Dos espinhos inúteis, dos carneiros que não avaliam, da única rosa em milhões, do homem desajeitado no país das lágrimas, e do príncipe

Novembro 16, 2009 por Rodrigo

– Para que servem os espinhos?

O principezinho jamais renunciava a uma pergunta, depois que a tivesse feito. Mas eu estava irritado com o parafuso e respondi qualquer coisa:

Espinho não serve para nada. São pura maldade das flores.

–Oh!

Mas após aquele silêncio, ele me disse com uma espécie de rancor:

– Não acredito! As flores são fracas. Ingênuas. Defendem-se como podem. Elas se julgam terríveis com os seus espinhos…

Não respondi. Naquele  instante eu pensava: “Se esse parafuso ainda resiste, vou fazê-lo saltar a martelo”. O principezinho perturbou-me de novo as reflexões:

– E tu pensas então que as flores…

– Ora! Eu não penso nada. Eu respondi qualquer coisa. Eu só me ocupo com as coisas sérias!

Ele olhou-me estupefato:

– Coisas sérias!

Via-me, martelo em punho, dedos sujos de graxa, curvado sobre um feio objeto.

– Tu falas como as pessoas grandes!

Senti um pouco de vergonha. Mas ele acrescentou, implacável:

– Tu confundes todas as coisas… Misturas tudo!

Estava realmente muito irritado. Sacudia ao vento cabelos de ouro:

– Eu conheço um planeta onde há um sujeito vermelho, quase roxo. Nunca cheirou uma flor. Nunca olhou uma estrela. Nunca amou ninguém. Nunca fez outra coisa senão somas. E o dia todo repete como tu: “Eu sou um homem sério! Eu sou um homem sério!” e isso o faz inchar-se de orgulho. Mas ele não é um homem; é um cogumelo!

– Um o quê?

– Um cogumelo!

O principezinho estava agora pálido de cólera.

– Há milhões e milhões de anos que as flores fabricam espinhos. Há milhões e milhões de anos que os carneiros as comem apesar de tudo. E não será sério procurar compreender porque perdem tanto tempo fabricando espinhos inúteis? Não terá importância a guerra dos carneiros e das flores? Não será mais importante que as contas do tal sujeito? E se eu, por minha vez, conheço uma flor única no mundo, que só existe no meu planeta, e que um belo dia um carneirinho pode liquidar num só golpe, sem avaliar o que faz, — isto não tem importância?!

Corou um pouco e continuou em seguida:

– Se alguém ama um flor da qual só existe um exemplar em milhões e milhões de estrelas, isso basta para que seja feliz quando a contempla. Ele pensa: “Minha flor está lá, nalgum lugar…” Mas se o carneiro come a flor, é para ele, bruscamente, como se todas as estrelas se apagassem! E isso tem importância!

Não pôde dizer mais nada. Pôs-se bruscamente a soluçar. A noite caíra. Larguei as ferramentas. Ria-me do martelo, do parafuso, da sede e da morte. Havia numa estrela, num planeta, o meu, a Terra, um principezinho a consolar! Tomei-o nos braços. Embalei-o. E lhe dizia: “A flor que tu amas não está em perigo… Vou desenhar uma pequena mordaça para o carneiro… Uma armadura para a flor…Eu…” Eu não sabia o que dizer. Sentia-me desajeitado. Não sabia como atingi-lo, onde encontrá-lo… É tão misterioso o país das lágrimas!

(Do primo Rafael, da tia Bel e do pequeno Antoine de Saint-Exupéry)

A fome que faz caminhar

Outubro 19, 2009 por Rodrigo

o sistema ambulacral nas estrelas do mar
o sistema ambulacral
é o que de mais poético
e menos científico
restou nas estrelas do mar.

o que as firmava no firmamento
– fixas, acorrentadas e tristes –
era uma frágil convicção de guia,
uma vaga vocação de farol
a orientar alheio passo.

um dia, a estrela resolveu migrar
cadente
e foi, então, viver no mar.

e o que alimentava a estrela,
em princípio,
foi o que a fez andar

ambulacral –
faminta e ambulante –
a traçar o próprio passo.

Ao meio dia

Outubro 19, 2009 por Rodrigo

kiwi
O sol está a pino

e eu me compadeço
da noite chinesa.

Uma noite difícil

Outubro 19, 2009 por Rodrigo

o mar existe
e a água mundial
não se resume
àquela que agora cai
em forma de chuva

aqui

o sol nascerá
novamente
e há outras vidas
agora mesmo
vivas e por nascer
e morrer
noutros cantos
que não este

mas nada impede
que a noite me faça sentir
ínfimo
e,
insularmente, só

A produção social da angústia

Outubro 19, 2009 por Rodrigo

Nessa e noutras noites insones,
algo que me preocupa.

angústia equestre

Com cores

Outubro 14, 2009 por Rodrigo

inventando o próprio chão
“escuta, meu irmão, escuta este silêncio. O erro da pessoa é pensar que os silêncios são todos iguais. Enquanto não: há distintas qualidades de silêncio. É assim o escuro, este nada apagado que meus olhos tocam: cada um é um, desbotado à sua maneira.”

(de O cego estrelinho, em Estórias Abensonhadas de Mia Couto)

Para crianças e ïrmãos, em dia santo

Outubro 12, 2009 por Rodrigo

cachecol

Houve um russo que escreveu notas de inverno sobre impressões de verão.
Houve um puto que teve lembranças de um retiro de verão durante o inverno.

E houve quem fizesse promessas desse tipo:
alusões a ilusões
de varar estações.

Diálogo ao pesto

Outubro 11, 2009 por Rodrigo

mãe Brecht Zorate
permaneceram muito tempo em silêncio
juntos e separados; atados, hiatados.

veio o pequeno almoço.
veio o café da tarde.
e o silêncio era uma nata.

até que, numa imprecisa hora,
ela foi até a cozinha e mastigou
o viço de uma folha de manjericão.

suficiente.

o hálito se insinuou,
travestido de palavra,
e ele, enfim,
voltou a reparar nela.

Vigiando Romãs

Outubro 8, 2009 por Rodrigo

r, o, m, a, ~
Mitose é coisa que não faz sentido fora da aula de Ciências. Na vida real,
o que faz crecer o bambu, e arrebentar as frutas

é o tempo.

Houvesse gente paciente e ociosa, era só colocar cadeira de frente para o pomar pra ver crescer, milímetro a metro, a romã, a maçã, e a goiaba no pé.

E no peito, o que é que dá?

Guatemaltecas

Outubro 8, 2009 por Rodrigo

Cada um com sua sombra

Amanhece.

O sol come a neblina
e começa a pintar
caminhos,
árvores,
casinhas,
bichos,
gente…

E pra cada um
faz uma sombra.

Na poça

Na poça
havia muitas estrelas;
pedi a meu pai
que as tirasse dali.

Ele removeu a água
gota a gota
e pôs as estrelas
nas minhas mãos

Ao amanhecer
eu queria saber se era verdade
que ele as havia tirado da poça.

E era verdade, na poça
só restava o céu.

(Humberto Ak’Abal)