Arquivo da categoria ‘Livre pensar’

A fome que faz caminhar

Outubro 19, 2009

o sistema ambulacral nas estrelas do mar
o sistema ambulacral
é o que de mais poético
e menos científico
restou nas estrelas do mar.

o que as firmava no firmamento
– fixas, acorrentadas e tristes –
era uma frágil convicção de guia,
uma vaga vocação de farol
a orientar alheio passo.

um dia, a estrela resolveu migrar
cadente
e foi, então, viver no mar.

e o que alimentava a estrela,
em princípio,
foi o que a fez andar

ambulacral –
faminta e ambulante –
a traçar o próprio passo.

Ao meio dia

Outubro 19, 2009

kiwi
O sol está a pino

e eu me compadeço
da noite chinesa.

Uma noite difícil

Outubro 19, 2009

o mar existe
e a água mundial
não se resume
àquela que agora cai
em forma de chuva

aqui

o sol nascerá
novamente
e há outras vidas
agora mesmo
vivas e por nascer
e morrer
noutros cantos
que não este

mas nada impede
que a noite me faça sentir
ínfimo
e,
insularmente, só

A produção social da angústia

Outubro 19, 2009

Nessa e noutras noites insones,
algo que me preocupa.

angústia equestre

Com cores

Outubro 14, 2009

inventando o próprio chão
“escuta, meu irmão, escuta este silêncio. O erro da pessoa é pensar que os silêncios são todos iguais. Enquanto não: há distintas qualidades de silêncio. É assim o escuro, este nada apagado que meus olhos tocam: cada um é um, desbotado à sua maneira.”

(de O cego estrelinho, em Estórias Abensonhadas de Mia Couto)

Diálogo ao pesto

Outubro 11, 2009

mãe Brecht Zorate
permaneceram muito tempo em silêncio
juntos e separados; atados, hiatados.

veio o pequeno almoço.
veio o café da tarde.
e o silêncio era uma nata.

até que, numa imprecisa hora,
ela foi até a cozinha e mastigou
o viço de uma folha de manjericão.

suficiente.

o hálito se insinuou,
travestido de palavra,
e ele, enfim,
voltou a reparar nela.

fogo e carvão

Outubro 4, 2009

irène jacob, rouge
quanto desse fogo é manso?
quanto desse minério, gasto?

parece que teu mais rubro tendão
é a mais lendária cinza, em carvão.

mais incendiário é um fogo não queimado,
mais vivo e cálido em memória, imaginário.

irène jacob, noir

O nosso time

Setembro 13, 2009

para a minha querida mulher desportoperária

O nosso time é feito de quais?

Quais homens?
Quais propósitos?

Se contra todas a vendas
– Que ocultam as vistas
Que vendem as vidas –
Seguimos acreditando na justiça?

Seguindo a certeza de que algo nos faz iguais?

o mural alto no nosso coração
O meu ombro é terra fértil
Para a chuva da tua lágrima

E o nó da tua garganta é o botão
que desata a dor em flor.

Flores para ti e para aqueles outros corações
Que — como nós — ainda acreditam na justiça.

a memória do nosso desejo

A torre

Setembro 11, 2009

kisses, por Shelley Grund

Construí uma torre por dentro
Com espaço para abrigar corredores e vento.

Solidez aerada para não interferir na paisagem.

Maçanetas de prata argentina foram proibidas.
Não queria um belo vistoso que escondesse
em seu brilho
escravo trabalho.

Das minhas aspirações intelectuais

Agosto 23, 2009

conversa humilde e prazenteira com os escritores Mia Couto e Fábio Salem Daie

“era absolutamente original; combinava erudição e sintonia permanente com o que acontecia no mundo; aliava sensibilidade estética a rigor filosófico; temperava ousadia e equilíbrio, imaginação e prudência; criatividade e fidelidade à tradição; engajamento político e independência; produção acadêmica fiel aos cânones e autonomia, tanto na escolha dos temas, quanto na maneira de tratá-los; diálogo com seu pares universitários e participação no debate público; espírito crítico ferino e humildade ante o pluralismo de opiniões; firme em suas posições e tolerante com as diferenças; convicção e responsabilidade.”

[descrição sobre o perfil da cientista política Hannah Arendt feita pelo professor Luiz Eduardo Soares em seu artigo Hannah Arendt e sua receita para tempos sombrios]

“as qualidades de uma boa conversa deveriam ser a polidez sem fingimento, a franqueza sem rispidez, a erudição sem pedantismo, o rigor sem aridez e, sobretudo, a disposição sincera de cooperar na busca do saber. Afinal, eles se perguntaram, o que os impedia de, sem perder a leveza e o bom humor, perseguir com afinco a verdade? O sério não é sinônimo de soturno, assim como o profundo não o é de obscuro. La gaya scienza. Se a busca do saber não precisa ser sisuda, a alegria da convivência não precisa ser frívola.”

[descrição sobre as qualidades do diálogo, da arte da conversação, feita pelo economista e professor Eduardo Giannetti em seu livro Felicidade]