar nossa faceta instintiva e primata: precisamos repudiar com tenacidade a vilania pirotécnica e estéril de Nicolas Sarkozy.

 

A beleza de Carla Bruni é um estratagema do Poder; a capacidade que a modelo italiana tem de seduzir sensualmente os olhos e o sexo dos homens, e de ser invejada pelas mulheres por se constituir como protótipo de glamour e bom gosto é hedionda e precisa ser refutada.

 

O rastro afrodisíaco que Carla Bruni destila deve ser repelido por nosso senso de justiça e discernimento. O brilho obsceno de seus olhos é uma afronta ao olhar ameno de todas as mães argelinas.

 

Os olhos dos jovens franceses, que em 2006 lutaram contra a lei do primeiro emprego e contra as investidas liberalizantes de flexibilização das leis do trabalho, e os olhos dos imigrantes que, em 2005, atearam fogo em carros na periferia de Paris e de outras cidades da França… esses olhos tornam-se cada vez mais opacos, quando um flash é disparado e rebrilha na íris de Carla Bruni e ricocheteia no nariz odunco de Sarkozy.

 

Essa invenção midiática não passa de um emplastro com gosto de morango. Rícino temperado com groselha para nos iludir o paladar e fazer passar goela abaixo o apostolado reacionário e xenófobo, desse que é umas das mais execráveis líderes políticos vivos.

 

Fazem falta, aos líderes africanos do Sudão e do Zimbábue, esposas assim – capazes de desviar o foco da opinião pública internacional para longe de suas intempestivas arbitrariedades e de tornarem suas ditaduras ordinárias, mas bonitinhas.

 

Tudo isso parece óbvio e já exaustivamente esmiuçado. Porém, num mês em que os muros de Wall Street caem e as páginas econômicas passam a ser o norte da paranóia mundial, talvez seja conveniente acusar o fato de que a crônica desse holocausto está mais bem espelhada nas páginas frívolas e obsedantes das Vanity Fair’s e afins, que retratam brancas de neve, Brunis e Sarkozys como arautos de um mundo silvestre e sem limites.

 

O sindicato dos alfaiates

setembro 15, 2008

Uma de minhas primeiras lições de humildade se deu em um campo fértil de perversidade e humilhação: a infância.

 

Em 1988, vivíamos tempos em que – com as olimpíadas de Seul – ainda aprendíamos as regras do vôlei. Era difícil compreender por qual motivo a imensa maioria dos jogadores (excetuando-se um simpático bigodudo chamado Bernard) não praticava aquilo que, para meu pai, fazia todo sentido do mundo ser a regra do esporte: a jornada nas estrelas.

Ponto número um: a exceção não pode ser regra, sob risco de deixar de ser exceção.

 

Muito embora esse já seja um aprendizado tristemente doloroso, eivado que é de uma inconformante dose de conservadorismo, voltemos àquela que foi a grande lição: em 1988, no auge da quarta séria primária, vivíamos sem saber – como crianças que éramos – a festa colorida do fim da história.

 

Era mentira, é bem verdade, pois a história não acabou e nem nunca vai acabar, a despeito do que alardeiem os apologetas do engodo liberal.  Porém, naquele momento, presenciávamos o arco-íris do que se vendeu como sendo o fim-da-era: podíamos ter tudo.

 

Eu sequer sabia o que viria a ser o consenso de Washington, nem quem era Margaret Thatcher, nem podia imaginar o que ela tinha a ver com o muro que cairia no ano seguinte. Contudo, na festa de final de ano da escola, tivemos a maquete do que foram aqueles tempos.

Era para ser apenas uma festinha de amigo oculto, entre 27 crianças semi-abastadas e uma professorinha chamada Ivanilde. Aquele troca-troca inocente de presentes foi a minha primeira e escandalosa visão do mundo do consumo. Todos aguardavam, em frenesi, por seus bibelôs coloridos, seus carrinhos de fricção, e seus LPs da novela Vale Tudo, que – exibida de 16 de maio de 1988 até 6 de janeiro de 1989 (um viva ao wikipédia!) – trouxe a banalização da impunidade e da corrupção aos lares brasileiros.

 

Quanto a mim, não poderia ser diferente. Eu também desejava ardentemente um presente batuta e de preferência com uma embalagem lustrosa e enorme, para brilhar dentro da grande feira livre da concorrência e da disputa, que é a escola pequeno-burguesa.

