

Texto
Foi de um francês a lição: ao censurar o seu apetite pelo incesto, o homem se fez civilizado. Lévi-Strauss nos ensinou que ao transcendermos a dimensão natural da existência – ao interpormos, frente a desejos de base instintiva, uma restrição arbitrada por valores intelectual e simbolicamente construídos – inauguramos o mundo da cultura.
E isso é bom ou ruim? – perguntaria um incauto.
Ao expormos o conceito desta maneira, apelando para termos como censurar e restringir, podemos passar a idéia de que o advento da civilização foi uma violência à pax natural. Eis um argumento que nos atinge, sobretudo em tempos em que a lógica da vida civilizada se confunde com a prática de um mundo desumanizado pela ação corrosiva do capital.
Mas não façamos confusão: foi justamente devido a essa capacidade – de pôr à frente de quaisquer determinismos biológicos um ideal compartilhado de bem-estar coletivo e culturalmente acordado entre os viventes – que atingimos nossa condição de humanidade. No fim das contas, o vale-tudo do capitalismo só faz emular a selvageria que faz da busca pelo poder o símbolo máximo da libido dominandi.
Nesta defesa do homem e da civilização, não perdemos de vista, obviamente, a forma arrogante com que temos lidado com a natureza. O aquecimento global e os demais indícios da nossa ação predatória só demonstram que ainda temos agido de modo incestuoso em relação ao planeta.
Precisamos, pois, celebrar esse princípio tautológico que nos consagra: para afirmar o que somos, é necessário negar aquilo que não devemos ser.
Para ratificar o que em nós é humano precisamos renunciar àquilo que nos animaliza, àquilo que nos faz perder o horizonte da humanidade como um projeto.
É preciso rejeitar com veemência uma série de valores que nos corrompem. Recusar com radicalidade as seduções que nos acossam e nos sujeitam a perder aquilo que nos constitui é tão salutar quanto lutar por políticas afirmativas – em questões de preservação das soberanias e das identidades nacionais, em contendas étnicas, raciais e de gênero, por exemplo.
Contexto
Porém, esse jogo de afirmar e negar não é tão simples. Sobretudo porque, quase sempre, aquilo de que devemos nos desvencilhar está [ou aparenta estar] cancerigenamente atado àquilo que devemos preservar. O corpo doente adquire uma perigosa aderência ao corpo são: constitui-se uma arriscada unidade que, sob risco de morte, exige a precisão absoluta do corte.
Nesses termos, a questão parece adquirir certa aura religiosa e dual; bastaria colorir o mundo com os pincéis do bem e do mal e seguir o manual de boa conduta dos primatas bem comportados, que não comem banana com casca nem praticam o adultério.
Nada mais fácil de driblar do que os anjos e os diabos; com um safanão eles tombam em pleno vôo, feito libélulas imprevidentes. Difícil é exorcizar os espíritos da ambigüidade: os anjos demoníacos e os capetinhas angelicais. Os famosos lobos em pele de cordeiro; e – porque não – as ovelhas que rangem dentes para se fazerem passar por lobos.
Não poderíamos esperar, é claro, nutridos por mentalidades e ideologias totalizantes, que a realidade atual fosse pouco complexa, porém não se pode confundir complexidade com ambivalência maliciosa.
Sobretudo em tempos de relativismo ético, é preciso estarmos atentos aos elementos que nos confundem, que nos nublam o senso crítico.
Eis algumas de nossas mistificações correntes: a arte engajada é esteticamente limitada; o novo é bom e o antigo é mau; o novo é mau e o antigo é bom; a harmonia é um fim; a violência é ilegítima em todas as situações; o belo é bom, e o bom é verdadeiro…
Enfim, há uma série desses mitos modernos [alguns deles medievais, outros quase que ancestrais]. E todos eles baseiam-se na mais perniciosa forma de embotamento das vontades e das consciências: cristalizar verdades e congelar o mundo tal qual ele é.
O mundo pós-moderno é repleto de dicotomias enganosas, minado por engodos e meias-verdades e enrijecido por pensamentos acríticos e acrílicos. Esquartejar falsas unidades é uma das tarefas fundamentais das inteligências no século XXI.
Panfleto
Unindo as duas idéias: essa de que devemos sabatinar os embustes do pensamento e aquela de que devemos negar aquilo que nos animaliza e nos faz menos humanos, passemos ao nosso panfleto de hoje:
O belo pode ser odioso.
