Arquivo da categoria ‘poesia’

A fome que faz caminhar

Outubro 19, 2009

o sistema ambulacral nas estrelas do mar
o sistema ambulacral
é o que de mais poético
e menos científico
restou nas estrelas do mar.

o que as firmava no firmamento
– fixas, acorrentadas e tristes –
era uma frágil convicção de guia,
uma vaga vocação de farol
a orientar alheio passo.

um dia, a estrela resolveu migrar
cadente
e foi, então, viver no mar.

e o que alimentava a estrela,
em princípio,
foi o que a fez andar

ambulacral –
faminta e ambulante –
a traçar o próprio passo.

Guatemaltecas

Outubro 8, 2009

Cada um com sua sombra

Amanhece.

O sol come a neblina
e começa a pintar
caminhos,
árvores,
casinhas,
bichos,
gente…

E pra casa um
faz uma sombra.

Na poça

Na poça
havia muitas estrelas;
pedi a meu pai
que as tirasse dali.

Ele removeu a água
gota a gota
e pôs as estrelas
nas minhas mãos

Ao amanhecer
eu queria saber se era verdade
que ele as havia tirado da poça.

E era verdade, na poça
só restava o céu.

(Humberto Ak’Abal)

Ubaldiurnas

Outubro 6, 2009

A prece de um fraco

Que luz…
Que alacridade…
Que plenitude…

Tudo é lindo
Muito lindo
Muito bom
Demais até
Pra durar muito.

Entretanto…
                     da luz fica o reflexo
                     da alegria, a lembrança
                     da plenitude , o vazio.

E assim…
Lentamente,
Cruelmente,
           chegas.

Invades tudo.

Reinas
Sozinha
Mesquinha.

Até quando?

Por que não te vais?

Não te suporto mais

Outros te esperam.

E a mim

Ingrato
Sei que dirás.

Mas…
Perdão!
Eu quero
                   é viver
                            e
                    não recordar!

Sensibilidade

Na
Enxurrada
Rápida
Barrenta
E suja
Vai uma  flor.

                  As crianças que brincam
                                      não a percebem.

                  Os velhos que passam
                                   não a enxergam.

Somente eu
Da minha janela
Entristeço-me.

                  A flor desaparece
                          esfacelada
             na boca de um esgoto.

(in O camelo ancorado)

Ubaldo Luiz de Oliveira (1944-2009) foi professor de português no curso de madureza do Santa Inês, no Colégio Bandeirantes, entre outras escolas, e escreveu o livro de poemas “O Camelo Ancorado” e os estudos “Estrutura Sintática da Frase” e “Gramática Objetiva”.

“A poesia do futuro”

Agosto 28, 2009

“A revolução social do século XIX
não pode tirar sua poesia do passado,
e sim do futuro.
Antes a frase ia além do conteúdo;
agora é o conteúdo que vai além da frase.”

Karl Marx (18 Brumário)

a poesia do futuro

Reduzir-se

Agosto 17, 2009

Diante dos tratoristas, vou fazer o que me recomendou o homem de teatro que leu Brecht e soube o significado de vesperar.

em forma de balde de gelo
“Quando o pensador se viu diante de uma grande tempestade

Estava sentado num grande veículo e ocupava muito espaço

A primeira coisa que fez foi sair do veículo

A segunda foi tirar seu casacão

A terceira foi deitar-se no chão

Assim o pensador venceu a tempestade
Reduzido à sua menor grandeza

Reduzido à sua menor grandeza
O Pensador venceu a tempestade”

[Bertolt Brecht]

Mas o hóspede inconvidado

Agosto 17, 2009

laura laine

Mas o hóspede inconvidado
Que mora no meu destino,
Que não sei como é chegado,
Nem de que honras é digno
Constrange meu ser de casa
A adaptações de disfarce

(Fernando Pessoa)

por Laura Laine

O móvel no imóvel

Agosto 16, 2009

O haver

Agosto 11, 2009

simples, simples, simples…

Sentipensante II

Agosto 9, 2009

falta-um-pouco-de-vermelho

Alegria

Agosto 3, 2009

circo I, iluminura de Martha Barros, filha do poeta Manoel de Barros

Defender la alegría como una trinchera
defenderla del escándalo y la rutina
de la miseria y los miserables
de las ausencias transitorias
y las definitivas

defender la alegría como un principio
defenderla del pasmo y las pesadillas
de los neutrales y de los neutrones
de las dulces infamias
y los graves diagnósticos

defender la alegría como una bandera
defenderla del rayo y la melancolía
de los ingenuos y de los canallas
de la retórica y los paros cardiacos
de las endemias y las academias

defender la alegría como un destino
defenderla del fuego y de los bomberos
de los suicidas y los homicidas
de las vacaciones y del agobio
de la obligación de estar alegres

defender la alegría como una certeza
defenderla del óxido y la roña
de la famosa pátina del tiempo
del relente y del oportunismo
de los proxenetas de la risa

defender la alegría como un derecho
defenderla de dios y del invierno
de las mayúsculas y de la muerte
de los apellidos y las lástimas
del azar
y también de la alegría

Mario Benedetti