 

Eu não possuía muitos elementos e idade para não me deixar seduzir por aquele modelo. Ainda eram muito recentes os esforços de meu pai em tornar-me um homem crítico (um ano depois ele me apresentaria à cachorra Baleia, de “Vidas Secas”, e seu focinho ensangüentado com as carnes de um preá, e à vermelhidão da consciência de que – em muitas casas – existia a fome).

Além disso, eu ainda não havia travado contato com as professoras que, no ginásio, subverteriam meu pensamento e me instigariam a ver, até nas aulas de religião, um pretexto para glorificar o povo oprimido da América Latina e ensejar uma revolução libertadora.

 

Portanto, estava armada a bestialidade. Na manhã em que ocorreu o amigo secreto, fui até o colégio com um embrulho bem feito, a ornar o que as economias de minha mãe puderam comprar. Não tive muita sorte, havia tirado o nome de um garoto meio soberbo – ele já trouxera para a escola, na terceira série, uma foto da torre Eiffel, haveria de ser figura de gostos finos, pensava eu – por isso tinha medo que ele pudesse achar o meu presente besta. Mas, como quase toda criança mimada, ele era tonto e caiu na armadilha do carrinho vagabundo, mas barulhento e cheio de lâmpadas.

Eu só precisava esperar: eu também era tolo e estava ansioso por minha quinquilharia barulhenta, de preferência entregue por uma das duas impúberes beldades da sala.

Fiasco!

Eis que o temível ocorreu: quem pronunciou o meu nome – debaixo do interrogatório do advinhe-quem-é-boçal-dos-jogos-de-amigo-secreto – foi aquela que julgávamos ser, na nossa arrogância infantil, a garota mais feia da classe.

 

Uma figura quasímoda e escamosa – sob o capacho das espinhas e do aparelho nos dentes – veio até mim com um pacote anódino, murcho e sem graça. Gago, eu me desesperei. Diante da pergunta plácida e calma que ela me fez – consegue advinhar o que é? – eu apalpei aquela embalagem sem forma na esperança de perceber a silhueta de algo valoroso, que compensasse o aparente vexame.

Ao abrir o embrulho, porém, o meu desespero, sob os olhos inquisidores daqueles outros 25 déspotas do consumismo-mirim, transformou-se num agudo ponto de interrogação:

 

 – O que é iisso? – disse eu com voz trêmula e apagada.
 – Uma fazenda! – respondeu ela, em tom ufanista e afável.

 

Àquela altura, todos nós já nos reuníamos em volta daquele pedaço de dois metros quadrados de pano cinza.

 

– Uma fazenda?
 – Sim. Um tecido!!!!!!!

– Ahhh, táá! Obrigado!!! – respondi, um tanto estarrecido e fazendo uso daquilo que eu não sabia se chamar hipocrisia.

Com ele você pode fazer uma calça, um terninho… o que você quiser! – disse ela candidamente – Minha mãe pode costurar pra você!

Ocultando a minha vergonha por não saber que fazenda também é o nome que se dá para tecido e, atordoado com aquele que para mim parecia ser um presente-muxoxo, resignei-me e fui para o canto esquerdo da sala.

E nunca mais saí desse canto, e foi nesse canto esquerdo da vida que eu aprendi – ao amadurecer – que esse foi o mais providencial presente que poderia ter recebido. Foi aquela a minha primeira aula de humildade; mais do que a calça que usei em meia dúzia de batizados e aniversários, o que aquela garota me deu foi a minha primeira oficina literária e jornalística.

 

Eu estava ainda distante de meu destino de tecedor de textos e enredos, porém ela já me deu, ali, alguns dos fios para coser o meu projeto de homem. Aquele trapo cor de chumbo foi minha primeira visão da poesia; minha primeira miragem sobre como, pelo artifício da costura, compor a realidade material das idéias informes.

 

Aquele presente de grego foi a minha primeira aula sobre política e estética; antecedeu em muitos anos os ensaios de Hegel, Lukács, Benjamin, na tarefa de me ensinar a prevalência da forma sobre o conteúdo, e resumir o sentido da dialética.

 

Foi aquele o meu primeiro e salutar gestus brechtiano: perfeita síntese das contradições do meu tempo, que ainda estão a espera de serem desfiadas, desenoveladas, e re-tecidas.

 

(* ) esse título – O sindicato dos alfaiates – foi inspirado num texto de Natália Ciotto, leitora desta pagina, a quem agradeço.