Arquivo da categoria ‘Hipérboles’

A fome que faz caminhar

Outubro 19, 2009

o sistema ambulacral nas estrelas do mar
o sistema ambulacral
é o que de mais poético
e menos científico
restou nas estrelas do mar.

o que as firmava no firmamento
– fixas, acorrentadas e tristes –
era uma frágil convicção de guia,
uma vaga vocação de farol
a orientar alheio passo.

um dia, a estrela resolveu migrar
cadente
e foi, então, viver no mar.

e o que alimentava a estrela,
em princípio,
foi o que a fez andar

ambulacral –
faminta e ambulante –
a traçar o próprio passo.

fogo e carvão

Outubro 4, 2009

irène jacob, rouge
quanto desse fogo é manso?
quanto desse minério, gasto?

parece que teu mais rubro tendão
é a mais lendária cinza, em carvão.

mais incendiário é um fogo não queimado,
mais vivo e cálido em memória, imaginário.

irène jacob, noir

Plasmatic

Outubro 2, 2009

Um fim não é fim
Se começo não há.
É noite-escura-sempre.
Sem big bang.

(Zé Henrique Lopes)

big bang

mini-manifesto anti-aristotélico

Setembro 16, 2009

por Haruki Murakami
Sob luz crepuscular, e no caminho da escola, o aluno lê a “Filosofia da composição” e ouve um rumor:
 
Poe
Põe, na
Poeira do
Poente, a
Poesia em eixos
chatos

O haver

Agosto 11, 2009

simples, simples, simples…

Papagaio I

Julho 27, 2009

papagaio, por Daniel Carranza

Que surpresa causa ao dono o momento em que seu papagaio lhe diz uma palavra nova, que por ele não foi ensinada.

A descoberta de que não são um só — unha e carne, unidos pelo vocabulário — traz alguma preocupação ao lar: é preciso vedar as janelas para que a falta de maneiras da vizinhança não entre em nossa casa.

E quando o dono e sua ave moram na montanha? Sem alma viva a quem se possa atribuir a novidade na língua do bicho? Nesse caso, a surpresa é maior e a solidão mais definitiva.

E o dono nunca vai saber se o papagaio é ele; ou se é feito de penas todo homem que repete as verdades que não são suas.

Paz

Julho 20, 2009

água de beber

Ah, bem melhor seria
Poder viver em paz
Sem ter que sofrer
Sem ter que chorar
Sem ter que querer
Sem ter que se dar

Ah, bem melhor seria
Poder viver em paz
Sem ter que sofrer
Sem ter que chorar
Sem ter que querer
Sem ter que se dar

Mas tem que sofrer
Mas tem que chorar
Mas tem que querer
Pra poder amar

Ah, mundo enganador
Paz não quer mais dizer amor

Ah, não existe coisa mais triste que ter paz
E se arrepender, e se conformar
E se proteger de um amor a mais

O tempo de amor
É tempo de dor
O tempo de paz
Não faz nem desfaz

Ah, que não seja meu
O mundo onde o amor morreu

Tempo de amor - (Vinicius de Moraes / Baden Powell)

Magma I

Julho 9, 2009

“Cada sinal cuidadosamente evitado é uma reverência feita pela escrita ao som que ela sufoca.”

(Theodor Adorno em Noten zur Literatur)

Querência I

Julho 3, 2009

“Delinqüentes por sentimento de culpa”

Julho 2, 2009

“Uma vez me contaram de um cidadão que foi assaltado em sua casa. Até aí, nada demais. Tem gente que é assaltada na rua, no ônibus, no escritório, até dentro de igrejas e hospitais, mas muitos o são na própria casa. O que não diminui o desconforto da situação.

Pois lá estava o dito-cujo em sua casa, mas vestido em roupa de trabalho, pois resolvera dar uma pintura na garagem e na cozinha. As crianças haviam saído com a mulher para fazer compras e o marido se entregava a essa terapêutica atividade, quando, da garagem, vê adentrar pelo jardim dois indivíduos suspeitos.

Mal teve tempo de tomar uma atitude e já ouvia:
- É um assalto, fica quieto senão leva chumbo.

Ele já se preparava para toda a sorte das tragédias quando um dos ladrões pergunta: 
- Cadê o patrão?

Num rasgo de criatividade, respondeu: 
- Saiu, foi com a família ao mercado, mas já volta. 
- Então vamos lá dentro, mostre tudo.

Fingindo-se, então, de empregado de si mesmo, e ao mesmo tempo para livrar sua cara, começou a dizer:
- Se quiserem levar, podem levar tudo, estou me lixando, não gosto desse patrão. Paga mal, é um pão-duro. Por que não levam aquele rádio ali? Olha, se eu fosse vocês levava aquele som também. Na cozinha tem uma batedeira ótima da patroa. Não querem uns discos? Dinheiro não tem, pois ouvi dizerem que botam tudo no banco, mas ali dentro do armário tem uma porção de caixas de bombons, que o patrão é tarado por bombom. 

Os ladrões recolheram tudo o que o falso empregado indicou e saíram apressados.

Daí a pouco chegavam a mulher e os filhos.

Sentado na sala, o marido ria, ria, tanto nervoso quanto aliviado do próprio assalto que ajudara a fazer contra si mesmo.”

(da crônica Assaltos insólitos, de Affonso Romano de Sant’Anna.)