47 anos

janeiro 3, 2010 por Rodrigo

em 3 de janeiro de 1963, há 47 anos, Hélio Pellegrino escrevia…

Esta água que brota,
Esta fonte prounda.
Não a quero ter.
Porque a minha sede
É da fonte que brota,
É da água profunda
Na sua imensa liberdade.
Fonte viva,
Água alta,
Estrela da carne:
– Que carinho grave!

Reinado ortográfico

dezembro 30, 2009 por Rodrigo

A majestade é rainha soberba porque só sabe reinar com avareza.
A magestade reina humilde porque aprendeu — magnânima — os dons de ser outrem.

Um tem o jota, empinado e petulante, escravo da norma — masculino.
Outra, o gê, grávido e cheio de curvas, camuflada homofonia — feminino.

A majestade tem o poder ereto do falo, arrogante.
A magestade tem o poder repleto de acaso, variante.

O leito de Procusto

dezembro 22, 2009 por Rodrigo

“Conta-nos uma lenda antiga, que um homem rico e poderoso, obsequioso e cortês, gostava de convidar estranhos para seu palácio, onde propiciava vinhos e as iguarias mais requintadas e oferecia-lhes um leito suntuoso para o descanso.

O único problema que se apresentava para o convidado era que ele tinha de encaixar-se perfeitamente no leito. Se houvesse a menor discrepância entre o tamanho do convidado e o leito, suas pernas eram cortadas ou esticadas até que ele se ajustasse às proporções devidas e nesse processo o incauto quase sempre acabava por morrer.

Somente  aqueles raros convidados cujas proporções coincidiam com as da cama tinham suas vidas poupadas e alcançavam a velhice.”

Dichtung – drei

dezembro 18, 2009 por Rodrigo

A fraqueza do homem é o que fortalece o poema.

Saúde mental

dezembro 18, 2009 por Rodrigo


A moça me disse que ter saúde é ter 30 aos 30, 15 ao 15 e assim por diante.

Fui até a famárcia e tomei um ‘remedinho’: envelheci da cintura pra baixo, rejuvenesci da cintura pra cima…

Continuei um minotauro, agora invertido… mas foi bom pra dedéu!

Pesar menos e obrar mais

dezembro 10, 2009 por Rodrigo


Para mim e para Otto*

“Preciso fundar em mim a disciplina da fidelidade. Preciso aprender a ser fiel a mim mesmo, às verdades que me são reveladas e que eu busco, num certo sentido, esquecer e malcurar, pois nenhuma tarefa é tão pesada como a de pastorear o ser das coisas que a nós se revela. Preciso aprender a trabalhar com método calmo e transparente amor. A revelação, a iluminação, nada mais representam do que o bloco de pedra a partir do qual se há de arrancar a escultura. Preciso aprender a tornar-me o escultor cotidiano, aquele que acorda e dorme a sua obra, no desfiar dos dias que se sucedem, com paciência e silenciosa paixão. Preciso pesar menos e obrar mais. Preciso ser menos eruptivo e mais fluente. Preciso fluir, manar, desdobrar-me, descobrir-me, preciso permitir que as águas venham da rocha profunda. Pois só na medida em que as águas surgem é que elas renovam. Do fluir decorre a fluência. Não há fluência sem o fluir, da mesma forma como não há fonte sem a água que borbulha. A fonte é a água que borbulha, e mais nada. Não há, portanto, fonte onde não há o fluir da água, onde não existe o seu brotar da pedra, frio e fresco. Estou certo de que só o criar alimenta e restaura a capacidade de criação. Não resta dúvida de que, às vezes, as coisas parecem que nos são dadas por acréscimo, por superabundância, por graça. Mas estas coisas que nos são dadas de graçça exigem de nós, depois, a paciente perseverança, o aturado e duradouro calor, capaz de transformar-nos nos guardiões da graça do ser que a nós se revelou. O preço da graça que recebemos é nos mantermos fiéis a ela, é nos tornarmos os porta-vozes dela, nos fazermos a voz dela, a linguagem dela. A graça quer aceder ao mundo através da nossa boca que fala. Fala boca, para que te possas, depois, calar com dignidade. Fala, para mereceres o silêncio, que vem depois, como a noite vem depois do dia. Fala.”

Rio de Janeiro, 12/06/62

*bilhete datilografado, assinado por
Hélio Pellegrino, para Otto Lara Resende.

Cultivo

dezembro 10, 2009 por Rodrigo

Teu coração segue sendo o terreno do meu arado
Mesmo quando teu olho fica sem porta, um rio opaco.

Semear, contra toda a dureza, é amar somente
Confiar no poder transformador da semeadura
Crer nas qualidades próprias de cada semente
E perceber que, à candura, não há terra dura.

