Meu século

novembro 16, 2011

“Meu século, minha fera, quem poderá
olhar-te dentro dos olhos
e soldar com o seu sangue
as vértebras de dois séculos?”

Osip Emilyevich Mandelstam – O século – 1923

The Water

novembro 8, 2011
“The water
The water came to realize
It’s dangerous size
The mountain
The mountain more then recognize
It’s deep and rocky sides
More than realized”

Pato-Coelho

novembro 7, 2011

1 amor, 2 camisas, 1 mariposa, e 1 vento para dizer que a vida é soberana

novembro 1, 2011

Antonio Elias separou suas duas melhores camisas. Olhou bem para as duas para decidir qual delas vestir no primeiro encontro que teria com a sua ex-esposa; eles vinham se falando por telefone há uns dias, e uma dúzia e meia de palavras dela com um pouco mais de tempero haviam causado nele algo parecido com o que costumam chamar de esperança.

A escolha da camisa era para torná-lo belo e apresentável a uma possível recaída dela. Foi até o banheiro para pegar um pente e quando voltou viu que uma Mariposa havia pousado sobre uma delas. Logo pensou: “é um sinal!!! Vou usar essa!” Eis que ele, mui zelosamente, segurou a camisa sem que a Mariposa se assustasse e foi até a janela para lançar o inseto ao ar.

A anedota então se fez: por descuido e falta de maior coordenação, lá se foi a vestimenta junto com a Mariposa. A Mariposa com asas próprias voou, mal foi lançada, e a camisa xadrez planou matreira e foi insuflada lentamente pelo vento, num vôo esplêndido até o telhado de uma casa já distante do outro quarteirão.

Maldita superstição!” Pensou ele… “Quanta bobagem!”

Foi ao encontro vestindo a camisa que restou e, mal chegou, sua ex-mulher soltou como um petardo: “você não tem outra camisa!? Essa foi a roupa que você usou no dia de nosso divórcio!!!”

Antonio Elias nunca saberá se a camisa lhe deu azar novamente, mas ele caiu do cavalo ao ver que a sua mulher não queria nada dele, nem de sua roupa velha.

O samba da mentira

outubro 28, 2011

o xampu é a mentira dos nossos cabelos
o sabonete é a mentira da nossa pele
creme dental é a mentira dos nossos dentes
e o batom é a mentira dos nossos beijos

o cotonete é a mentira dos nossos ouvidos
e o remédio é a mentira da nossa doença

a fumaça é a mentira do nosso cigarro
e o cigarro a mentira do nosso pulmão
a nicotina é a mentira da nossa cabeça
e a cabeça nicotina barra alcatrão

o automóvel é a mentira dessas avenidas
e as avenidas a mentira da locomoção

a liberdade é a mentira do comercial
e o comercial a mentira da televisão
e a televisão mentira da ignorância
e a ignorância é a mentira da informação

[O samba da mentira, Naiman]

Compreender

outubro 13, 2011

“as palavras não fazem o homem compreender, é preciso fazer-se homem para entender as palavras”

(Herberto Helder)

Outro tempo

outubro 10, 2011

Quando Jean Brunhes publica, em 1914, o seu livro A Geografia Humana, ele também se desculpa diante de seu público e do seu editor por um atraso de dez anos. Nossa culpa é dobrada, porque nosso projeto é ainda mais velho. Mas podemos, como ele, dizer que “o meu atraso deve-se ao escrúpulo e não à negligência”.

(Milton Santos – na introdução de seu livro A Natureza do Espaço)

Amor tipo 1b2

outubro 3, 2011

Na discussão entre aquele que dizia horizonte e aquele que dizia ponto de fuga,
Um homem perguntou a outro se aquelas duas setas possuíam o mesmo tamanho,
Se eram chave e fechadura ou uma ilusão
De óptica. O mesmo homem perguntou por que, afinal, Eros?

E outro respondeu com uma pergunta:

- É a perspectiva quem cria o desejo…
ou o desejo inventa a perspectiva?

Amor tipo 1b

setembro 30, 2011

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.  Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

[Dos três mal amados - João Cabral de Melo Neto]

Amor tipo 1a

setembro 29, 2011

No deserto verde

“Eu calipto
Tu calipto
Nós capitulamos”


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