Outubro 19, 2009 por Rodrigo
o sistema ambulacral
é o que de mais poético
e menos científico
restou nas estrelas do mar.
o que as firmava no firmamento
– fixas, acorrentadas e tristes –
era uma frágil convicção de guia,
uma vaga vocação de farol
a orientar alheio passo.
um dia, a estrela resolveu migrar
cadente
e foi, então, viver no mar.
e o que alimentava a estrela,
em princípio,
foi o que a fez andar
ambulacral –
faminta e ambulante –
a traçar o próprio passo.
Publicado em Hipérboles , Livre pensar , Teatro , poesia | 2 Comentários »
Outubro 19, 2009 por Rodrigo
O sol está a pino
e eu me compadeço
da noite chinesa.
Publicado em Livre pensar | Deixar um comentário »
Outubro 19, 2009 por Rodrigo
o mar existe
e a água mundial
não se resume
àquela que agora cai
em forma de chuva
aqui
o sol nascerá
novamente
e há outras vidas
agora mesmo
vivas e por nascer
e morrer
noutros cantos
que não este
mas nada impede
que a noite me faça sentir
ínfimo
e,
insularmente, só
Publicado em Livre pensar | Deixar um comentário »
Outubro 19, 2009 por Rodrigo
Nessa e noutras noites insones,
algo que me preocupa.
Publicado em Livre pensar | Deixar um comentário »
Outubro 14, 2009 por Rodrigo
“escuta, meu irmão, escuta este silêncio. O erro da pessoa é pensar que os silêncios são todos iguais. Enquanto não: há distintas qualidades de silêncio. É assim o escuro, este nada apagado que meus olhos tocam: cada um é um, desbotado à sua maneira.”
(de O cego estrelinho, em Estórias Abensonhadas de Mia Couto)
Publicado em Livre pensar | Deixar um comentário »
Outubro 12, 2009 por Rodrigo
Houve um russo que escreveu notas de inverno sobre impressões de verão.
Houve um puto que teve lembranças de um retiro de verão durante o inverno.
E houve quem fizesse promessas desse tipo:
alusões a ilusões
de varar estações.
Publicado em breguices | Deixar um comentário »
Outubro 11, 2009 por Rodrigo
permaneceram muito tempo em silêncio
juntos e separados; atados, hiatados.
veio o pequeno almoço.
veio o café da tarde.
e o silêncio era uma nata.
até que, numa imprecisa hora,
ela foi até a cozinha e mastigou
o viço de uma folha de manjericão.
suficiente.
o hálito se insinuou,
travestido de palavra,
e ele, enfim,
voltou a reparar nela.
Publicado em Livre pensar | Deixar um comentário »
Outubro 8, 2009 por Rodrigo
Mitose é coisa que não faz sentido fora da aula de Ciências. Na vida real,
o que faz crecer o bambu, e arrebentar as frutas
é o tempo.
Houvesse gente paciente e ociosa, era só colocar cadeira de frente para o pomar pra ver crescer, milímetro a metro, a romã, a maçã, e a goiaba no pé.
E no peito, o que é que dá?
Publicado em breguices | 4 Comentários »
Outubro 8, 2009 por Rodrigo
Cada um com sua sombra
Amanhece.
O sol come a neblina
e começa a pintar
caminhos,
árvores,
casinhas,
bichos,
gente…
E pra casa um
faz uma sombra.
Na poça
Na poça
havia muitas estrelas;
pedi a meu pai
que as tirasse dali.
Ele removeu a água
gota a gota
e pôs as estrelas
nas minhas mãos
Ao amanhecer
eu queria saber se era verdade
que ele as havia tirado da poça.
E era verdade, na poça
só restava o céu.
(Humberto Ak’Abal)
Publicado em poesia | Deixar um comentário »
Outubro 7, 2009 por Rodrigo
Se eu fosse o Luis XVI, pediria para não cortarem a minha cabeça fora.
Diria eu:
- Minha realeza não vem da cabeça, meu poder fica mais pra baixo…
O algoz com certeza maliciaria, e me daria um safanão…
E, ao final, eu diria:
- Não se confunda; decapitado, ainda estou inteiro.
Publicado em auto-ironia | 3 Comentários »