Arquivo da categoria ‘Literatura’

mini-manifesto anti-aristotélico

Setembro 16, 2009

por Haruki Murakami
Sob luz crepuscular, e no caminho da escola, o aluno lê a “Filosofia da composição” e ouve um rumor:
 
Poe
Põe, na
Poeira do
Poente, a
Poesia em eixos
chatos

“A call to arms”

Agosto 18, 2009

do jardim dos namorados...

“Toda estória se quer fingir verdade. Mas a palavra é fumo, leve de mais para se prender na vigente realidade. Toda verdade aspira ser estória. Os factos sonham ser palavra, perfumes fugindo do mundo. Se verá neste  caso que só na mentira do encantamento a verdade se casa à estória.”

[Mia Couto, em Estórias Abensonhadas]

“A liberdade”

Agosto 12, 2009

“Há algum tempo, no mercado, comprei um peixe vermelho num vaso redondo de vidro transparente. O espaço era pouco, nem se podia falar em nadar. E eu tinha pena de vê-lo bater continuamente o focinho no vidro. Era evidente que, mesmo repetidas, as desilusões nunca o convenceram da inutilidade de seus esforços para se evadir.

Compadecido, decidi dar-lhe uma casa menos estreita. E mandei construir no jardim um belo tanque redondo com três metros e meio de diâmetro e profundidade de meia perna. Quando o tanque ficou pronto, enchi-o de água fresca e ia emborcar nele o peixinho quando pensei: atualmente, ele se encontra em água quase morna, se o atiro de repente na água fria, não terá uma congestão? Para evitar tal risco, adotei uma solução muito simples. Coloquei suavemente no fundo, tal como se encontrava, o vaso de vidro, deixando dentro dele a água e o peixinho. Com duas vantagens: primeiro, o bichinho podia se aclimatar à baixa temperatura do tanque, segundo, sua alegre surpresa seria maior, inesperada e sem choques quando, subindo à superfície, como fazia freqüentemente, percebesse que a água não acabava ali, que a prisão não era mais prisão e que, ao redor, estendia-se um grande oceano à sua disposição.

Assim aconteceu. Quando o vaso foi colocado no fundo, por algum tempo o peixe continuou a bater o nariz contra o vidro, depois, tendo subido casualmente à embocadura do vidro, debruçou-se timidamente, e, finalmente, não encontrando nenhum obstáculo, começou uma correria louca de um lado para o outro do tanque, entusiasmado com a inesperada liberdade.

Essa alegria durou uns dois dias. Três manhãs mais tarde, quando fui ver como estava, fiquei petrificado ao vê-lo entocado no vaso que esquecera no tanque. Estava muito quieto, balançando-se na metade do vaso, não batia mais a cabeça contra a parede como antes. ”Capricho de peixe!”, pensei. “Mesmo os presidiários libertados, freqüentemente, desejam voltar, para uma breve visita, à prisão onde passaram tantos anos de tão amarga clausura.”

Mas não foi uma breve visita. Mesmo à noite, o peixe permanecia dentro do vidro, como no dia seguinte, e no terceiro dia consecutivo. Perdi a paciência e lhe disse:

– Caro peixe, desculpe, mas parece que agora você passou das medidas! Gastei um dinheirão para que pudesse nadar à vontade, de tanta pena de vê-lo sempre fechado naquele mísero vaso, e você volta ao vaso e nele passa dias inteiros, como se não lhe importasse nada estar livre. Juro que você me desanima!

Então (é uma mentira que os peixes são mudos, eles apenas têm certa dificuldade na pronúncia dos “erres”), o animalzinho me respondeu:

– Ó homem, como você é pouco inteligente, e perdõe minha sinceridade. Que estranha é sua idéia de liberdade. Não é o uso da liberdade que importa, aliás ela é, geralmente, uma coisa insossa e extremamente vulgar. O que importa é a possibilidade de usá-la. Aqui está o seu requintado sabor. Gosto de estar nesse vaso, que é tão íntimo e calmo, propício às meditações solitárias. Mas sei que, quando quiser, posso sair e fazer longas viagens no tanque (pelo qual, entre parênteses, sou extremamente grato).