Cultivar e cultivar-se. Porque toda terra é, em si, fértil.

Pacheco

dezembro 3, 2009 por Rodrigo

Pacheco era técnico de radiologia e vivia de tédio.

Achava o mundo chato, e vivia de chacota,
porque achava que a chatice do mundo
era problema do mundo e não dele.

Na volta do almoço, uma senhora encurvada
deu-lhe um santinho onde se lia:
“tu foste feito à imagem e semelhança do Pai.”

Pacheco riu e pensou:
“nem a pau!
Na chapa, Deus sempre sai mal”

Dos espinhos inúteis, dos carneiros que não avaliam, da única rosa em milhões, do homem desajeitado no país das lágrimas, e do príncipe

novembro 16, 2009 por Rodrigo

– Para que servem os espinhos?

O principezinho jamais renunciava a uma pergunta, depois que a tivesse feito. Mas eu estava irritado com o parafuso e respondi qualquer coisa:

Espinho não serve para nada. São pura maldade das flores.

–Oh!

Mas após aquele silêncio, ele me disse com uma espécie de rancor:

– Não acredito! As flores são fracas. Ingênuas. Defendem-se como podem. Elas se julgam terríveis com os seus espinhos…

Não respondi. Naquele  instante eu pensava: “Se esse parafuso ainda resiste, vou fazê-lo saltar a martelo”. O principezinho perturbou-me de novo as reflexões:

– E tu pensas então que as flores…

– Ora! Eu não penso nada. Eu respondi qualquer coisa. Eu só me ocupo com as coisas sérias!

Ele olhou-me estupefato:

– Coisas sérias!

Via-me, martelo em punho, dedos sujos de graxa, curvado sobre um feio objeto.

– Tu falas como as pessoas grandes!

Senti um pouco de vergonha. Mas ele acrescentou, implacável:

– Tu confundes todas as coisas… Misturas tudo!

Estava realmente muito irritado. Sacudia ao vento cabelos de ouro:

– Eu conheço um planeta onde há um sujeito vermelho, quase roxo. Nunca cheirou uma flor. Nunca olhou uma estrela. Nunca amou ninguém. Nunca fez outra coisa senão somas. E o dia todo repete como tu: “Eu sou um homem sério! Eu sou um homem sério!” e isso o faz inchar-se de orgulho. Mas ele não é um homem; é um cogumelo!

– Um o quê?

– Um cogumelo!

O principezinho estava agora pálido de cólera.

– Há milhões e milhões de anos que as flores fabricam espinhos. Há milhões e milhões de anos que os carneiros as comem apesar de tudo. E não será sério procurar compreender porque perdem tanto tempo fabricando espinhos inúteis? Não terá importância a guerra dos carneiros e das flores? Não será mais importante que as contas do tal sujeito? E se eu, por minha vez, conheço uma flor única no mundo, que só existe no meu planeta, e que um belo dia um carneirinho pode liquidar num só golpe, sem avaliar o que faz, — isto não tem importância?!

Corou um pouco e continuou em seguida:

– Se alguém ama um flor da qual só existe um exemplar em milhões e milhões de estrelas, isso basta para que seja feliz quando a contempla. Ele pensa: “Minha flor está lá, nalgum lugar…” Mas se o carneiro come a flor, é para ele, bruscamente, como se todas as estrelas se apagassem! E isso tem importância!

Não pôde dizer mais nada. Pôs-se bruscamente a soluçar. A noite caíra. Larguei as ferramentas. Ria-me do martelo, do parafuso, da sede e da morte. Havia numa estrela, num planeta, o meu, a Terra, um principezinho a consolar! Tomei-o nos braços. Embalei-o. E lhe dizia: “A flor que tu amas não está em perigo… Vou desenhar uma pequena mordaça para o carneiro… Uma armadura para a flor…Eu…” Eu não sabia o que dizer. Sentia-me desajeitado. Não sabia como atingi-lo, onde encontrá-lo… É tão misterioso o país das lágrimas!

(Do primo Rafael, da tia Bel e do pequeno Antoine de Saint-Exupéry)

A fome que faz caminhar

outubro 19, 2009 por Rodrigo

o sistema ambulacral nas estrelas do mar
o sistema ambulacral
é o que de mais poético
e menos científico
restou nas estrelas do mar.

o que as firmava no firmamento
– fixas, acorrentadas e tristes –
era uma frágil convicção de guia,
uma vaga vocação de farol
a orientar alheio passo.

um dia, a estrela resolveu migrar
cadente
e foi, então, viver no mar.

e o que alimentava a estrela,
em princípio,
foi o que a fez andar

ambulacral –
faminta e ambulante –
a traçar o próprio passo.