Ao contrário da visão embevecida e alienada que concebe o belo como elemento da natureza, e sobre o qual devem recair apenas os nossos sentidos, o que está em jogo aqui é a velha receita hegeliana para a qual é possível, sim, estabelecer uma filosofia para a arte e, por conseqüência, para o belo.
E, extrapolando esse conceito, se é possível estabelecer uma filosofia para o belo, será possível também conceber uma ética para o belo.
Não se poderia esperar que uma árvore pudesse retorcer seu tronco para atender ao gosto jônico ou ao dórico; mas é possível pensar que um homem seja capaz de fazer apologia ao humano, e que possa evitar a disseminação da barbárie em seus escritos, pinceladas e acordes. Cabe ao homem a tarefa de não encapsular o mau no belo; de não servir, a seu semelhante, maçã lustrosa e envenenada.
E não falamos apenas da Estética ou do belo nas artes. Quando nos referimos a uma ética do belo, referimo-nos, sobretudo, a uma série de situações cotidianas em que a beleza arbitra escolhas e comportamentos na vida social.
A questão de uma ética para o belo está parcialmente posta, quando afirmamos que a construção da beleza deve seguir certos preceitos; porém, é necessário que reflitamos também sobre a recepção da beleza, e não apenas sobre os modos de sua produção.
Em parte, a valoração sobre o que é ou não belo está no olhar daquele que percebe a beleza. Isto ocorre, porém, num ambiente em que – desgraçadamente – a fruição é acéfala. Justamente por existir aquela visão que concebe a beleza como dado do mundo natural, e não do mundo da cultura, é que se tem uma percepção do belo que passa mais pela pelve do que pela razão.
Essa beleza que seduz nossas vísceras, mas que ofende nossa razão é aquela que pode tornar o belo odioso. E é esse belo irracional e irrefletido que deve ser convertido em refugo por nossa vigilância intelectual.
Reagir bestialmente ao belo, mais uma vez, é desabotoar a castidade da civilização, romper o pacto que nos faz homens e não coisas. Esse belo fantasmal é uma das mistificações contemporâneas que devemos combater.
O belo – em seu ilusionismo sensorial – pode aviltar, corromper e destruir.
E é pelo exemplo de outro francês – um tanto menos afortunado – que devemos rejeitar nossa faceta instintiva e primata: precisamos repudiar com tenacidade a vilania pirotécnica e estéril de Nicolas Sarkozy.
A beleza de Carla Bruni é um estratagema do Poder; a capacidade que a modelo italiana tem de seduzir sensualmente os olhos e o sexo dos homens, e de ser invejada pelas mulheres por se constituir como protótipo de glamour e bom gosto é hedionda e precisa ser refutada.
O rastro afrodisíaco que Carla Bruni destila deve ser repelido por nosso senso de justiça e discernimento. O brilho obsceno de seus olhos é uma afronta ao olhar ameno de todas as mães argelinas.
Os olhos dos jovens franceses, que em 2006 lutaram contra a lei do primeiro emprego e contra as investidas liberalizantes de flexibilização das leis do trabalho, e os olhos dos imigrantes que, em 2005, atearam fogo em carros na periferia de Paris e de outras cidades da França… esses olhos tornam-se cada vez mais opacos, quando um flash é disparado e rebrilha na íris de Carla Bruni e ricocheteia no nariz odunco de Sarkozy.
Essa invenção midiática não passa de um emplastro com gosto de morango. Rícino temperado com groselha para nos iludir o paladar e fazer passar goela abaixo o apostolado reacionário e xenófobo, desse que é umas das mais execráveis líderes políticos vivos.
Fazem falta, aos líderes africanos do Sudão e do Zimbábue, esposas assim – capazes de desviar o foco da opinião pública internacional para longe de suas intempestivas arbitrariedades e de tornarem suas ditaduras ordinárias, mas bonitinhas.
Tudo isso parece óbvio e já exaustivamente esmiuçado. Porém, num mês em que os muros de Wall Street caem e as páginas econômicas passam a ser o norte da paranóia mundial, talvez seja conveniente acusar o fato de que a crônica desse holocausto está mais bem espelhada nas páginas frívolas e obsedantes das Vanity Fair’s e afins, que retratam brancas de neve, Brunis e Sarkozys como arautos de um mundo silvestre e sem limites.