Posts de Junho, 2009

Fracasso

Junho 30, 2009

“No final de A educação sentimental [de Flaubert], os amigos de infância Frédéric Moreau e Charles Deslauriers se reencontram, ocasião que propicia a comparação entre seus sonhos adolescentes e aquilo em que haviam se transformado em suas vidas adultas. A justaposição é claramente desfavorável à maturidade, que em comparação parece malsucedida e malograda, o lugar da frustração de paixões pessoais pessoais e sonhos de êxito profissional. O que aproxima os dois amigos, portanto, neste epílogo do romance, é justamente a percepção, compartilhada por eles, do presente como uma falta, em contraste com a plenitude do passado, mesmo que a plenitude de uma promessa.

Nas páginas finais do romance, a narrativa demonstra como a lembrança de um passado comum e o afeto por ele pode ser constitutivo de uma amizade. As memórias vão sendo evocadas dialogicamente, com perguntas de parte a parte — ”Ainda te recordas?”, “Ainda te lembras?” — e apoio mútuo. A evocação de nomes de antigos amigos, amantes e conhecidos suscita exclamações de reconhecimento e suspiros saudosos. O reconhecimento imediato de pessoas e lugares que lhes eram familiares, bem como o afeto compartilhado por eles, sustentará o sentimento de cumplicidade entre os dois amigos e construirá uma imagem comum do passado. Em última análise, as duas vozes constróem uma narrativa sobre a perda e o efeito destruidor do tempo, lembrando o argumento de Jean-Luc Nancy de que para a construção de uma narrativa histórica é menos importante a narração de uma seqüência de eventos do que a formação de uma comunidade.

A rememoração carinhosa de Moreau e Deslauriers não é, note-se, exatamente de façanhas da juventude. Sua nostalgia é, para ser preciso, pelo futuro que um dia existiria em seu passado, e seu anseio é visivelmente por aquilo que eles, quando jovens, imaginavam que fariam quando adultos, por aquele tempo futuro que seria preenchido escrevendo romances e estudando filosofia. É a perda de um horizonte de possibilidades o que se chora, a perda da comoção que brotara do sentimento de que as portas da história haviam sido arrombadas e o previamente inimaginável poderia, enfim, se materializar. Neste caso, como em tantos outros relatos literários e historiográficos, o olhar desconsolado se volta ao passado quando o futuro não cumpre aquilo que prometera.”   

(pp 36-37 de A política da nostalgia, de Marcos Piason Natali)

Resistência matutina

Junho 30, 2009

Esteban Felix/AP - Apoiadores do presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya

A padaria está de portas abertas e é da fornada, é do pão, é do apetite do trabalhador vizinho que o poeta tira seu fermento.

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Embora opaca, a espuma sobre o café age qual espelho: faz caboclo olhar dentro e ver-se.

***

Ver-se é o início do verso. O resto é lembrar de ti e conjugar rebelião.

A gratidão é impossível

Junho 27, 2009

nunca será inteira
nunca será justa

Sempre há causas silenciosas
Sempre há causas silenciadas

Sempre há responsáveis modestos
Sempre há responsáveis amordaçados

nunca haverá só varanda
sempre haverá sótão

O narciso e a fobia social

Junho 27, 2009

A minha vaidade é um monstro
e gigante.

A minha vaidade é um monstro
e mudo.

Um bicho que só sabe acenar.

sombra arreal

meia lua

Junho 25, 2009

janela

Se o espaço é curvo,
o coração também é.

Sangria

Junho 24, 2009

bem estar absoluto

é bom estar em estado comovido.

não emoção: comoção.
sentir-se integrado com a beleza e o absurdo do mundo.

esses momentos bons de recordar, fazem da memória não apenas lembrança, lembrancinha…

fazem da recordação um verdadeiro presente com embrulho e fita.

corpo

Junho 11, 2009

invejo quem, em dia de corpus christi,
consegue formalizar sua fé num desenho.

minha crença é feita de material rarefeito,
disforme.
quem dera fosse qual colorida serragem.

corpus christi

O que a vida me deve

Junho 3, 2009

No momento, quase nada.

Após uma leve topada, com a unha do dedão do pé direito descolada, presa apenas pela base, eu diria que a vida não me deve quase nada.

Somente espero – ansiosa, porém, humildemente – que me nasça outra unha por baixo.