“Este vaso era uma prisão e agora não o é mais, eis a diferença. Não apenas isso. Permanecendo aqui no meu cantinho, estou vivendo, do ponto de vista material a mesma vida de outrora, quando era prisioneiro e infeliz. Mas justamente isto me permite gozar a felicidade atingida. Assim, de fato, esqueço as penas já sofridas, da comparação extraio uma consolação sempre nova e evito que o hábito da vastidão anule pouco a pouco o seu gosto. Estou no cárcere, mas a porta está aberta e vejo, lá fora, o mundo intenso que me espera e tal vista acalma meu coração. Se, ao contrário, para desfrutar avidamente do bem recebido pela sorte, eu corresse, de um lado para outro, o dia inteiro, sem parar nunca, num certo momento estaria enfastiado. E a satisfação cessaria. E começaria a desejar mares cada vez maiores, vastidões cada vez mais ilimitadas, o que hoje não acontece. Em resumo, eu voltaria a ser infeliz. Veja, portanto, que ninguém sabe gozar a divina liberdade mais do que eu. E agora, se quiser me fazer uma gentileza, deixe-me tranqüilo no meu canto.”

E eu, com a sensação de ter feito uma péssima figura, retirei-me, balbuciando vagas desculpas.”

[Dino Buzzati, em Naquele exato momento]

O haver

Agosto 11, 2009

simples, simples, simples…

Alegria

Agosto 3, 2009

circo I, iluminura de Martha Barros, filha do poeta Manoel de Barros

Defender la alegría como una trinchera
defenderla del escándalo y la rutina
de la miseria y los miserables
de las ausencias transitorias
y las definitivas

defender la alegría como un principio
defenderla del pasmo y las pesadillas
de los neutrales y de los neutrones
de las dulces infamias
y los graves diagnósticos

defender la alegría como una bandera
defenderla del rayo y la melancolía
de los ingenuos y de los canallas
de la retórica y los paros cardiacos
de las endemias y las academias

defender la alegría como un destino
defenderla del fuego y de los bomberos
de los suicidas y los homicidas
de las vacaciones y del agobio
de la obligación de estar alegres

defender la alegría como una certeza
defenderla del óxido y la roña
de la famosa pátina del tiempo
del relente y del oportunismo
de los proxenetas de la risa

defender la alegría como un derecho
defenderla de dios y del invierno
de las mayúsculas y de la muerte
de los apellidos y las lástimas
del azar
y también de la alegría

Mario Benedetti

Magma I

Julho 9, 2009

“Cada sinal cuidadosamente evitado é uma reverência feita pela escrita ao som que ela sufoca.”

(Theodor Adorno em Noten zur Literatur)

“Novas diretrizes em tempos de paz”

Julho 7, 2009

De Epifanias do Inimigo Invisível, álbum do ilustrador angolano Daniel Lima, inpirado no filme O deserto dos tártaros, de Valerio Zurlini, adaptação do romance homônimo de Dino Buzzati

“Em seu poema à espera dos bárbaros, o grego Konstantinos Kaváfis (1863-1933) descreve um cidade-estado cujos cidadãos adiam o cumprimento de suas obrigações diárias na expectativa de uma invasão eminente (sic). A movimentação inusitada, no entanto, não se destina a preparar qualquer tipo de resistência , antes festas e honrarias aos novos senhores. No final do dia quando chega a notícia que nenhum conquistador cruzara a fronteira, inquietos, homens comuns, juízes, legisladores e até mesmo o imperador abandonam a ágora onde se reuniam a suspirar: pelo menos os bárbaros eram uma solução.

Ainda que distante tantos séculos de nós, a situação evocada por Kaváfis parece familiar. Sempre à espera de paz ou guerra deixamos para depois uma reação ao que nos desagrada por falta de uma resposta definitiva. Mas a paralisia também é uma resposta. Talvez a pior; com certeza letal: o mais reconfortante é rezar, às escondidas ou não, para que alguém tire inexoravelmente de nossas mãos o direito e a responsabilidade de decidir.”

(Bosco Brasil, do programa de sua peça Novas diretrizes em tempos de paz, montada pela diretora Ariela Goldman)

“Delinqüentes por sentimento de culpa”

Julho 2, 2009

“Uma vez me contaram de um cidadão que foi assaltado em sua casa. Até aí, nada demais. Tem gente que é assaltada na rua, no ônibus, no escritório, até dentro de igrejas e hospitais, mas muitos o são na própria casa. O que não diminui o desconforto da situação.

