Reedições do meu cansaço

Julho 4, 2009 by Rodrigo

Cântico Negro

“Vem por aqui” – dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui”!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: “vem por aqui”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí.

José Régio, Poemas de Deus e do Diabo (1925)

Querência I

Julho 3, 2009 by Rodrigo

“Delinqüentes por sentimento de culpa”

Julho 2, 2009 by Rodrigo

“Uma vez me contaram de um cidadão que foi assaltado em sua casa. Até aí, nada demais. Tem gente que é assaltada na rua, no ônibus, no escritório, até dentro de igrejas e hospitais, mas muitos o são na própria casa. O que não diminui o desconforto da situação.

Pois lá estava o dito-cujo em sua casa, mas vestido em roupa de trabalho, pois resolvera dar uma pintura na garagem e na cozinha. As crianças haviam saído com a mulher para fazer compras e o marido se entregava a essa terapêutica atividade, quando, da garagem, vê adentrar pelo jardim dois indivíduos suspeitos.

Mal teve tempo de tomar uma atitude e já ouvia:
- É um assalto, fica quieto senão leva chumbo.

Ele já se preparava para toda a sorte das tragédias quando um dos ladrões pergunta: 
- Cadê o patrão?

Num rasgo de criatividade, respondeu: 
- Saiu, foi com a família ao mercado, mas já volta. 
- Então vamos lá dentro, mostre tudo.

Fingindo-se, então, de empregado de si mesmo, e ao mesmo tempo para livrar sua cara, começou a dizer:
- Se quiserem levar, podem levar tudo, estou me lixando, não gosto desse patrão. Paga mal, é um pão-duro. Por que não levam aquele rádio ali? Olha, se eu fosse vocês levava aquele som também. Na cozinha tem uma batedeira ótima da patroa. Não querem uns discos? Dinheiro não tem, pois ouvi dizerem que botam tudo no banco, mas ali dentro do armário tem uma porção de caixas de bombons, que o patrão é tarado por bombom. 

Os ladrões recolheram tudo o que o falso empregado indicou e saíram apressados.

Daí a pouco chegavam a mulher e os filhos.

Sentado na sala, o marido ria, ria, tanto nervoso quanto aliviado do próprio assalto que ajudara a fazer contra si mesmo.”

(da crônica Assaltos insólitos, de Affonso Romano de Sant’Anna.)

Se eu fosse eu

Julho 2, 2009 by Rodrigo

colméia de futuros cachecóis

Os tecelões

Julho 2, 2009 by Rodrigo

O que há de mais belo do que uma greve de tecelões?
Os tecelões fazem greve em amor à tecelagem.

Sua costura se interrompe
por um momento
para que possa existir para sempre.

Os tecelões dão linha ao futuro.
E além da lã, o que mais é preciso?

(Im)precisão?
(Im)paciência?

Violência

Julho 2, 2009 by Rodrigo

A lida é aparentemente violenta.

Qual a dose exata de força necessária para drenar um pneumotórax?
Em que volume deve soar um grito?

Um escritor angolano que vive nas montanhas e já morou em cárcere ensinou-me que a violência também pode ser digna. E ele mesmo se indagava nas horas de preparação de seus escritos: como fazer voltar as balas para dentro dos revólveres?

Tarrafal

Fado e fortuna

Julho 1, 2009 by Rodrigo

fortuna e fado

“Quando cai a casa de um grande senhor,
Muitos pobres são esmagados.
Os que não compartilharam a fortuna do poderoso
Freqüentemente compartilham seu fado. A queda da carroça
Arrasta consigo os bois suados
Para o fundo do abismo.”

[Bertolt Brecht (VIII, 21; Grosse kommentierte Berliner und Frankfurter Ausgabe - Aufbau/Suhrkamp, 1989-1998)]

Fracasso

Junho 30, 2009 by Rodrigo

“No final de A educação sentimental [de Flaubert], os amigos de infância Frédéric Moreau e Charles Deslauriers se reencontram, ocasião que propicia a comparação entre seus sonhos adolescentes e aquilo em que haviam se transformado em suas vidas adultas. A justaposição é claramente desfavorável à maturidade, que em comparação parece malsucedida e malograda, o lugar da frustração de paixões pessoais pessoais e sonhos de êxito profissional. O que aproxima os dois amigos, portanto, neste epílogo do romance, é justamente a percepção, compartilhada por eles, do presente como uma falta, em contraste com a plenitude do passado, mesmo que a plenitude de uma promessa.

Nas páginas finais do romance, a narrativa demonstra como a lembrança de um passado comum e o afeto por ele pode ser constitutivo de uma amizade. As memórias vão sendo evocadas dialogicamente, com perguntas de parte a parte — ”Ainda te recordas?”, “Ainda te lembras?” — e apoio mútuo. A evocação de nomes de antigos amigos, amantes e conhecidos suscita exclamações de reconhecimento e suspiros saudosos. O reconhecimento imediato de pessoas e lugares que lhes eram familiares, bem como o afeto compartilhado por eles, sustentará o sentimento de cumplicidade entre os dois amigos e construirá uma imagem comum do passado. Em última análise, as duas vozes constróem uma narrativa sobre a perda e o efeito destruidor do tempo, lembrando o argumento de Jean-Luc Nancy de que para a construção de uma narrativa histórica é menos importante a narração de uma seqüência de eventos do que a formação de uma comunidade.

A rememoração carinhosa de Moreau e Deslauriers não é, note-se, exatamente de façanhas da juventude. Sua nostalgia é, para ser preciso, pelo futuro que um dia existiria em seu passado, e seu anseio é visivelmente por aquilo que eles, quando jovens, imaginavam que fariam quando adultos, por aquele tempo futuro que seria preenchido escrevendo romances e estudando filosofia. É a perda de um horizonte de possibilidades o que se chora, a perda da comoção que brotara do sentimento de que as portas da história haviam sido arrombadas e o previamente inimaginável poderia, enfim, se materializar. Neste caso, como em tantos outros relatos literários e historiográficos, o olhar desconsolado se volta ao passado quando o futuro não cumpre aquilo que prometera.”   

(pp 36-37 de A política da nostalgia, de Marcos Piason Natali)

Resistência matutina

Junho 30, 2009 by Rodrigo

Esteban Felix/AP - Apoiadores do presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya

A padaria está de portas abertas e é da fornada, é do pão, é do apetite do trabalhador vizinho que o poeta tira seu fermento.

***

Embora opaca, a espuma sobre o café age qual espelho: faz caboclo olhar dentro e ver-se.

***

Ver-se é o início do verso. O resto é lembrar de ti e conjugar rebelião.

A gratidão é impossível

Junho 27, 2009 by Rodrigo

nunca será inteira
nunca será justa

Sempre há causas silenciosas
Sempre há causas silenciadas

Sempre há responsáveis modestos
Sempre há responsáveis amordaçados

nunca haverá só varanda
sempre haverá sótão