Pois lá estava o dito-cujo em sua casa, mas vestido em roupa de trabalho, pois resolvera dar uma pintura na garagem e na cozinha. As crianças haviam saído com a mulher para fazer compras e o marido se entregava a essa terapêutica atividade, quando, da garagem, vê adentrar pelo jardim dois indivíduos suspeitos.

Mal teve tempo de tomar uma atitude e já ouvia:
- É um assalto, fica quieto senão leva chumbo.

Ele já se preparava para toda a sorte das tragédias quando um dos ladrões pergunta: 
- Cadê o patrão?

Num rasgo de criatividade, respondeu: 
- Saiu, foi com a família ao mercado, mas já volta. 
- Então vamos lá dentro, mostre tudo.

Fingindo-se, então, de empregado de si mesmo, e ao mesmo tempo para livrar sua cara, começou a dizer:
- Se quiserem levar, podem levar tudo, estou me lixando, não gosto desse patrão. Paga mal, é um pão-duro. Por que não levam aquele rádio ali? Olha, se eu fosse vocês levava aquele som também. Na cozinha tem uma batedeira ótima da patroa. Não querem uns discos? Dinheiro não tem, pois ouvi dizerem que botam tudo no banco, mas ali dentro do armário tem uma porção de caixas de bombons, que o patrão é tarado por bombom. 

Os ladrões recolheram tudo o que o falso empregado indicou e saíram apressados.

Daí a pouco chegavam a mulher e os filhos.

Sentado na sala, o marido ria, ria, tanto nervoso quanto aliviado do próprio assalto que ajudara a fazer contra si mesmo.”

(da crônica Assaltos insólitos, de Affonso Romano de Sant’Anna.)

Fracasso

Junho 30, 2009

“No final de A educação sentimental [de Flaubert], os amigos de infância Frédéric Moreau e Charles Deslauriers se reencontram, ocasião que propicia a comparação entre seus sonhos adolescentes e aquilo em que haviam se transformado em suas vidas adultas. A justaposição é claramente desfavorável à maturidade, que em comparação parece malsucedida e malograda, o lugar da frustração de paixões pessoais pessoais e sonhos de êxito profissional. O que aproxima os dois amigos, portanto, neste epílogo do romance, é justamente a percepção, compartilhada por eles, do presente como uma falta, em contraste com a plenitude do passado, mesmo que a plenitude de uma promessa.

Nas páginas finais do romance, a narrativa demonstra como a lembrança de um passado comum e o afeto por ele pode ser constitutivo de uma amizade. As memórias vão sendo evocadas dialogicamente, com perguntas de parte a parte — ”Ainda te recordas?”, “Ainda te lembras?” — e apoio mútuo. A evocação de nomes de antigos amigos, amantes e conhecidos suscita exclamações de reconhecimento e suspiros saudosos. O reconhecimento imediato de pessoas e lugares que lhes eram familiares, bem como o afeto compartilhado por eles, sustentará o sentimento de cumplicidade entre os dois amigos e construirá uma imagem comum do passado. Em última análise, as duas vozes constróem uma narrativa sobre a perda e o efeito destruidor do tempo, lembrando o argumento de Jean-Luc Nancy de que para a construção de uma narrativa histórica é menos importante a narração de uma seqüência de eventos do que a formação de uma comunidade.

A rememoração carinhosa de Moreau e Deslauriers não é, note-se, exatamente de façanhas da juventude. Sua nostalgia é, para ser preciso, pelo futuro que um dia existiria em seu passado, e seu anseio é visivelmente por aquilo que eles, quando jovens, imaginavam que fariam quando adultos, por aquele tempo futuro que seria preenchido escrevendo romances e estudando filosofia. É a perda de um horizonte de possibilidades o que se chora, a perda da comoção que brotara do sentimento de que as portas da história haviam sido arrombadas e o previamente inimaginável poderia, enfim, se materializar. Neste caso, como em tantos outros relatos literários e historiográficos, o olhar desconsolado se volta ao passado quando o futuro não cumpre aquilo que prometera.”   

(pp 36-37 de A política da nostalgia, de Marcos Piason Natali)

gêneros

Maio 20, 2009

fio de ariadne

“Há uma maneira dramática de ver o mundo, de concebê-lo como dividido por antagonismos irreconciliáveis; há um modo épico de contemplá-lo serenamente na sua vastidão imensa e múltipla; pode-se vivê-lo liricamente, integrado no ritmo universal e na atmosfera impalpável das estações.” (Anatol Rosenfeld, in O Teatro Épico)